Reuters Institute aponta canais de notícias nas primeiras posições em meio à queda histórica da confiança no jornalismo e à ascensão das redes sociais
A CNN Brasil é a marca jornalística mais confiável para os brasileiros, segundo o Digital News Report 2026, estudo anual do Reuters Institute em parceria com a Universidade de Oxford. Com índice de confiança de 62%, a emissora lidera o ranking nacional, seguida por Record News e SBT News, ambas com 61%, e Band News, com 59%. O resultado reforça a força dos canais de notícias na percepção de credibilidade do público, que ocupam as quatro primeiras posições do levantamento.
Na sequência aparecem jornais regionais e locais (57%), Globo e O Globo (55%), O Estado de S. Paulo e UOL (54%), além de Folha de S.Paulo (53%), Metrópoles (52%), Veja (52%), Valor Econômico (51%), Terra (50%) e Yahoo! News (47%). O estudo considera apenas os entrevistados que afirmam conhecer cada marca e mede o grau de confiança atribuído ao conteúdo produzido pelos veículos.

O resultado chama atenção porque ocorre em um momento de deterioração da confiança no jornalismo. Em sua 15ª edição, divulgada nesta terça-feira (16), o relatório mostra que a confiança global nas notícias caiu para 37%, o menor patamar desde o início da série histórica, em 2015. No Brasil, a queda foi ainda mais acentuada: o índice recuou de 62% para 36% em pouco mais de uma década, representando a maior redução registrada pelo país nos 12 anos analisados.

Segundo os pesquisadores, após três anos de relativa estabilidade, a confiança voltou a cair em meio à persistente polarização política, intensificada pela eleição presidencial de 2026 e pelos desdobramentos da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro no ano passado. Escândalos políticos e financeiros também aparecem entre os fatores que podem ter contribuído para o cenário. Atualmente, 47% dos brasileiros afirmam evitar notícias às vezes ou frequentemente.
Redes sociais superam a televisão
O relatório aponta uma transformação estrutural no consumo de informação. Pela primeira vez, as redes sociais consolidam uma vantagem significativa sobre a televisão como fonte semanal de notícias no país. Atualmente, 53% dos brasileiros utilizam plataformas sociais para se informar, enquanto a TV alcança 44%.
A mudança fica ainda mais evidente na série histórica. Em 2013, a televisão era utilizada por 75% dos brasileiros para acompanhar notícias, enquanto as redes sociais atingiam 47%. Treze anos depois, as curvas se inverteram. Entre as plataformas digitais, o Instagram lidera o consumo de notícias, utilizado por 49% dos brasileiros para acompanhar conteúdos jornalísticos. Na sequência aparecem WhatsApp (46%), YouTube (42%), Facebook (30%), TikTok (21%) e Telegram (8%).

Globo lidera alcance; audiência fica mais fragmentada
Embora as redes sociais avancem, a televisão continua relevante no mercado brasileiro. Entre os veículos de maior alcance offline, a TV Globo permanece na liderança, alcançando 41% da população semanalmente, seguida por Record TV (28%) e SBT (21%).

No ambiente digital, o cenário é mais pulverizado. A Globo News Online lidera com alcance semanal de 35%, seguida por UOL (31%), Globo.com (27%), O Globo (23%) e Record News Online (20%).

Para os pesquisadores, a fragmentação da audiência é uma das principais características do atual ecossistema de mídia, reduzindo a concentração de atenção que historicamente beneficiava os grandes grupos de comunicação.
Influenciadores e IA ganham espaço
O estudo também destaca o crescimento da influência dos criadores de conteúdo no consumo de notícias. Atualmente, 33% dos brasileiros recebem informações por meio de influenciadores, especialistas ou produtores digitais.
O fenômeno é especialmente visível no mercado financeiro. Segundo dados citados pelo relatório, o Brasil conta com 904 influenciadores financeiros ativos, que somam uma audiência de 310 milhões de seguidores, mais de quatro vezes o volume registrado há cinco anos.
Ao mesmo tempo, cresce o uso de ferramentas de inteligência artificial para acessar informações. O levantamento mostra que 13% dos brasileiros já utilizam semanalmente chatbots de IA para acompanhar notícias, percentual superior ao registrado pelos podcasts jornalísticos, que alcançam 11%.
O avanço da IA também impulsionou discussões sobre direitos autorais e licenciamento de conteúdo. O relatório cita o acordo firmado neste ano entre a Folha de S.Paulo e a OpenAI para licenciamento de conteúdo jornalístico, após a retirada de uma ação judicial movida pelo jornal contra a empresa.
Desafios para o modelo de negócios
Apesar do crescimento do consumo digital, a monetização continua sendo um desafio para a indústria. Apenas 15% dos brasileiros pagam atualmente por notícias online, índice que caiu cinco pontos percentuais desde 2023.
O relatório também aponta que 122 veículos impressos encerraram suas atividades desde 2023, segundo dados do Atlas da Notícia. Em paralelo, diversos municípios brasileiros continuam sem cobertura jornalística local. Por outro lado, o número de veículos digitais segue crescendo, evidenciando que a migração para o ambiente online continua sendo uma das principais apostas do setor para manter relevância e ampliar alcance.
