Lá atrás, por volta de 2020 — nem faz tanto tempo assim, mas na prática faz! —, eu escutava, encantada, a Martha Gabriel falando sobre inovação. E continuo escutando até hoje. Naquela época, quando tudo isso ainda engatinhava, ela dizia que, para entender de verdade o movimento da IA, da internet das coisas, da integração com gadgets e de todas as promessas que estavam por vir — óculos, rings e tantos outros dispositivos —, a gente precisava experimentar. Testar. Porque, sem essa vivência, estaríamos apenas assistindo de fora ao que os consumidores já começavam a experimentar na prática.
Foi aí que eu comecei. Aos poucos, fui entendendo quais ferramentas ajudavam com o braço, com a execução, e quais poderiam ajudar com o cérebro, com a construção. Machine learning, segurança, armazenamento… tudo isso que a gente costuma colocar dentro desse grande pacotão chamado IA. Pois bem. Esses dias li uma chamada na Exame que dizia: “Você foi feito para criar. O Claude foi feito para executar.” Dentre outras pautas que se seguiam ao título, essa frase ficou ecoando por aqui. Ela resumiu muito bem a forma como eu tenho sentido essa relação entre o que é criado pelo humano e o que é gerado 100% pela IA.
Não vou aqui gastar nosso tempo tentando convencer ninguém a nada. Não sou mentora, guru, coach, nem nada que o valha, mas gostaria de compartilhar com vocês um bocadinho de como tenho lidado com as ferramentas que têm viralizado pros lados de cá, pra quem cria conteúdo.
Quando crio, escrevo um texto, desenvolvo um plano ou construo uma estratégia, chego ao final com aquele sentimento de quem fez a faxina que estava adiando no closet. Sabe aquele orgulho, aquela sensação boa de dever cumprido? É exatamente isso. Tem intenção. Tem transpiração. Tem DNA. Muito além das metodologias. E o melhor: sinto segurança e satisfação em apresentar, a sustentação flui, a defesa não requer grandes esforços, porque existe naquela entrega uma verdade fundamentada no que é proprietário para aquela marca, dentro daquele contexto, daquela cultura. É genuíno.
Mas, quando lanço mão das ferramentas de IA para este fim, o de criar, pensar, construir, confesso que, até aqui, ainda não consegui sentir o mesmo entusiasmo. Não consegui vibrar de verdade com a entrega. E, quase sempre, acabei refazendo. Por hábito? Por intransigência? Resistência? Ainda não sei. Só sei que é assim que tenho sentido. Enquanto consumidora, assisto ainda mais entristecida ao show de horrores que tem se tornado o feed de algumas marcas, com excesso de IA veiculando um conteúdo repetitivo, sintético e impessoal.
Como braço, a IA ajuda muito. Tira pesos desnecessários, acelera processos, libera tempo para o que realmente importa e isso a gente não discute mais. É fato. Mas para engajamento verdadeiro a partir dos esforços de comunicação das marcas, ainda falta bossa. Já quero é que chegue a próxima onda, quando a gente vai olhar pra trás e lembrar dos dias atuais assustados, refletindo o absurdo que eram as campanhas horrendas criadas 100% por IA. Ou, ainda, quando teremos evoluído tanto que geraremos 100% por IA, com uma entrega superior à realizada anteriormente pelo humano.
Steve Jobs dizia que “a criatividade nasce da capacidade de conectar experiências aparentemente desconectadas”. Nossa visão sistêmica, repertório e a capacidade humana de trabalhar com a multiplicidade de saberes ainda hão de garantir nossa cadeira na sala por um tempo. Seguimos!
