Especialista defende que empresas precisam ir além da produtividade e redesenhar estruturas, fluxos e o papel dos profissionais para capturar o real valor da inteligência artificial
Enquanto muitas empresas ainda tratam a inteligência artificial como ferramenta de produtividade, o verdadeiro impacto da tecnologia está em outro lugar: na forma como o trabalho é estruturado.
Essa foi a principal provocação da palestra “How to Design a Company That AI Can’t Outpace”, apresentada por Ian Beacraft, CEO Signal and Cipher, no SXSW 2026. Ian liderou projetos de inovação para empresas como Nike, Samsung, Intel, Nintendo e Microsoft.
Ian destaca que, hoje, a maior parte das empresas já incorporou a IA no dia a dia, seja para escrever textos, analisar dados ou automatizar tarefas. O problema, segundo o especialista, é que esse uso ainda se limita a acelerar processos, sem alterar a lógica do trabalho. O resultado são ganhos pontuais de eficiência, mas pouca transformação estrutural.
“Estamos usando IA para fazer as mesmas coisas, só que mais rápido, não para mudar como o trabalho acontece”, comenta Ian.
“O principal erro está em tratar a IA como ferramenta, e não como sistema”, complementa. Durante décadas, empresas foram desenhadas com base em limitações humanas, tempo escasso, atenção limitada, expertise concentrada e alto custo de execução. Com a IA, essas restrições começam a desaparecer, especialmente no ambiente digital, onde executar ideias nunca foi tão barato.
“Estamos entrando em um mundo onde construir um protótipo pode ser mais barato do que a reunião para planejar”, destaca Beacraft.
A consequência é uma inversão no modelo tradicional: menos planejamento, mais experimentação e aprendizado contínuo.
Nesse contexto, o papel dos profissionais também evolui. Se antes o valor estava na execução, agora passa a estar na capacidade de estruturar o trabalho. A IA assume parte do “fazer”, enquanto humanos ganham relevância ao desenhar fluxos, sistemas e decisões que podem ser replicadas em escala.
Isso exige uma mudança de mentalidade, e também de posicionamento dentro das empresas.
“Nosso trabalho está deixando de ser executar tarefas e passando a ser desenhar como o trabalho acontece”, pontua.
Essa transformação expõe um problema estrutural: muitas organizações ainda operam com modelos pensados para um mundo pré-IA. Departamentos isolados, fluxos lineares e múltiplas camadas de aprovação criam gargalos que limitam o potencial da tecnologia.
Por outro lado, a adoção irrestrita também tem limites. Experimentos de substituição total por IA mostram que, em situações mais complexas ou fora do padrão, o fator humano continua sendo essencial. Cultura, contexto e julgamento ainda não são plenamente replicáveis.
O caminho, portanto, não está em substituir pessoas, mas em reorganizar o trabalho. Empresas mais avançadas começam a operar com sistemas híbridos, onde agentes executam tarefas, enquanto humanos definem direção, critérios e qualidade.
O alerta final da palestra é claro: usar IA não garante vantagem competitiva. O diferencial está em como ela é integrada à estrutura da empresa.


