Se você estava nas redes sociais nos últimos 2 meses, provavelmente foi impactado por algum vídeo onde animações de frutas discutiam a relação. Encontrar a origem exata de uma “trend” sempre é um desafio, principalmente com mais de 2 bilhões de usuários ativos em plataformas como Instagram e TikTok.
Em março deste ano, participei do SXSW e me surpreendi com alguns dados relacionados ao volume de conteúdos que estimulam o “Brainrot” nas redes sociais. Se você ainda não está familiarizado com esse termo, vou te explicar:
O Dicionário de Oxford definiu “Brain Rot” como “a suposta deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa, especialmente vista como resultado do consumo excessivo de material (principalmente conteúdo online) considerado trivial ou pouco desafiador”.
Segundo Rosa Rahimi, pesquisadora e jornalista da CNN e BBC News, “Brain rot” ganhou força nos últimos anos, à medida que as preocupações sobre o impacto do consumo excessivo de conteúdos online de baixa qualidade cresceram. Ou seja, estamos ensinando o nosso cérebro a não pensar muito através do consumo de conteúdos de fácil entendimento.
O hábito subconsciente de não questionar ou aprofundar faz com que apenas aceitemos as informações que consumimos. Como uma criança que aceita as regras de um videogame, porque ainda não construiu a parte crítica do cérebro.
A neurocientista Maryanne Wolf fala bastante sobre isso ao estudar leitura profunda e atenção digital. Ela defende que o cérebro leitor é moldado pelo ambiente. Se consumimos apenas fragmentos rápidos de informação, treinamos mais escaneamento do que reflexão.
Quem acompanhou os conteúdos que compartilhei sobre o SXSW 2026 conhece Tristan Harris e o Center for Humane Technology. Ele defende que plataformas são desenhadas para capturar atenção contínua através de loops comportamentais. Nossos comportamentos são moldados por algo mais inteligente do que nós, que nos observa silenciosamente e meticulosamente, os algoritmos.
Outro termo bastante usado e relacionado a esse tipo de conteúdo é o “AI Slop”, que significa um conteúdo raso gerado por IA de forma generativa. Brainrot é um dos impactos gerados pelo consumo excessivo de informações e de conteúdos de IA.
Com esse contexto, agora podemos nos aprofundar no que aconteceu com as novelinhas das frutas. Ou melhor, o que aconteceu com a nossa atenção para darmos palco a esse tipo de conteúdo.
Uma conta viralizou ao adaptar o formato do reality show britânico “Love Island” para o universo das frutas. O resultado foi uma explosão de audiência que ultrapassou os 2,5 milhões de seguidores. Combinados, os conteúdos somam cerca de 30 milhões de curtidas segundo o portal G1.

Abacatudo, Moranguete e Bananildo são alguns dos personagens que emprestam rostos e vozes sintéticas a tramas que resumem, em 60 segundos, toda a intensidade de um típico drama brasileiro. Tem fofoca, traição, reviravolta e até barraco em baile funk. É tudo, menos um conteúdo infantil. Mas a impressão é que estão tratando os nossos cérebros como crianças.
As marcas entraram na “brincadeira”, porque quem quer atingir as massas sabe muito bem que trends são atalhos poderosos para participar de uma conversa que já está acontecendo. Flamengo, Burger King, Prefeitura de Salvador foram apenas algumas das que pegaram carona nesse formato.
Na minha visão, a pergunta mais importante não é “por que as marcas entraram?”, e sim “por que estamos dando tanto palco para isso e como isso impacta a forma que aprendemos e nos comportamos?”. Essa trend provavelmente começou como uma brincadeira, mas funcionou porque ativa três forças muito presentes na lógica das plataformas atuais: repetição, recompensa rápida e estranhamento.
A repetição aparece nos personagens recorrentes, nos bordões, na estética parecida e na sensação de continuidade. O cérebro reconhece o padrão rapidamente e passa a acompanhar quase sem esforço. A recompensa rápida vem da facilidade de consumo. Você não precisa de contexto, repertório ou concentração. Em poucos segundos entende o conflito, recebe uma dose de drama e já está pronto para o próximo episódio. E o estranhamento talvez seja a parte mais interessante. A internet atual ama o absurdo. Frutas humanizadas discutindo relacionamento, objetos vivendo romances, dramas aleatórios com estética artificial. O surreal deixou de ser exceção e virou linguagem.
No fundo, a novelinha das frutas não viralizou apenas porque era engraçada. Viralizou porque entendeu perfeitamente a gramática da atenção contemporânea: pouco esforço, muito estímulo e uma narrativa simples o suficiente para qualquer pessoa entrar no meio do caminho.
A questão é que, quando esse tipo de conteúdo vira hábito, ele também nos mostra algo sobre nós. Não estamos apenas consumindo uma trend, estamos treinando nossa atenção para aceitar narrativas cada vez mais rápidas, mastigadas e fáceis de processar. E talvez esse seja o ponto mais incômodo: as frutas não são o problema, elas são o sintoma de uma sociedade que não tem mais o controle do que consome de informação.
Dica de conteúdo:
Enough with the Bullsh*T: BuzzFeed Founder Shares His Plan to Make the Internet Fun Again
