A tecnologia deixou de ser apenas um motor de aceleração para se tornar um agente de transformação estrutural. Essa foi a principal provocação de Sam Jordan, diretora de Computação e Tecnologia da FSTG, durante sua palestra no SXSW. Segundo a executiva, o avanço tecnológico não está apenas tornando processos mais rápidos, está mudando a própria lógica de como o progresso acontece.
“Testes de produtos podem acontecer virtualmente antes da construção, ensaios clínicos podem ser simulados antes de grandes investimentos em laboratório, e a distribuição pode determinar onde a produção acontece”, afirmou.
Ao longo da apresentação, Jordan propôs um framework baseado em três grandes transformações que já estão em curso e impactam diretamente empresas, profissionais e a sociedade.
A primeira delas está ligada à forma como as coisas são construídas. Tradicionalmente, o desenvolvimento de produtos seguia uma sequência lógica: idealização, prototipagem, testes e produção. Com o avanço das simulações digitais, essa ordem está sendo invertida.
“As etapas de construção e teste agora trocam de lugar. Seja na ciência ou no desenvolvimento de produtos, agora é possível testar milhares de interações antes mesmo de construir algo no mundo físico”, explicou.
A segunda transformação envolve o próprio processo de descoberta. Se antes a ciência partia da observação para entender o mundo, agora ela avança para um novo território: a criação.
Jordan citou o trabalho de Michael Levin como exemplo dessa mudança. O pesquisador desenvolve formas de vida inéditas, como os Xenobots, pequenos organismos criados a partir de células vivas, que não surgiram por evolução natural, mas por intervenção humana.

“Estamos passando da observação para a autoria. Da adaptação para o controle”, destacou. Segundo ela, esse movimento redefine não apenas a ciência, mas também os limites éticos e criativos da inovação.
O terceiro ponto levantado pela executiva diz respeito ao fluxo de talentos. Durante décadas, a formação de lideranças esteve diretamente ligada à experiência prática acumulada ao longo da carreira, especialmente em funções iniciais. Com a inteligência artificial, esse modelo começa a se fragilizar.
“Tarefas que antes eram o campo de treinamento de profissionais juniores estão sendo automatizadas. Se eles não passam por essas etapas, como vão desenvolver a experiência necessária para liderar no futuro?”, questionou.
A preocupação se intensifica diante do comportamento das novas gerações. Segundo Jordan, dois terços dos adolescentes americanos já interagem diariamente com chatbots de IA. E esse uso tem impactos diretos na forma como o conhecimento é construído.
Ela cita um estudo da Universidade de Princeton que aponta um efeito curioso: quando a inteligência artificial valida uma ideia, as pessoas tendem a se tornar mais confiantes, mas não necessariamente mais precisas.
“Você erra mais e tem mais certeza de que está certo”, resumiu.
Por trás dessas transformações, há um pano de fundo mais amplo: a mudança na própria noção de identidade. Para Jordan, deixamos de viver em um contexto em que identidade era herdada, ligada a instituições, comunidades ou família, para um cenário em que ela pode ser escolhida e até consumida.
Esse deslocamento ajuda a explicar a crescente sensação de incerteza. “As pessoas têm dúvidas profundas sobre como serão seus empregos, suas instituições e o futuro de seus setores”, afirmou.
Mais do que uma tendência, a mensagem central da palestra é um convite à revisão de mentalidade: em um cenário onde processos estão sendo reconfigurados, insistir em lógicas lineares pode ser o maior risco.


