Durante keynote no SXSW, o cofundador do Earth Species Project explica como a IA pode analisar sons e identificar padrões na comunicação dos animais

Na keynote “A natureza fala. Será que a IA pode nos ajudar a escutar?”, apresentada nesta segunda-feira no SXSW, o pesquisador Aza Raskin trouxe ao palco uma pergunta que mistura ciência, tecnologia e filosofia: seria possível usar inteligência artificial para entender o que os animais estão dizendo? O Cofundador do Earth Species Project explicou como novas ferramentas de IA estão sendo usadas para investigar sistemas de comunicação presentes em diferentes espécies.
Ao iniciar a apresentação, o pesquisador mostrou ao público gravações de sons de animais convidando eles a refletir sobre uma pergunta simples: será que realmente entendemos o que esses animais estão dizendo?
Macacos, golfinhos e diversas outras espécies utilizam sons específicos para se comunicar entre si. Muitos deles possuem até nomes ou apelidos para identificar indivíduos dentro de seus grupos. Ainda assim, para os humanos, esses sons acabam sendo percebidos como ruídos indistintos. Segundo o pesquisador, isso acontece porque ainda não desenvolvemos ferramentas capazes de interpretar essas linguagens.
“Não conseguimos experimentar a maior parte do que existe porque somos cegos para isso. O mundo é imensamente mais amplo e muito mais vívido do que aquilo que conseguimos perceber. E uma das poucas maneiras de sair da caixa da nossa mente humana e do nosso cérebro humano é entender outras espécies que estão experimentando um pouco mais desse mundo. E a melhor maneira de fazer isso é através da janela da comunicação.”
É justamente nessa “janela” que o trabalho do Earth Species Project se concentra. O projeto utiliza inteligência artificial para analisar milhares de gravações de sons produzidos por animais, identificar padrões nesses sinais e relacioná-los aos contextos em que ocorrem. A partir dessa análise, pesquisadores tentam mapear possíveis repertórios de chamadas e entender o que determinados sons podem significar dentro da comunicação de cada espécie.
Durante a palestra, o pesquisador citou um estudo conduzido em 1994 pela University of Hawaii, no qual cientistas ensinaram dois gestos a golfinhos: o primeiro significava “faça algo que você nunca fez antes”, exigindo que os animais lembrassem tudo o que já haviam feito naquela sessão e criassem um comportamento completamente novo; o segundo gesto significava “façam algo juntos”, levando pares de golfinhos a mergulhar, trocar sons entre si e retornar à superfície executando exatamente o mesmo movimento ao mesmo tempo, como se tivessem combinado a ação debaixo d’água.

Experimentos como esse, segundo o pesquisador, não provam necessariamente que os animais possuem linguagem no mesmo sentido da comunicação humana, mas apontam que existe algo muito mais complexo acontecendo nas interações entre essas espécies. A partir daí, ele levanta a questão central da palestra: se existe comunicação rica na natureza, por que ainda não conseguimos entendê-la?
Na palestra, ele conta que esse cenário começou a mudar a partir de 2017, quando surgiram novas técnicas de deep learning capazes de traduzir línguas humanas sem depender de traduções diretas entre elas. Esses sistemas organizam palavras dentro de estruturas matemáticas conhecidas como “espaços de embeddings”, em que cada palavra ocupa uma posição e palavras com significados semelhantes acabam ficando próximas umas das outras.
A partir dessa lógica, a inteligência artificial não precisa necessariamente saber o significado de cada palavra para entender como os conceitos se relacionam dentro de uma língua. Foi esse insight que permitiu alinhar estruturas linguísticas de idiomas muito diferentes, mostrando que muitas línguas compartilham uma base comum de significado.
É justamente essa ideia que ele apresenta como base para o trabalho do Earth Species Project. A proposta é aplicar o mesmo tipo de análise às vocalizações de animais, permitindo que a inteligência artificial identifique padrões de significado mesmo sem saber exatamente o que cada som representa.
Ao longo da palestra, o pesquisador também reflete sobre o impacto que esse tipo de descoberta poderia ter na forma como humanos se relacionam com outras espécies. Na visão apresentada por ele, compreender melhor a comunicação de outras espécies poderia provocar mudanças profundas em diferentes áreas da sociedade. Questões ligadas à ética, ao direito e até à forma como lidamos com ecossistemas e produção de alimentos poderiam ser repensadas se começarmos a enxergar animais como seres com formas complexas de expressão e interação.
A palestra termina ampliando ainda mais essa reflexão. Ele lembra que a maior parte da inteligência artificial criada até hoje foi treinada para modelar e expandir a inteligência humana. No entanto, há sistemas muito mais antigos que já aprenderam a lidar com um desafio que a humanidade ainda não resolveu: como continuar existindo em um planeta com recursos limitados.
Esses sistemas são os próprios ecossistemas naturais. E, como ele conclui ao longo da apresentação, talvez uma das formas mais poderosas de aprender com eles seja justamente começar a escutar aquilo que a natureza vem comunicando o tempo todo.



