Do Eflúvio de um iPod: por que você ainda precisa de um

Por Redação

17/08/2026 15h36

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Ontem recebi minha terceira geração de AirPods da Apple e ainda continuo confundindo, na dicção, AirPod com iPod. Jamais seria um lapso fonético. Há palavras que, de tanto acompanharem a vida, terminam por carregar outras dentro delas, como um eflúvio de tempos que julgávamos já encerrados.
Isso me retomou à minha estada em Atlantic City, em minha primeira viagem aos Estados Unidos, quando trabalhava como steward (lavador de pratos), aos 19 anos.

Entre pratos, bandejas e uma língua que ainda me soava estrangeira, havia aqueles objetos que pareciam anunciar o futuro. Tipo quando falo com Icaro, o homem de asas. O iPod era um deles, sem alas. Pequeno, branco, quase asséptico, prometia uma coisa hoje estranhamente preciosa: levar consigo as músicas que eram suas.

Em vinte anos, a marca me acompanhou. Nem sempre com felicidade. Houve até o dia em que enterrei um iOS que, num desses acidentes tecnológicos capazes de produzir luto verdadeiro, apagou minha dissertação de doutoramento. Dr. Hanke, como bom orientador, não permitiria narrar o drama. Descobri ali que nossa relação com a tecnologia também comporta ressentimento. Podemos amar uma interface e, minutos depois, desejar lançá-la pela janela. Isso é pura experiência do utilizador.

Esta nostalgia me faz recordar também a palestra de Philip Kotler que Nosso Meio trouxe a Fortaleza, numa quadra já remota. Falava-se de marcas, desejos, experiências, daquilo que permanece depois que o produto deixa de ser novidade. Talvez eu não compreendesse então que o grande patrimônio de uma marca não repousa apenas no objeto que vende, mas no tempo que consegue habitar conosco.
Ah, a nostalgia! Quem não a conhece?

Eis que agora descubro que o iPod está voltando. Não pelas mãos da Apple, mas pelas mãos de jovens que sequer viveram seu apogeu. Uma matéria recente da Mac|Life descreve uma curiosa ressurreição: integrantes da Geração Z procuram iPods antigos, restauram baterias, trocam carcaças, ampliam a memória e devolvem à pequena roda circular uma utilidade que Cupertino julgara encerrada.
A princípio, poderíamos chamar isso de nostalgia. Reclamo: como sentir saudade daquilo que não se viveu?

Talvez aí resida o fenômeno mais interessante. Esses jovens não parecem querer retornar ao passado. Querem escapar, por alguns instantes, do presente.

Por que o iPod está voltando? A Geração Z redescobre o clássico da Apple

A volta do iPod: nostalgia, menos algoritmos e mais controle sobre a música. Explico:

O velho iPod não envia notificações. Não interrompe uma canção porque chegou um e-mail. Não sabe onde estamos. Não tenta adivinhar o que desejaremos ouvir depois. Não possui um algoritmo empenhado em prolongar nossa permanência diante de uma tela. O device contém apenas aquilo que deliberadamente colocamos dentro dele. Isso é vontade do usuário. Parece pouco. Tornou-se quase revolucionário sem embargo.

Durante anos, confundimos abundância com liberdade. Trocamos uma estante de discos por milhões de músicas disponíveis instantaneamente e chamamos isso de progresso. Entretanto, no caminho, algo mudou silenciosamente: deixamos de possuir nossas coleções para acessá-las. Paramos de escolher para sermos recomendados. Fixamo-nos em organizar para sermos organizados. 42 sabe!

O iPod, que em 2001 representava o futuro, retorna em 2026 como uma pequena insurgência contra esse mesmo futuro.

Exprimo nesta retomada uma ironia digna da história da tecnologia. O aparelho criado para libertar a música do suporte físico tornou-se, duas décadas depois, uma espécie de objeto analógico dentro do universo digital. Não porque tenha deixado de ser digital, evidentemente, mas porque conserva uma qualidade quase esquecida: a finitude. Minha biblioteca termina. Minha playlist termina. O aparelho não conhece todas as músicas do mundo. Conhece as minhas. Talvez por isso minha língua ainda tropece entre AirPod e iPod.

Recebo um dos mais recentes descendentes daquela genealogia tecnológica e, ao pronunciá-lo, reaparece o antepassado. Atlantic City reaparece. O rapaz de 19 anos reaparece. Fortaleza reaparece. Kotler ressurge. Até a dissertação perdida culmina, para minha desventura, como fantasma digital.

Vinte anos depois, compreendo que não guardamos propriamente saudade dos objetos. Guardamos saudade das experiências que eles testemunharam. O paradoxo é que uma geração que não possui essas lembranças parece ter descoberto outra coisa no mesmo objeto: não a memória de um mundo perdido, mas a possibilidade de um mundo menos intrusivo.

Talvez a nostalgia seja também isso. Às vezes, olhamos para trás não porque desejamos regressar. Volvemos para trás para descobrir alguma coisa que esquecemos de levar conosco. E somente então a solidez das palavras de Jobs se firma: fazer aquilo que amamos talvez continue sendo uma das poucas maneiras de não nos perdermos do que fomos.

Kochav Koren
Professor adjunto e pesquisador do PhD de Retórica na Duquesne University
Kochav Koren é professor adjunto e pesquisador do PhD de Retórica na Duquesne University, professor designado na Universidade do Estado de Minas Gerais, pesquisador visitante do Zentrum für Medien- Kommunikations- und Informationsforschung (ZeMKI) da Universidade de Bremen na Alemanha (2022) e Max Kade German-American Center da Universidade de Kansas (2018). Foi auditor em pesquisa na Ernst & Young (EY). Graduado em Publicidade pela Escola Superior de Propaganda em Marketing, mestre em Sociologia e doutor em Estudos da Mídia. Possui mais de dez anos de experiência em pesquisa e oito anos em docência. Inventor do software Qualichat, desenvolvido em seu pós-doutoramento na UNICAMP, entre 2020 e 2022. Fundador do Ernest Manheim Laboratório de Opinião Pública.