Impulsionado pelo lançamento de “O Diabo Veste Prada 2”, o debate sobre profundidade, métricas e relevância voltou ao centro das discussões entre profissionais da comunicação e do jornalismo
Quando foi lançado em 2006, “O Diabo Veste Prada” tinha como temas principais a moda, a ambição, o poder e as tensões entre trabalho e vida pessoal. Vinte anos depois, sua continuação parece interessada em outro tema: sobrevivência. Mas não apenas a sobrevivência de uma revista de moda tradicional diante da transformação digital. O que “O Diabo Veste Prada 2” coloca em cena é uma angústia que atravessa redações, veículos e profissionais da comunicação em diferentes setores: como manter profundidade, identidade e relevância em um ambiente comandado por métricas e algoritmos.
No longa, a revista fictícia Runway (uma representação da famosa Vogue) enfrenta um cenário em que autoridade editorial já não garante atenção automática. O prestígio construído ao longo de décadas passa a disputar espaço com a velocidade do feed, os conteúdos instantâneos e a lógica da performance digital. Fora da ficção, a sensação não parece muito distante da realidade.
Para Fernanda Leite, colunista de cinema do portal GC+, essa transformação já alterou profundamente a forma como o conteúdo cultural é produzido e consumido:
“Hoje muita coisa é pensada primeiro para render no feed, e só depois vem a qualidade do conteúdo. Isso acaba afetando a crítica cultural porque muitas análises mais profundas vão perdendo espaço para opiniões rápidas e conteúdos feitos só para viralizar. Também sinto que algumas vozes acabam sendo deixadas de lado, porque o algoritmo costuma entregar mais do mesmo. No fim, o público consome muito conteúdo, mas nem sempre consegue desenvolver um olhar mais crítico sobre aquilo”, afirma.
A percepção da jornalista dialoga diretamente com um fenômeno que se tornou parte da rotina de grande parte das redações: a adaptação constante às plataformas. Em um ambiente onde títulos competem por cliques e assuntos precisam performar rapidamente, profundidade e velocidade nem sempre caminham juntas. O desafio deixou de ser apenas produzir informação e passou também a ser sobre encontrar maneiras de disputar atenção.
Ainda assim, para Fernanda, o problema não está necessariamente na simplificação da linguagem ou na adaptação dos formatos digitais, mas no esvaziamento do conteúdo em nome do engajamento:
“Eu tento falar sobre cinema de uma forma mais próxima da realidade das pessoas. Acho que quando a gente conecta o filme com sentimentos, vivências e questões do dia a dia, a crítica fica mais acessível sem perder profundidade. O Diabo Veste Prada, por exemplo, não fala só de moda, fala de pressão, trabalho, reconhecimento e até identidade. Então eu acredito muito nesse equilíbrio: usar uma linguagem simples, mas sem transformar tudo em conteúdo vazio só para prender atenção”, relata.
Essa tensão entre alcance e qualidade aparece de forma recorrente entre os profissionais do mercado. Mas, diferente de um discurso puramente nostálgico sobre o jornalismo do passado, a discussão parece caminhar para outro lugar: entender como preservar relevância editorial sem ignorar a lógica digital que reorganizou o consumo de informação.
Para Renato Abê, coordenador nacional de comunicação da Quitanda Soluções Criativas, o cenário atual exige reconhecer que as métricas mudaram definitivamente a relação entre veículos e público. Ao mesmo tempo, ele acredita que o filme acerta ao defender a importância da técnica jornalística e da apuração como diferenciais em meio ao excesso de informação.
“A lógica de produção e de consumo mudou radicalmente se considerarmos o que, diferentemente da lógica da revista Runway de 2006, temos no cenário de 2026: o retorno imediato do público. Há 20 anos, os editores precisavam traduzir o comportamento do leitor de maneira mais empírica, sem acesso a tantas métricas como as que temos hoje”, afirma.
Segundo Renato, um dos momentos mais simbólicos do longa acontece justamente quando a narrativa reforça o valor da apuração e da reportagem especial em um ambiente cada vez mais acelerado: “Apesar dos evidentes desafios quanto à questão ‘qualidade versus alcance’, o longa também é certeiro ao colocar em evidência a força da apuração. Ao conduzir com destreza uma entrevista especial muito disputada, as protagonistas trazem para o centro a autoridade jornalística que só o método bem empregado pode proporcionar”, aponta.
A discussão, no entanto, vai além das redações tradicionais. A lógica algorítmica também alterou o funcionamento das assessorias, das marcas e da própria comunicação corporativa. Se antes a disputa era por espaço em jornais, revistas e televisão, hoje ela acontece dentro de feeds infinitos onde notícia, entretenimento, publicidade e opinião ocupam o mesmo ambiente.
“A lógica algorítmica fez o jornalismo dividir espaço com plataformas que priorizam retenção e engajamento. Isso pressiona veículos e marcas a produzirem conteúdos mais rápidos e ‘clicáveis’, muitas vezes em detrimento da profundidade. Para a assessoria, o desafio é equilibrar alcance e reputação: usar o algoritmo como ferramenta de distribuição, não como linha editorial”, afirma Adriano Muniz.
Segundo o sócio-direto da Engaja Comunicação, adaptar formatos e linguagens não significa necessariamente abrir mão de qualidade. O problema, para ele, surge quando toda produção passa a ser orientada apenas pela busca incessante por performance:
“O caminho não é simplificar demais, mas tornar o conteúdo mais consumível. Hoje funcionam bem formatos como vídeos curtos, carrosséis, headlines objetivas e storytelling com impacto humano. SEO ajuda na distribuição, desde que o conteúdo entregue valor real. O erro é recorrer sempre ao clickbait, à caça desenfreada e desnecessária de engajamento o tempo todo”, relata.
No centro desse debate está uma pergunta que atravessa o filme e também o mercado da comunicação: o que torna um veículo realmente necessário em um ambiente onde qualquer pessoa pode produzir conteúdo?
Para Renato Abê, a resposta passa justamente pela preservação daquilo que diferencia o jornalismo de outras formas de comunicação. “A performance algorítmica seguirá acompanhando o jornalismo, seja qual for o arranjo de entrega do conteúdo que surja a partir de agora. O que o jornalismo não pode é esquecer que é jornalismo. O ônus será sempre do jornalismo caso ele queira emular outras práticas profissionais. O esvaziamento será evidente”, afirma.
Ele acredita que o filme evidencia essa preocupação ao colocar em risco, dentro da narrativa, a editoria de reportagens especiais da revista Runway. “Naquele contexto do enredo, para ficar mais próximo das redes sociais, a revista perderia a oportunidade de trazer conteúdos realmente bem apurados. O que, para a personagem Andy, deixaria a publicação esvaziada de sentido. E ela está certa. Os veículos precisam preservar o que torna cada um deles realmente necessário. Ou não valerá mais a pena consumi-los”, conclui.
Ao mudar o foco de sua discussão, “O Diabo Veste Prada 2” funcionou como o retrato de uma indústria inteira tentando descobrir como continuar relevante sem perder a própria identidade no caminho.
Entre algoritmos, métricas e feeds infinitos, “O Diabo Veste Prada 2” talvez não fale apenas sobre o futuro de uma revista fictícia. O filme parece funcionar como retrato de uma indústria inteira tentando descobrir como continuar relevante sem perder a própria identidade no caminho. No fim, a questão que fica para a comunicação talvez seja menos tecnológica do que editorial: se todo conteúdo começa a obedecer à mesma lógica algorítmica, o que ainda torna um veículo, uma marca ou um jornalista verdadeiramente indispensável?
À audiência, fica a reflexão para conseguir a resposta…
Ideia original e pesquisa: Emiliana Batista
