Por Carolina Ferraz, mestra em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do GESC3 – Grupo de Estudos Semióticos em Comunicação, Cultura e Consumo
Nunca se falou tanto em organização. Mais do que uma prática doméstica, organizar tornou-se um discurso: atravessa redes sociais, estrutura mercados, orienta rotinas e, sobretudo, produz uma certa ideia de sujeito. Organizar hoje tem um Q não apenas de performar controle, em uma sociedade cada dia mais mutável e instável, mas certo aspecto de validação de si perante o outro e ao próprio olhar.
Na cultura contemporânea, a organização se apresenta como solução universal. Ela promete clareza em meio ao excesso, produtividade na era da sobrecarga e, não raro, transformação pessoal. Métodos, checklists, aplicativos e estéticas minimalistas circulam como tecnologias de si e estabelecem a disciplinarização de cada pequeno momento da vida, oferecendo ao indivíduo a sensação de controlar, sem perceber-se controlado numa lógica Foucaultiana.
Historicamente, as práticas começam dentro das casas, com os objetos. Nos modos de organizar a casa no Brasil, do fim do século XIX até os dias de hoje, percebe-se que a ordem doméstica sempre esteve vinculada a valores morais. Manuais domésticos, revistas femininas e programas de televisão construíram uma pedagogia da organização, na qual pensar em formas otimizadas de guardar era uma forma de estar dentro de um seleto grupo que tinha espaço, pertences e mão de obra disponível para dar conta. Guardar e expor eram práticas associadas à disciplina, ao cuidado e, principalmente, à figura feminina.
Nesse contexto, a casa organizada não era apenas desejável, e sim um indicador de caráter.
Com o avanço das décadas os modelos de organização foram obedecendo a lógicas que se somavam. Agora, além do status e poder familiar, a organização obedecia às escolas de administração, antes em lógicas tayloristas que influenciavam a arquitetura, hoje em lógicas toyotistas que obedecem não apenas os espaços físicos de armazenamento, mas a forma como nos movimentamos dentro da própria casa.
Os sistemas de mídia, publicidade e moda, trabalham desde meados do século XX para a divulgação desse novo arranjo de forma uníssona, só que agora cada vez mais acelerada e capilarizada. Se antes tínhamos a divulgação nas festas da Tupperware, hoje os achadinhos da Shopee estão em todos os vídeos que scrollamos. Se Marta Stewart falava com donas de casa, Marie Kondo agora abre uma frente para palestra com executivos C-level.
Sem falar dos coachings que usam métodos de organização sempre prescritivos e pouco baseados na experimentação e forma de existir de cada indivíduo para vender todo e qualquer tipo de produto que traga bem-estar, seja esse financeiro ou emocional, concreto ou subjetivo.
A organização agora é racionalizada, e busca a performance e a otimização de resultados ao máximo. Muda-se a forma de falar de organização, mas não seu teor baseado na moralidade e no valor do indivíduo.
A régua de organização do brasileiro extrapola a casa e deixa de ser não apenas mais alta, mas uma nota de corte, estruturada na comparação e nos abismos tão comuns da nossa sociedade. No lugar da imposição, a sedução. Ainda assim, o efeito pode ser semelhante: a responsabilização individual por uma ordem que desconsidera contextos, desigualdades e os ciclos da vida.
A estética da organização – calcada em superfícies insípidas, objetos reduzidos, espaços vazios, cadernos organizados, dezenas de aplicativos de produtividade, anéis e relógios de monitorização, quadros de tarefa padronizados, métodos ágile e um batalhão de tempo e mãos para dar conta de tudo isso – constrói um ideal que raramente corresponde à vida cotidiana. Entre o feed e os espaços reais, instala-se uma fricção. É nesse intervalo que a bagunça emerge e revela o descompasso entre o modelo normativo e a experiência vivida.
Frustra-se e no outro dia vem a tentativa de recomeçar. Como quando recomeçávamos o caderno da escola numa tentativa da letra se manter uniforme nas anotações. Habitar e executar qualquer coisa é um processo de interligação entre corpos, ideias, objetos e espaços. A tentativa de estabilizar completamente esse fluxo por meio da organização esbarra na própria natureza da vida, que é dinâmica, contingente e, inevitavelmente, imperfeita.
