18ª Edição

Matéria | A criatividade humana como peça insubstituível

Por Redação

24/03/2026 13h20

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Sensibilidade, repertório e leitura cultural seguem sendo o verdadeiro diferencial criativo

A inteligência artificial já faz parte da rotina de agências, departamentos de marketing e até de setores técnicos da indústria. Ferramentas capazes de gerar textos, imagens, roteiros e análises em segundos vêm acelerando processos e ampliando possibilidades criativas. Ainda assim, no centro das boas ideias, permanece um elemento que nenhuma tecnologia conseguiu replicar plenamente, que é a capacidade humana de interpretar contextos, emoções e comportamentos.

Para Américo Neto, fundador da ViaMídia Publicidade e diretor nacional do Espaço de Articulação Coletiva do Ecossistema Publicitário (ABAP), a criação contemporânea nasce cada vez mais da colaboração entre pessoas e máquinas, mas há dimensões que permanecem essencialmente humanas. 

“Uma IA ainda não consegue entender o que as pessoas pensam, como elas escolhem, quais as músicas que gostam… há muita imprecisão nesse processo, há muita barriga no balcão e isso a IA não consegue. O cheiro de gente, o movimento das feiras livres, as pessoas escolhendo produtos na avenida sete ou em um grande shopping center, ou até mesmo no e-commerce têm desejos que a IA não consegue entender e essa união da máquina com a criatividade humana está potencializando demais a atividade da comunicação”, afirma.

Contudo, esse raciocínio não se aplica apenas ao universo da comunicação. Mesmo em setores fortemente baseados em ciência, tecnologia e análise de dados, a interpretação humana continua sendo determinante para transformar conhecimento em soluções. É o que observa Marcos Lima, diretor da Integral Mix, empresa com atuação no setor de nutrição animal. Segundo o diretor, mesmo com tecnologias avançadas de formulação e análise nutricional, o diferencial competitivo está na capacidade de compreender a realidade de cada cliente.

“A tecnologia nos fornece parâmetros, análises nutricionais, indicadores de desempenho. Mas é a sensibilidade humana que nos permite entender a realidade de quem está no campo. O produtor rural não busca apenas preço. Ele busca previsibilidade, eficiência, sustentabilidade e segurança”, pontua Marcos Lima, e acrescenta que, no agronegócio, variáveis como clima, manejo, estrutura produtiva e objetivos de mercado fazem com que cada produtor tenha necessidades diferentes.

“No caso da aquicultura, por exemplo, uma ração mais barata pode gerar maior poluição no tanque, impactar a qualidade da água e comprometer toda a produção. Ou seja, o custo inicial pode se transformar em prejuízo. É preciso compreender o contexto daquele cliente, o porte da produção, o ambiente, o mercado que ele atende. Essa leitura cultural e técnica combinada é insubstituível, e é aí que a criatividade humana se torna decisiva”, afirma o diretor da Integral Mix.

Sensibilidade: o motor da ideia

Se a tecnologia ajuda a organizar dados, tendências e padrões, o que transforma informação em criação relevante continua sendo a capacidade humana de interpretar o mundo. Para Américo Neto, campanhas memoráveis surgem da combinação entre repertório e sensibilidade. Para o publicitário, “o surpreendente, o emocionante e o inovador são pilares para algo ser inesquecível”.

“Para que a gente consiga emocionar e encantar precisamos misturar elementos de forma que não tem sido misturados e precisamos ter ouvido apurado para escutar de tudo e principalmente as pessoas. Precisamos de olhar atento para as referências visuais e até o tato e olfato. Quantos mais referências temos, mais elementos podemos juntar e a cola de tudo isso é a sensibilidade. Entender e conhecer o cliente, sentir o que ele sente, isso ajuda a “colar” as pontas de maneira que façam sentido para esse consumidor”, detalha. 

Essa leitura do ambiente, ao mesmo tempo técnica e cultural, é o que permite desenvolver soluções realmente eficientes. Mesmo com o avanço da automação, o relacionamento direto com as pessoas continua sendo uma das principais fontes de inovação. Marcos Lima pontua que a nutrição animal ilustra bem essa lógica: embora existam softwares sofisticados de formulação, a realidade de cada produção exige interpretação humana.

“A nutrição animal não é uma equação puramente matemática, ela é uma equação humana. Podemos ter fórmulas avançadas, softwares de formulação e tecnologia embarcada na produção, mas nenhuma ferramenta substitui a escuta ativa e o conhecimento do dia a dia do produtor”, enfatiza.

Entre dados e intuição

Em um momento em que inteligência artificial, automação e análise de dados se tornam cada vez mais presentes nas decisões empresariais, a criatividade passa a depender menos de ferramentas e mais da capacidade de interpretar o comportamento humano. Criar, afinal, continua sendo um exercício profundamente humano.

O diretor da Integral Mix esclarece o cenário apontando que, dentro do setor empresarial, o papel não é apenas vender o produto mais barato, mas entregar a solução mais adequada. “E isso exige proximidade, confiança e repertório acumulado ao longo dos anos. A tecnologia potencializa o nosso trabalho, mas é o relacionamento humano que garante assertividade e fidelização. No fim das contas, a criatividade está justamente na capacidade de integrar ciência, inovação e entendimento profundo das pessoas”, conclui.