Bad Bunny, a estética latino-americana e os afetos como ato político

Por Redação

25/02/2026 09h27

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Bad Bunny é um fenômeno. Ainda que o sucesso tenha iniciado há alguns anos, seu êxito no último Grammy com a vitória em várias categorias incluindo a principal de melhor álbum do ano com “Debí Tirar Más Fotos” (DtMF) foi espetaculoso, culminando com seu discurso anti políticas imigratórias e ações criminosas do ICE no território norte-americano. Sua decisão de não fazer shows nos Estados Unidos temendo pela ação policial contra seus fãs demonstra o cuidado com as pessoas, seu sentido de responsabilidade e seu engajamento político.

No Super Bowl 2026, final da NFL, liga de futebol norte-americano, na Califórnia, maior evento midiático dos EUA, sempre muito esperado pelas múltiplas audiências, veículos e patrocinadores, Bad Bunny foi desta vez apoteótico, com show energético, em espanhol, todo vestido de branco, com a inscrição 1964 nas costas (ano de nascimento de seu falecido tio Cutito, irmão de sua mãe e torcedor do San Francisco 49ers, estádio onde aconteceu o Super Bowl), explorando signos porto-riquenhos e latino-americanos, Benito se fez todo e todos nós. Percorrendo as cenas de seu país representadas cuidadosamente pelo canavial que era um conjunto de 380 pessoas vestidas de cana-de-açúcar, o sapo-concho (ameaçado de extinção), pela casita rosa, as cenas de festa e alegria e o casamento real, as cadeiras de plástico, chapéu de palha, os postes de madeira com a luz cortada, o jogo de dominó entre os idosos, as manicures, a raspadinha (piraguas) e o coco gelado, os blocos de cimento, os lutadores de boxe, o ambulante que compra e vende prata e ouro, o pedido de namoro, a criança dormindo nos bancos da festa, a família assistindo TV, tudo, absolutamente tudo fez sentido e, por isso, conectou emocionalmente milhões de latino-americanos.

A cultura material embalada pela música dançante na voz e corpo de Benito se fez signo emocional penetrando pelos nossos sentidos, enquanto simultaneamente íamos reconhecendo cada objeto, cada palavra, cada hábito cotidiano orquestrado na cenografia expressiva afetiva proposta pelo artista. Para finalizar, com a bola de futebol americano junto ao peito, iniciando com o clássico “God Bless América”, pronunciou os nomes de cada um dos países que compõem as Américas e em ato vigoroso mostra para a câmera a inscrição “Together we are América” frase gravada na bola e, na sequência, a joga com força no chão, ato acompanhado da fala “Seguimos aqui”. Isso é resistência. América somos todos. Da tensão brota a dança catártica daqueles que sabem o que é opressão e de tantos outros que se alinham à causa como Pedro Pascal, Ricky Martin (que cantou “Lo que le pasó a Hawaii”, em cenário alusivo à capa de DtMF, com bananeiras e cadeiras de plástico, em um momento de reconciliação identitária porto-riquenha), Lady Gaga (cantou “Die with a smile” com ritmos e trajes latinos, com destaque para o vestido azul claro, uma referência a cor da bandeira de Porto Rico, não àquela oficial, com azul escuro, mas àquela do protesto e da busca de independência ), Penelope Cruz, Javier Barden, Justin Bieber, Lewis Hamilton e milhares de norte-americanos da plateia e na audiência planetária. Desde então, o mundo se volta a ele na busca de compreender seu êxito no âmbito da territorialidade física e simbólica dos EUA, em um estádio de futebol norte-americano, de um cantor porto-riquenho, latino-americano e que canta em espanhol. O que ele significa? Quais valores são evocados que garantem tal engajamento? O que explica tamanho êxito em tempos de absoluta fragmentação e individualismo?

Atualmente, Bad Bunny é o maior artista do mundo, o mais ouvido no Spotify global. Não por acaso, ainda em fevereiro deste ano, fez 2 shows em São Paulo, sua primeira incursão artística no País e, uma vez mais, fez história. Ainda nos resquícios de dúvidas sobre o sucesso de um cantor latino no Brasil, a realidade se impôs e Benito fez bonito. Fãs lotaram o estádio, cantaram em espanhol, vibraram a cada palavra pronunciada em português, fizeram muitas fotos (inclusive com câmeras distribuídas pela produção) e a cada gesto de generosidade, expresso no palco Casita, edificado na parte do estádio destinada ao público que pagou ingressos mais baratos, quer quando ele retirava o retorno para poder ouvir o público, quando se emocionava com as surpresas e coreografias visuais preparadas pelos fãs, ou ainda quando portava a bandeira do Brasil, vestia a camisa ou o moletom da seleção brasileira (com o número 10, em referência direta a Pelé), Bad Bunny criava momentos singulares de conexão sensível. No Brasil, o artista não precisou de discurso, sua presença magnética, sua música, dança sensual e cenografia expressam tudo.

As letras nos chamam ao presente e a urgência do amor cotidiano, valorizando o passado vivido e a memória. Sentindo e exalando afeto pelas pessoas, pela família, pelo seu país e pelos que se sentem diminuídos, o coelho mau – nome adotado a partir de uma memória da infância em que foi obrigado a se fantasiar de coelho para uma festividade escolar e a memória da imagem fotografada denunciatória da sua contrariedade, surgiu o adjetivo “mau” – conquista o maior país das América Latina, sempre muito orgulhoso de seus cantores e compositores. Benito sabe valorizar e abraçar quem, como nós, faz de seu ofício criativo uma forma de expressão e combate a qualquer tipo de opressão, ao mesmo tempo que inspira a harmonia e celebra o orgulho e o amor.

Bad Bunny é um fenômeno artístico-cultural-midiático próprio do nosso tempo, atravessado pelas redes sociais digitais e pelas lógicas algorítmicas que multiplicam o sucesso e atraem novos investimentos. Resta desejar que esse movimento, que não deve em nenhum momento ser diminuído ou menosprezado, transborde o show e a repercussão planetária e penetre nas consciências promovendo o despertar para ações coletivas, com fins públicos e vislumbrando uma vida digna e plena para muitos.  Somos todos humanos, somos todos americanos deste lado do Atlântico, e Bad Bunny nos lembrou disso.

Clotilde Perez
Professora universitária, pesquisadora e consultora
Clotilde Perez é professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.