Autor e escritor escreveu mais de 15 folhetins, marcados por temas sociais e conflitos familiares
Morreu no último sábado (10), aos 92 anos, o autor e escritor brasileiro Manoel Carlos. A informação foi confirmada pela produtora Boa Palavra, comandada pela sua filha Júlia Almeida. A causa da morte, entretanto, não foi divulgada. O corpo de Manoel Carlos foi sepultado na tarde de ontem (11) no Cemitério São João Batista, na Zona Sul do Rio de Janeiro, após o velório restrito a família e amigos, que contou com a presença de Lilia Cabral, Tony Ramos e Jayme Monjardim.
Antes de trabalhar na Globo, em 1972, como diretor-geral do “Fantástico”, Manoel Carlos trabalhou nas emissoras TV Tupi, TV Excelsior e TV Paulista, onde dirigiu programas de variedades e escreveu novelas baseadas em grandes clássicos da literatura, como “Helena” e “Iaiá Garcia”. Seu primeiro folhetim na TV Globo foi “Maria, Maria”, uma adaptação do romance “Maria Dusá” de Lindolfo Rocha. Em 1980, ele aperfeiçoou seu estilo, centrado no cotidiano e nos conflitos das famílias brasileiras, na novela “Água Viva”, em coautoria com o também autor falecido Gilberto Braga. E, em 1981, com a novela “Baila Comigo”, Maneco apresentou ao mundo sua primeira Helena, interpretada pela atriz Lilia Lemmertz.
As heroínas homônimas de Manoel Carlos surgiram a partir de sua admiração pela princesa do mito de Tróia. Geralmente, as Helenas são representadas como mulheres na faixa etária dos 30 a 50 anos, românticas, empáticas e pertencentes a classe média alta carioca. Além de Lilia Lemertz, outras seis atrizes deram vida a Helena em nove folhetins, sendo elas: Maitê Proença, Christiane Torloni, Vera Fischer, Taís Araújo, Júlia Lemmertz e Regina Duarte, a única a interpretar três Helenas.

Cuidadoso com as suas obras, Manoel Carlos participava ativamente de todos os processos criativos envolvendo suas novelas, desde a escrita do texto até a escolha da ambientação e trilha sonora. Cronista do cotidiano carioca, ele centrou suas obras em núcleos familiares de classe média alta, geralmente residentes no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Os diálogos corriqueiros, com pitadas de romantismo e embates morais, embaladas por canções clássicas da bossa nova nova, atraíam os expectadores pela identificação e não tinham medo em tocar em temas sensíveis que geravam transformação social.
Nos anos 2000, o texto de Manoel Carlos passou a ter um viés ainda mais social, abraçando diferentes causas que geraram transformações profundas no comportamento da sociedade e na legislação brasileira. Um grande exemplo é a novela “Laços de Família”, cujo drama da personagem Camila, diagnosticada com leucemia, fez o Instituto Nacional do Câncer (INCA) registrar um crescimento de 23.000 novos doadores de medula óssea em 2001.
Dois anos depois, a novela “Mulheres Apaixonadas” influenciou diretamente na criação do Estatuto do Idoso e do Estatuto do Desarmamento, como também na aprovação da Lei Maria da Penha. E em 2006, o autor discutiu a Síndrome de Down por meio das personagens Clara e de Helena em “Páginas da Vida”.
Ao ver o sol nascendo no Corcovado acompanhado de uma canção de Tom Jobim ou João Gilberto, o público já sabe: uma novela de Maneco está no ar pronta para emocionar. O autor e escritor deixa um legado de cenas antológicas, mas, acima de tudo, o compromisso social de levar um conteúdo que gera entretenimento e reflexão e que transforma a tela da televisão em um espelho da vida real.


