Ontem recebi minha terceira geração de AirPods da Apple e ainda continuo confundindo, na dicção, AirPod com iPod. Jamais seria um lapso fonético. Há palavras que, de tanto acompanharem a vida, terminam por carregar outras dentro delas, como um eflúvio de tempos que julgávamos já encerrados.
Isso me retomou à minha estada em Atlantic City, em minha primeira viagem aos Estados Unidos, quando trabalhava como steward (lavador de pratos), aos 19 anos.
Entre pratos, bandejas e uma língua que ainda me soava estrangeira, havia aqueles objetos que pareciam anunciar o futuro. Tipo quando falo com Icaro, o homem de asas. O iPod era um deles, sem alas. Pequeno, branco, quase asséptico, prometia uma coisa hoje estranhamente preciosa: levar consigo as músicas que eram suas.
Em vinte anos, a marca me acompanhou. Nem sempre com felicidade. Houve até o dia em que enterrei um iOS que, num desses acidentes tecnológicos capazes de produzir luto verdadeiro, apagou minha dissertação de doutoramento. Dr. Hanke, como bom orientador, não permitiria narrar o drama. Descobri ali que nossa relação com a tecnologia também comporta ressentimento. Podemos amar uma interface e, minutos depois, desejar lançá-la pela janela. Isso é pura experiência do utilizador.
Esta nostalgia me faz recordar também a palestra de Philip Kotler que Nosso Meio trouxe a Fortaleza, numa quadra já remota. Falava-se de marcas, desejos, experiências, daquilo que permanece depois que o produto deixa de ser novidade. Talvez eu não compreendesse então que o grande patrimônio de uma marca não repousa apenas no objeto que vende, mas no tempo que consegue habitar conosco.
Ah, a nostalgia! Quem não a conhece?
Eis que agora descubro que o iPod está voltando. Não pelas mãos da Apple, mas pelas mãos de jovens que sequer viveram seu apogeu. Uma matéria recente da Mac|Life descreve uma curiosa ressurreição: integrantes da Geração Z procuram iPods antigos, restauram baterias, trocam carcaças, ampliam a memória e devolvem à pequena roda circular uma utilidade que Cupertino julgara encerrada.
A princípio, poderíamos chamar isso de nostalgia. Reclamo: como sentir saudade daquilo que não se viveu?
Talvez aí resida o fenômeno mais interessante. Esses jovens não parecem querer retornar ao passado. Querem escapar, por alguns instantes, do presente.
Por que o iPod está voltando? A Geração Z redescobre o clássico da Apple
A volta do iPod: nostalgia, menos algoritmos e mais controle sobre a música. Explico:
O velho iPod não envia notificações. Não interrompe uma canção porque chegou um e-mail. Não sabe onde estamos. Não tenta adivinhar o que desejaremos ouvir depois. Não possui um algoritmo empenhado em prolongar nossa permanência diante de uma tela. O device contém apenas aquilo que deliberadamente colocamos dentro dele. Isso é vontade do usuário. Parece pouco. Tornou-se quase revolucionário sem embargo.
Durante anos, confundimos abundância com liberdade. Trocamos uma estante de discos por milhões de músicas disponíveis instantaneamente e chamamos isso de progresso. Entretanto, no caminho, algo mudou silenciosamente: deixamos de possuir nossas coleções para acessá-las. Paramos de escolher para sermos recomendados. Fixamo-nos em organizar para sermos organizados. 42 sabe!
O iPod, que em 2001 representava o futuro, retorna em 2026 como uma pequena insurgência contra esse mesmo futuro.
Exprimo nesta retomada uma ironia digna da história da tecnologia. O aparelho criado para libertar a música do suporte físico tornou-se, duas décadas depois, uma espécie de objeto analógico dentro do universo digital. Não porque tenha deixado de ser digital, evidentemente, mas porque conserva uma qualidade quase esquecida: a finitude. Minha biblioteca termina. Minha playlist termina. O aparelho não conhece todas as músicas do mundo. Conhece as minhas. Talvez por isso minha língua ainda tropece entre AirPod e iPod.
Recebo um dos mais recentes descendentes daquela genealogia tecnológica e, ao pronunciá-lo, reaparece o antepassado. Atlantic City reaparece. O rapaz de 19 anos reaparece. Fortaleza reaparece. Kotler ressurge. Até a dissertação perdida culmina, para minha desventura, como fantasma digital.
Vinte anos depois, compreendo que não guardamos propriamente saudade dos objetos. Guardamos saudade das experiências que eles testemunharam. O paradoxo é que uma geração que não possui essas lembranças parece ter descoberto outra coisa no mesmo objeto: não a memória de um mundo perdido, mas a possibilidade de um mundo menos intrusivo.
Talvez a nostalgia seja também isso. Às vezes, olhamos para trás não porque desejamos regressar. Volvemos para trás para descobrir alguma coisa que esquecemos de levar conosco. E somente então a solidez das palavras de Jobs se firma: fazer aquilo que amamos talvez continue sendo uma das poucas maneiras de não nos perdermos do que fomos.
