Quando a poesia some das prateleiras

Por Redação

20/04/2026 16h41

Compartilhe
  • Whatsapp
  • Facebook
  • Linkedin

Estamos vivendo uma era em que a inteligência artificial está em tudo. Ela simplifica, agiliza, organiza e, para alguns, também assusta. Nesse avanço quase inevitável, há um efeito silencioso: quanto mais automatizamos a nossa vida, mais raro vai se tornando aquilo que nos faz profundamente humanos. Nesse movimento, acredito que a humanidade passou a ter um valor ainda maior, passou a ser algo mais precioso ainda.

No mundo dos negócios, isso se traduz em algo simples: tratar pessoas como pessoas. A IA entra como ferramenta, potente, necessária. Sempre uma ferramenta. Ela não substitui sensibilidade, repertório, escuta, sentimentos, empatia. Mas enquanto discutimos a importância e como sermos mais humanos, algo curioso acontece na contramão. A poesia está desaparecendo das prateleiras.

Semana passada, entrei em uma livraria à procura de livros de poesia. Perguntei ao vendedor e ele apontou para uma prateleira discreta, quase escondida, abaixo da linha dos olhos. Poucos títulos. Pouco espaço. Quase um pedido de desculpas. E a minha triste constatação: a poesia, ao que parece, está sendo rebaixada, literalmente.

Sabemos que quando algo some das prateleiras não é por acaso. Muitas vezes, é porque deixou de ser procurado. A poesia não é somente um gênero literário. É exercício de sensibilidade, de abstração, de contemplação. É o treino do olhar que desacelera, que vive, que experiencia e que observa, criando relações improváveis entre coisas aparentemente distantes.

Em um mundo orientado por performance, a poesia insiste em perguntar, não em responder. Insiste em nos fazer sentir. Daí eu pergunto: existe algo mais humano do que isso?

Experimente pedir ao ChatGPT para interpretar um poema. Ele pode até estruturar sentidos, identificar padrões, organizar leituras possíveis. Mas há sempre algo que ele não alcança, porque a poesia não vive apenas no significado. Ela vive na experiência subjetiva de quem lê.

Talvez, no meio de tanta automação, o nosso maior risco não seja perder empregos, mas sim perder repertório emocional. E sem esse repertório, muito da humanidade se perde. E no mundo do Branding, excluir o emocional é excluir o que traz significado e que gera conexão e relacionamento. Porque, no fim, marcas fortes não são construídas apenas com dados, mas com significado. E significado exige sensibilidade. Exige humanidade.

Talvez esteja na hora de revisitarmos a prateleira de baixo. Não pela poesia em si, mas pelo que ela ainda é capaz de nos devolver: a nossa própria sensibilidade.

Céu Studart
Consultora de Marketing e Branding e Fundadora da Desencaixa Branding
Céu Studart é proprietária da Desencaixa Brading, onde realiza consultoria estratégica para marcas de vários segmentos e treinamentos. É estrategista de branding com mais de 20 anos de experiência no mercado. Foi embaixadora do Rock in Rio Academy by HSM (2019) e mentora do Founder Institute – Nordeste Virtual (2021), uma incubadora de negócios americana, fundada em Palo Alto, Califórnia (EUA). É publicitária. Especialista em Marketing (FGV) e Mestre em Marketing (UFC). Além da Desencaixa Branding, é também docente da graduação e pós-graduação, com mais de 17 anos de experiência, em cursos de graduação e pós-graduação, já tendo capacitado mais de 6000 profissionais.