18ª Edição

Matéria de Capa | Quanto vale a autenticidade em um contexto tecnicista?

Por Redação

24/03/2026 12h55

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Tecnologia escala processos, mas são pessoas que constroem confiança, interpretam contextos e sustentam a inovação

A corrida por tecnologia nunca foi tão intensa nas empresas. Inteligência artificial, automação e análise avançada de dados passaram a orientar decisões estratégicas, redesenhar processos e redefinir modelos de negócio. Paradoxalmente, quanto mais sistemas evoluem, mais o fator humano se torna determinante para o sucesso das organizações. 

Empresas de setores altamente técnicos, como cibersegurança, energia, infraestrutura e tecnologia, começam a perceber que inovação, eficiência e escala só se sustentam no longo prazo quando estão ancoradas em cultura, confiança e relações humanas consistentes.

No entanto, tanta tecnologia afeta a forma de trabalhar, além de gerar preocupação com a futura mão de obra humana. Segundo levantamento da NordVPN, 17% dos brasileiros já temem perder o emprego por causa da IA. Outros 27% acham que a tecnologia está evoluindo rápido demais. Esses números ganham ainda mais peso diante do estudo da Michael Page, que mostra que 60% dos profissionais brasileiros se preocupam com o impacto da Inteligência Artificial  nas suas carreiras, um índice superior à média global (52%) e à da América Latina (50%).

A explicação para as questões é simples: tecnologia escala processos, mas são as pessoas que interpretam contextos, constroem relações e tomam decisões complexas. As empresas necessitam de pessoas. Essa lógica se torna ainda mais evidente em setores onde a precisão técnica é fundamental. Para Andréa Cirino, CEO da Network Secure, empresa especializada em cibersegurança, a dimensão humana está presente em praticamente todas as camadas do sistema de proteção digital. 

“Sistemas e protocolos são fundamentais, mas eles são criados, configurados e operados por pessoas. Como, também, é pelas pessoas que muitos ataques conseguem avançar. Grande parte das estratégias de ciberataque hoje explora exatamente comportamentos humanos: confiança, distração, urgência ou falta de conhecimento. Isso significa que a segurança não é apenas um tema tecnológico, mas também um tema de consciência, cultura e responsabilidade coletiva”, alerta Andréa Cirino.

Ainda de acordo com a CEO, na prática, empresas realmente maduras em segurança entendem que tecnologia e comportamento precisam caminhar juntos. Protocolos protegem sistemas, mas é a consciência das pessoas que protege o ecossistema como um todo, uma vez que, boa parte das ameaças digitais explora exatamente comportamentos humanos.

Técnica humanizada

Quando se trata de ambientes técnicos, a ideia é que apenas máquinas estejam trabalhando e o ser humano apenas no modo operacional. Para Renato Felipe, diretor presidente da Companhia Eletromecânica e Gerenciamento de Dados (Ceneged), “mesmo atuando em um setor altamente técnico, acreditamos que a tecnologia é apenas um meio. O verdadeiro diferencial está nas pessoas que fazem tudo acontecer. Na Ceneged, a dimensão humana está no centro da nossa estratégia porque entendemos que é a partir dela que construímos uma cultura que conecta, fortalece relações e gera resultados sustentáveis”.

Para Renato Felipe é necessária a busca pela criação de um ambiente em que as pessoas se sintam valorizadas e parte da construção da empresa. “Iniciativas internas como o Programa Vigorar, voltado ao bem-estar emocional dos colaboradores, e projetos de reconhecimento como o Você Tem Valor e o Orgulho do Tempo refletem esse compromisso. São formas de demonstrar que, além da performance técnica, valorizamos a trajetória, o cuidado e a dedicação de cada profissional”, destaca o presidente, e acrescenta que “quando cuidamos das pessoas, conseguimos gerar valor para todos: colaboradores, clientes, parceiros e para a sociedade.”

Já segundo Raylane Araújo, coordenadora de execução de mercado na Solar Coca-Cola, quando bem utilizadas, tecnologias como automação e inteligência analítica ajudam as marcas a serem mais relevantes, porque permitem compreender melhor os contextos de consumo e adaptar estratégias de forma mais assertiva. 

“Na Solar Coca-Cola, por exemplo, utilizamos diferentes fontes de dados e soluções tecnológicas, como reconhecimento de imagem no ponto de venda, para ampliar nossa visão sobre o comportamento do mercado e apoiar decisões mais estratégicas. Esses insights ajudam a orientar desde a forma como os produtos são posicionados nas lojas até a construção de estratégias que tornem a experiência de compra mais intuitiva e relevante para o consumidor. O equilíbrio está em usar a tecnologia para ampliar a escuta e a inteligência das decisões, sem perder de vista que são as pessoas, seus valores, histórias e expectativas, que dão sentido à forma como as marcas se relacionam com o público”, explica Raylane. 

Marcas sensíveis

O universo do marketing tem apostado em ações cada vez mais palpáveis para os consumidores, apesar da ascensão da IA, com o objetivo de tornar as marcas mais próximas dos clientes e humanizadas. Em relação ao atendimento e conversas com marcas, de acordo com uma pesquisa publicada pelo portal Cliente S/A, 39% dos brasileiros ainda preferem o atendimento humanizado. A pesquisa revela ainda que 26% do público não gostam de chatbots, mas toleram esse tipo de atendimento desde que tragam soluções. 

Um dos exemplos de marcas que, mesmo atuando em grande escala de produção e venda, apostam sempre em trazer seu público para perto, se chama Burger King. Frequentemente o BK destaca em suas redes sociais pessoas reais e comuns, proporcionando o engajamento de consumidores ou não consumidores, apenas pelo destaque da história da pessoa. Com as ações, a marca revela uma preocupação em sensibilizar seus produtos, fazendo o público considerar o BK como uma marca que não apenas vende hambúrgueres, mas que se conecta com histórias de verdade. Isso fomenta relacionamento e proximidade. 

Nesse contexto, Raylane Araújo aponta que, uma vez que as marcas presentes no portfólio da Solar Coca-Cola estão presentes em diversos momentos da vida do seu público, uma boa a estratégia de marketing ajuda a garantir consistência e propósito, orientando como as marcas se posicionam e se conectam com diferentes ocasiões de consumo. Quanto à tecnologia, ela amplia a capacidade de entender comportamentos e identificar oportunidades, mas é a sensibilidade humana que transforma informação em conexão.

“Esse equilíbrio aparece muito na forma como olhamos para a experiência dentro das lojas. O ponto de venda é onde a marca ganha vida no cotidiano do consumidor, seja na forma como os produtos estão disponíveis, organizados ou apresentados. Quando estratégia, tecnologia e sensibilidade caminham juntas, conseguimos tornar essa presença mais natural, relevante e alinhada ao que as pessoas realmente esperam das marcas no cotidiano. Construir relações genuínas passa por reconhecer que, por trás de cada decisão de negócio, existe uma experiência humana sendo vivida”, destaca a coordenadora. 

Errar é humano

Por muito tempo, a dimensão humana foi tratada como o elo mais frágil em meio a potência do digital. O erro: geração de expectativas erradas, gerando colaboradores inerrantes, como os robôs, mas ao mesmo tempo inseguros. Para Andréa Cirino, essa mudança começa pela forma como as organizações lidam com o erro.

“O primeiro passo é mudar a forma como olhamos para o erro humano. Quando tratamos as pessoas apenas como “o elo fraco da segurança”, criamos medo e distanciamento. O caminho mais eficaz é transformar segurança em uma cultura compartilhada, e não em um conjunto de regras impostas. Isso envolve educação contínua, comunicação clara e, principalmente, engajamento. As pessoas precisam entender por que determinadas práticas existem e qual o impacto real de suas ações no ambiente digital da empresa”, destaca. 

A especialista ainda aponta que quando colaboradores se percebem como parte ativa da proteção do negócio, “o comportamento muda. Eles deixam de ser apenas usuários de sistemas e passam a ser agentes de segurança dentro da organização”.

Tecnologia com rosto humano

Nos últimos anos, empresas altamente técnicas passaram a investir também em iniciativas voltadas ao bem-estar, ao desenvolvimento e ao reconhecimento das equipes. Essa abordagem tem ganhado força em diferentes setores. Empresas tradicionalmente técnicas começaram a incorporar estratégias mais humanizadas em suas operações e cultura organizacional.

Um dos exemplos mais conhecidos é o da Microsoft. Nos últimos anos, a companhia passou por uma profunda transformação cultural sob liderança de Satya Nadella, adotando princípios de empatia, colaboração e aprendizado contínuo como pilares da inovação. Outro caso frequentemente citado é o da IBM, que incorporou práticas de design thinking centrado no ser humano para desenvolver soluções tecnológicas mais alinhadas às necessidades reais dos usuários.

No universo das marcas que fazem parte da rotina das pessoas, como acontece com a Coca-Cola, Raylane Araújo conta que essa coerência se materializa em experiências que convidam o consumidor a participar da história da marca. Campanhas como latas personalizadas com nomes ou adjetivos, por exemplo, criam identificação imediata e transformam um produto em algo pessoal. 

“Da mesma forma, ativações e edições especiais que acompanham momentos culturais, como eventos esportivos, datas comemorativas ou até mesmo lançamento de filmes ou jogos, ajudam a transformar a presença da marca em algo mais próximo e significativo para as pessoas. Uma narrativa autêntica não se sustenta apenas nas palavras. Ela se constrói nas escolhas diárias e na capacidade da marca de transformar propósito em experiências reais que façam sentido na vida das pessoas!”, declarou a coordenadora. 

Essas mudanças também refletem uma percepção cada vez mais clara no ambiente empresarial. Ou seja, a inovação não nasce apenas da tecnologia, mas da capacidade de compreender pessoas e contextos.

Em um ambiente que precisa ser altamente orientado por dados, outro desafio surge: evitar que decisões estratégicas se tornem excessivamente técnicas e desconectadas da realidade das equipes e clientes. Na Ceneged, esse equilíbrio entre análise técnica e escuta ativa faz parte da cultura de gestão. De acordo com Renato Felipe, os dados são fundamentais para orientar decisões, mas precisam estar conectados à realidade das pessoas que vivem o dia a dia da operação. 

“Na Ceneged, buscamos equilibrar análise técnica com escuta ativa, valorizando o diálogo entre as equipes e a liderança. Criamos espaços que estimulam essa troca, como encontros de integração e alinhamento entre áreas, além de iniciativas que aproximam o administrativo da operação, como o Gestão na Rota, que promove visitas ao campo e fortalece a conexão com as equipes operacionais. Esse contato direto permite compreender melhor os desafios, as oportunidades e as necessidades de cada contexto”, disse o presidente. 

O risco do tecnicismo

Quando empresas passam a priorizar exclusivamente processos e indicadores, um risco silencioso começa a surgir, como a perda de conexão com o propósito organizacional. Para Renato Felipe, esse é um dos principais desafios das empresas que operam em ambientes altamente técnicos.

“O maior risco é perder o propósito. Quando uma organização passa a olhar apenas para processos e indicadores, ela pode acabar se desconectando do que realmente sustenta o crescimento no longo prazo: as pessoas. Empresas que deixam de cultivar relações humanas fortes podem enfrentar desafios como queda de engajamento das equipes, dificuldade em inovar e enfraquecimento da confiança com clientes e parceiros. Para nós, a eficiência técnica precisa caminhar junto com empatia, respeito e proximidade”, ressalta

Nesse pensamento, Raylane Araújo destaca que quanto mais avançadas se tornam as ferramentas, mais essencial se torna o olhar humano para interpretar o que realmente importa. “A tecnologia amplia a capacidade de análise, mas é a sensibilidade humana que dá significado aos dados. É o repertório cultural que permite entender os sinais da sociedade, a leitura de contexto que revela as mudanças de comportamento e a empatia que transforma informação em conexão real”, disse. 

Para ela, em relação ao marketing do futuro, por exemplo, isso não se trata de uma disputa entre tecnologia e humanidade, mas uma construção conjunta entre os dois. “As ferramentas continuarão evoluindo e ampliando possibilidades, mas serão as pessoas que transformarão esses recursos em decisões relevantes. Nesse cenário, talvez o maior desafio não seja apenas acompanhar o avanço tecnológico, mas preparar pessoas e organizações para trabalhar com ele de forma consciente e estratégica. Porque, no fim, são as pessoas que dão propósito à tecnologia, e não o contrário”, disse. 

Para Andréa Cirino, muitas organizações fazem investimentos significativos em ferramentas e infraestrutura de segurança, mas subestimam o papel da cultura organizacional. “A tecnologia é essencial, mas ela não substitui comportamento, consciência e responsabilidade. Um ambiente verdadeiramente seguro nasce do equilíbrio entre tecnologia, processos e pessoas”, conclui.