Em um cenário cada vez mais dominado por plataformas e algoritmos opacos, criadores e especialistas em tecnologia começam a questionar o modelo atual das redes sociais e, principalmente, a propor caminhos alternativos. Esse foi o ponto de partida de um debate que reuniu Rabble (Evan Henshaw-Plath), fundador e CEO da Divine; Rudy Fraser, fundador e CEO da Black Sky; e Bridget Todd, fundadora e CEO da Unbossed Creative e apresentadora do podcast There Are No Girls on the Internet, em uma conversa sobre descentralização, autonomia dos usuários e novos modelos econômicos para a internet.

A discussão começou com uma crítica direta à forma como as plataformas estruturam a experiência digital. Para Rabble, o modelo atual não é inevitável, mas resultado de decisões que priorizam controle e escala:
“Estamos presos em sistemas que não priorizam a gente. O que a gente vê hoje nas redes não é uma lei da natureza, é uma escolha de design. As plataformas foram construídas para funcionar dessa forma, com controle centralizado e pouca transparência; se isso foi uma escolha, pode ser mudado. A questão é parar de tratar esse modelo como definitivo e começar a construir alternativas.”
Segundo os especialistas, o controle algorítmico aparece como um dos principais pontos de tensão. Atualmente a distribuição de conteúdo é mediada por sistemas que o usuário não compreende nem consegue alterar, o que concentra poder nas plataformas. Rudy Fraser defendeu que a mudança passa por devolver esse controle às pessoas, permitindo mais autonomia sobre o que consomem e como interagem com o conteúdo:
“No modelo tradicional, você não escolhe seu feed, não entende por que algo aparece e não pode mudar isso. Quando você permite que o usuário escolha, troque ou até crie seu próprio algoritmo, você muda completamente a relação de poder dentro da plataforma.”
Os especialistas apontaram lógica impacta diretamente os criadores, que constroem suas audiências em ambientes sobre os quais não têm controle. A dependência dos algoritmos e das regras das plataformas cria um cenário instável, em que alcance e relevância podem variar sem transparência.
“Hoje, os criadores constroem audiência em espaços que não são deles. É como trabalhar em um terreno alugado, você investe tempo, constrói algo valioso, mas está sempre sujeito a mudanças que não controla. Isso faz com que muita gente passe a criar pensando no algoritmo, tentando prever o que vai performar melhor, e não necessariamente no que quer dizer”, afirmou Bridget Todd.
Além da dinâmica de distribuição, o modelo de negócios das plataformas também influencia diretamente o tipo de conteúdo que ganha visibilidade. Baseadas em publicidade, elas operam com foco na retenção de atenção, o que tende a favorecer conteúdos mais extremos ou altamente engajadores. Para Fraser, esse incentivo molda o próprio ambiente digital, onde plataformas orientadas por anúncios priorizam tempo de tela, impactando o formato, a qualidade e o tom do conteúdo que circula.
Diante desse cenário, surgem alternativas que buscam fortalecer relações mais diretas entre criadores e audiência, como assinaturas, financiamento coletivo e modelos independentes. Bridget Todd destacou que esse movimento já é visível no podcasting, um formato que se desenvolveu de forma mais aberta e distribuída.
“O podcast é um exemplo interessante porque não depende de uma única plataforma. Você pode publicar, distribuir e monetizar de diferentes formas, o que cria mais autonomia para quem produz e uma relação mais direta com quem consome”, afirmou.
Apesar das possibilidades, a transição para esse novo modelo ainda enfrenta barreiras importantes. O efeito de rede, o hábito dos usuários e a concentração de audiência dificultam a migração para novas plataformas. Nesse contexto, a interoperabilidade aparece como um elemento central. Rudy Fraser destacou que a possibilidade de levar identidade, conexões e conteúdo entre plataformas é fundamental para viabilizar qualquer mudança em escala. Sem isso, o custo de saída continua alto e limita a adoção de alternativas.
Ao longo do painel, consolidou-se também a ideia de que o futuro das redes não será concentrado em uma única plataforma, mas distribuído em múltiplos ambientes. Em vez de substituição imediata, o caminho tende a ser a construção gradual de ecossistemas paralelos, com diferentes comunidades testando modelos próprios de moderação, algoritmos e monetização.
“Talvez o caminho não seja substituir tudo de uma vez, mas criar alternativas que cresçam aos poucos. Foi assim com podcasts e newsletters, que começaram mais nichados e hoje são relevantes. Esse tipo de construção permite experimentar, ajustar e criar modelos mais sustentáveis ao longo do tempo”, afirmou Rabble.
Mais do que uma mudança tecnológica, os participantes apontam para uma transformação cultural, que envolve a redistribuição de poder na construção dos espaços digitais. Para Bridget Todd, essa discussão passa por entender quem participa dessas decisões e quais interesses orientam essas plataformas. Já Fraser reforçou que esse movimento não é hipotético, mas já está em curso, impulsionado por novas ferramentas e pela organização de comunidades em torno de maior autonomia, tornando a participação dos usuários como ativa na construção desses ambientes.
“A gente não pode esperar que o sistema mude sozinho. Se queremos uma internet diferente, mais aberta e mais justa, precisamos começar a construir isso agora. No fim, a internet é o que a gente faz dela”, finalizou Rabble.

