Velocidade virou regra no mundo dos negócios. Mas, na saúde, acelerar sem critério cobra um preço alto. Médico e empresário, Leandro Ribeiro Vaz construiu sua trajetória conciliando expansão, governança e escolhas conscientes. Nesta conversa com o Nosso Meio, ele fala sobre os limites do crescimento acelerado, os riscos de transformar propósito em burocracia e por que liderar hoje exige mais clareza do que presença constante.
NOSSO MEIO | Você atua em um setor altamente competitivo e regulado, o da saúde. Quais decisões de gestão exigem mais consciência hoje para não comprometer o crescimento do negócio no médio e longo prazo?
Leandro Ribeiro Vaz: Atuar na saúde exige um nível de consciência maior do que em muitos outros setores, porque qualquer decisão errada não afeta apenas o caixa, mas as pessoas. Hoje, as decisões mais críticas passam por não crescer atropelando princípios: compliance, ética médica, qualidade técnica e posicionamento. Isso foi um aprendizado já de dentro de casa e mais fortalecido por eu também participar do conselho de administração do Sabin.
Vejo muitos negócios tentando acelerar demais, reduzindo tempo de consulta, padronizando excessivamente o cuidado ou terceirizando decisões estratégicas sem critério. No médio e longo prazo, isso cobra um preço alto.
NOSSO MEIO | Ao escalar seus negócios – seja clínica, educação ou marca – qual foi o maior desafio de estruturar processos sem perder qualidade, cultura e posicionamento?
Leandro Ribeiro Vaz: O maior desafio foi entender que processo não pode engessar propósito. No início, tudo passa pelo fundador: visão, padrão, cultura. Ao escalar, o risco é transformar algo premium em algo apenas replicável.
Processo mal desenhado vira burocracia; processo bem desenhado preserva padrão. A chave foi definir claramente o que é inegociável, que pra nós é: qualidade, posicionamento e experiência e permitir flexibilidade operacional dentro desses limites. Escolhemos bem nosso time, isso faz muita diferença. Escala só funciona quando o processo sustenta o posicionamento, e não o contrário.
NOSSO MEIO | Como você organiza sua agenda e sua liderança para não ser engolido pela operação e conseguir manter uma visão estratégica sobre expansão e novos projetos?
Leandro Ribeiro Vaz: Primeiro tenho prioridades antes do trabalho: minha saúde e minha família, então começo o dia cobrindo esses pontos. Em relação ao trabalho, eu separo claramente os papéis: tenho momentos do dia para cada empresa, momentos de operador e momentos de estrategista.
Hoje minha agenda não é ocupada só por demandas, mas por decisões, isso nem sempre foi assim. Tenho blocos semanais inegociáveis para pensar: expansão, novos negócios, pessoas-chave e riscos e reuniões com cada grupo de líderes que irão executar. Liderança pra mim é formar pessoas melhores do que eu na execução, senão vira gargalo operacional, o negócio para de crescer ou cresce errado.
NOSSO MEIO | Na prática, o que muda na gestão quando o negócio deixa de depender só do fundador e passa a exigir líderes, times e governança?
Leandro Ribeiro Vaz: Muda tudo. O negócio deixa de ser pessoal e passa a ser institucional. Isso exige governança, indicadores claros, processos decisórios e prestação de contas. O papel do fundador migra da execução para a definição de direção, cultura e estratégia. Também muda o ego do fundador: você deixa de ser o melhor em tudo para ser o responsável por montar o melhor time
NOSSO MEIO | Quais tendências você identifica para os próximos anos, em gestão e negócios, que exigirão dos líderes uma combinação ainda maior de velocidade com consciência?
Leandro Ribeiro Vaz: Vejo três movimentos claros: a primeira, aceleração tecnológica, principalmente IA, exigindo decisões rápidas, mas éticas e isso pouco ainda estão preparados ou se preparando. A segunda, consumidores cada vez mais conscientes, que escolhem marcas com valores claros, não apenas preço. Terceira, saúde mental dos líderes e times, que virou ativo estratégico, não mais assunto secundário.
NOSSO MEIO | Para empresários da área da saúde que querem crescer sem entrar em um modelo de exaustão, qual é o ajuste de gestão que você considera indispensável?
Leandro Ribeiro Vaz: O ajuste indispensável é parar de confundir presença com importância. Empresários que se exaurem normalmente estão centralizando decisões que poderiam e deveriam ser delegadas.
Crescer com saúde exige criar times fortes, processos claros e uma agenda que preserve energia mental. Negócio saudável começa pelo líder saudável. CPF forte pra ter CNPJ forte. Hoje em dia tem muitos cursos de gestão para profissionais de saúde, pois esse é um tema que não temos em nenhuma faculdade da área da saúde, temos nosso curso de gestão na BRL e vemos sempre a falta de preparo desses profissionais nessa área.


