Análise

O profissional do presente: comportamento, habilidades e o peso da comunicação no trabalho

Por Lucas Abreu

01/05/2026 09h30

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Nesta análise especial do Dia do Trabalhador, mergulhamos nas aceleradas mudanças que impactam os modelos atuais de trabalho

João tem pouco mais de 20 anos, é recém-formado em publicidade e propaganda, mas trabalha como assistente administrativo em uma empresa de médio porte. O salário é pouco maior que o mínimo, e a rotina tem pouco a ver com a formação que acabou de concluir. A história pode parecer específica, mas está longe de ser exceção: João faz parte dos 38% dos trabalhadores brasileiros que atuam em cargos abaixo do nível de escolaridade, segundo o Ipea.

O dado evidencia um paradoxo no mercado de trabalho. Se por um lado há mais jovens qualificados, por outro, empresas relatam dificuldade em encontrar profissionais preparados para as exigências do dia a dia. Segundo Helena Castro, coordenadora de Pessoas e Cultura da plataforma de recrutamento e empregabilidade Refuturiza, o fenômeno está na distância entre a formação acadêmica e as competências técnicas e comportamentais demandadas pelas organizações.

“As empresas estão em busca de profissionais que tragam a bagagem técnica, mas que também estejam preparados para viver a realidade organizacional: que saibam se comunicar com clareza, lidar com frustração, trabalhar em equipe, assumir responsabilidade com maturidade e aprender com rapidez”, afirma.

Helena também aponta que problemas de comunicação, dificuldades de relacionamento e baixa adaptabilidade impactam diretamente o clima organizacional, a produtividade e a retenção de talentos. Nesse contexto, soft skills como pensamento crítico, colaboração e inteligência emocional deixam de ser diferencial e passam a ser critério decisivo de contratação.

“O maior risco de contratação atualmente não é técnico, é comportamental”, enfatiza.

O aumento da relevância das soft skills, entretanto, não elimina a importância das habilidades técnicas, que passam por uma redefinição. Segundo o Fórum Econômico Mundial, cerca de 44% das habilidades exigidas no trabalho devem mudar até 2027, impulsionadas principalmente pelo avanço tecnológico, incluindo a inteligência artificial.

Diante desse cenário, atividades operacionais e repetitivas tendem a ser automatizadas, reduzindo o valor de competências baseadas apenas na execução. Em contrapartida, cresce a demanda por profissionais com alfabetização digital, capacidade de interpretar dados e pensamento analítico — habilidades que permitem não apenas operar ferramentas, mas extrair valor delas.

Esse movimento ocorre em um ritmo acelerado, que pressiona não apenas os profissionais, mas também o campo educacional. Para Nayane Monteiro, coordenadora dos MBAs da área de Marketing da pós-graduação da Universidade de Fortaleza, é justamente essa velocidade que evidencia um dos principais gargalos da formação.

“Especialmente na pós-graduação, o público já chega com uma demanda muito clara de atualização; são profissionais que sentem, na prática, esse descompasso e buscam reduzir esse gap. Nesse contexto, o desafio não é apenas atualizar conteúdos, mas repensar a forma de ensinar, com metodologias mais aplicadas, uso de cases reais e maior aproximação com o mercado”, aponta.

A discussão ganha ainda mais complexidade diante da proliferação de cursos e especializações impulsionados por temas como inteligência artificial e transformação digital. Para Nayane, o desafio está em diferenciar formações estruturais de modismos. “Mais do que acompanhar tendências, o foco deve estar em formar profissionais capazes de interpretar, adaptar e aplicar essas transformações de forma estratégica”, afirma.

Diante desse cenário, o diferencial deixa de estar no domínio isolado de uma habilidade e passa a ser a capacidade de conectar competências. Já é possível identificar combinações que tendem a se consolidar nos próximos anos, como a integração entre dados e pensamento estratégico, tecnologia e comunicação, marketing e análise de dados, além de gestão aliada à inteligência emocional.

“O grande diferencial hoje não está em dominar apenas uma área, mas em conectar competências. O profissional mais valorizado é aquele que transita entre técnica e estratégia, entre dados e decisão, e entre execução e visão de futuro”, enfatiza.

Comunicação deixou de ser forma, e virou critério de permanência

Se por um lado as habilidades técnicas e comportamentais passam por redefinições, o comportamento dos profissionais também estabelece novos critérios de permanência e engajamento. Dados da Deloitte indicam que 44% dos profissionais da Geração Z rejeitam empregos que não oferecem aprendizado contínuo ou trilhas claras de desenvolvimento, enquanto apenas 23% se consideram engajados no trabalho. Os números não apontam para uma falta de disposição, mas para uma desconexão crescente com estruturas que não entregam evolução prática, clareza de percurso ou coerência entre discurso e realidade.

“O impacto desse movimento, quando falamos de recrutamento e seleção, é uma necessidade ainda maior de alinhamento de expectativas no processo de contratação. Empresa e profissional precisam dar match, ou seja, haver uma compatibilidade entre o que ambas as partes procuram e deseja para essa parceria profissional, aponta Helena Castro.

Nesse contexto, fatores como autenticidade, transparência na comunicação e consistência nas propostas de desenvolvimento passam a operar como critérios objetivos de avaliação. Dados do Relatório Global de Cultura 2026 da O.C. Tanner mostram que, quando funcionários percebem líderes e colegas como transparentes e responsáveis, a confiança na empresa pode aumentar até cinco vezes, com impactos equivalentes nos níveis de engajamento, satisfação com a comunicação e retenção.

“Quando há esse alinhamento, a tendência é a de que as relações se tornem mais consistentes e perenes, com maior engajamento e permanência”, finaliza Helena.