A guerra nunca acaba no Instagram

Por Redação

08/04/2026 10h00

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Por Natália Coelho, repórter de combustíveis marítimos na Argus Media e mestranda de Comunicação da USP

A trégua entre o Hamas e Israel mal deixou de ser notícia e já temos um novo conflito para acompanhar. A “aliança” entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi responsável por bombardeios no Irã no dia 28 de fevereiro de 2026, assassinando o aiatolá Ali Khamenei, que comandava até então o país com punho de ferro.

Então, para quem esperava um respiro das notícias sobre reféns israelenses e crimes contra palestinos — mas ainda se preparava para ler sobre drones russos na Ucrânia ou vice-versa —, o início de março passou a ser dominado por relatos da morte de estudantes iranianas, contra-ataques em países do Oriente Médio, bilionários fugindo de Dubai e, de quebra, pela alta do petróleo, do dólar, dos juros dos Treasuries ou até por dicas de investimento (“Será o momento de investir em fundos ligados ao ouro?”).

Mas o scrolling infinito do Instagram ou do TikTok não decepciona. Se pensamos e checamos o Instagram, logo existimos: estar vivo é estar cercado de notícias sobre conflitos violentos. Mas será que o mundo está realmente na guerra infinita que o nosso feed parece indicar?

Segundo o levantamento mais recente do Uppsala Conflict Data Program, da Universidade de Uppsala, na Suécia, em 2024 o globo registrava 185 conflitos, sejam eles promovidos por um Estado soberano ou por um grupo organizado. O número é 17% maior do que em 2016, quando o levantamento registrou 158 conflitos violentos.

Mas certamente não estamos apenas 17% mais assustados ou saturados. Embora o aumento seja real — vivemos um período de novas guerras —, também estamos presos em um looping de conteúdos de violência, sejam eles jornalísticos ou não. O algoritmo, esse ente onipresente que modula o que vemos ou deixamos de ver nas redes sociais, se alimenta do potencial de viralização, do chocante e do que prende nossa atenção nem que seja por um segundo a mais.

Considerando que os brasileiros consomem notícias principalmente pelo Instagram, segundo relatório do Aláfia Lab sobre 2024, vídeos de inteligência artificial de gatos tocando instrumentos ou de vacas em trampolins se intercalam com imagens, vídeos e legendas sobre guerras que, por mais distantes que estejam de nós — graças à nossa sorte geográfica —, produzem uma sensação universal: a de que não há solução.

A escritora e ensaísta estadunidense Susan Sontag foi certeira ao afirmar que a aflição provocada por notícias de conflitos no rádio ou na televisão pode ser resolvida simplesmente ao levantarmos e desligarmos o aparelho. Podemos fechar o jornal ou a revista e pegar as palavras cruzadas mais próximas. Mas quem desliga o maldito algoritmo?

Você pode dizer que basta largarmos o celular. Mas da internet, ao contrário da televisão, não é tão fácil escapar. Estamos vidrados nas pequenas telas dos smartphones: o brasileiro passa, em média, nove horas por dia navegando pela internet, sendo pelo menos três delas nas redes sociais, segundo a pesquisa Consumer Pulse de 2025.

Apesar do tom fatalista deste texto, ainda há espaço para esperança. As guerras não são para sempre, mandatos presidenciais nos Estados Unidos duram quatro anos e também podemos nos cercar de boas notícias que surgem mesmo em meio aos conflitos. O estudioso norueguês Johan Galtung, que introduziu os estudos para a paz, pode ter falecido em 2024, mas o britânico Jake Lynch segue aprofundando seu legado, e são essas abordagens que esperamos que os jornalistas (essa que vos fala inclusa) possam se inspirar mesmo quando a notícia é guerra.

Se tentarmos domar um pouco o algoritmo e desenvolver nossa literacia digital, encontramos histórias que tiram o foco da violência e revelam gestos de solidariedade. Um exemplo concreto: uma reportagem da AFP assinada pela jornalista ucraniana Yulia Silina, que tive o prazer de conhecer, detalhou em 2018 o momento em que soldados ucranianos foram surpreendidos por caixas e mais caixas de pizza enviadas por civis. Nas palavras da jornalista, para as tropas aquilo foi “um sinal de que eles não foram esquecidos”.

Buscar a paz em meio à guerra pode parecer uma missão impossível. Mas talvez a solução esteja dentro do próprio Instagram. Se o algoritmo insiste em nos mostrar a violência, cabe a nós procurar – e compartilhar – as histórias que lembram que ainda podemos encontrar humanidade no nosso feed infinito.

Clotilde Perez
Professora universitária, pesquisadora e consultora
Clotilde Perez é professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.