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Idioma como ativo estratégico: a leitura de mercado por trás do Instituto de Tradução e Interpretação (I.T.I)

Por Gabriela Veras

01/09/2026 14h34

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Rodrigo Bonet passou mais de duas décadas traduzindo vozes em salas de conferência, com passagens por reuniões da OCDE, antes de enxergar ali dentro algo maior do que uma carreira consolidada. Tradutor público e intérprete de conferência, ele já circulava por ambientes muito distintos quando percebeu que a linguagem funcionava como um fator determinante para aproximar pessoas, empresas e culturas. “Eu sempre enxerguei a interpretação como algo maior do que simplesmente traduzir de um idioma para outro”, foi essa leitura, amadurecida ao longo de anos de cabine, que o levou a fundar o Instituto de Tradução e Interpretação (ITI) em Fortaleza, em 2020, no momento em que o mundo se fechava fisicamente e se reconectava por telas.

A pandemia, na avaliação dele, apenas acelerou uma transformação que já estava em curso. Reuniões, negociações, aulas e eventos migraram para o ambiente remoto, e a necessidade de comunicação entre idiomas continuou de pé, em alguns casos mais intensa do que antes. “Percebi que não era apenas uma mudança no formato do meu trabalho. Havia uma oportunidade de transformar toda aquela experiência acumulada em uma empresa, com tecnologia, processos e uma visão mais ampla de mercado”, afirma o fundador. O I.T.I nasceu dessa combinação, reunindo tradução livre, tradução juramentada e interpretação simultânea remota em um marketplace, com soluções como o I.T.I  Events, que substitui os receptores físicos de áudio por acesso via QR Code.

No centro da operação está uma distinção que Bonet trata como o próprio coração do negócio: a diferença entre traduzir palavras e traduzir intenção. Para ele, se a interpretação fosse apenas a substituição de termos de um idioma por outro, boa parte do problema já estaria resolvida por máquinas. O que sustenta o valor do trabalho é o contexto, o ritmo, o humor, a emoção e as referências culturais que acompanham qualquer fala. “Uma tradução tecnicamente correta pode transmitir informação, mas uma interpretação de qualidade transmite significado. E é o significado que gera conexão”, afirma. A leitura tem consequência prática direta para as marcas, e é aqui que a comunicação entra na conta.

Bonet argumenta que tratar a tradução simultânea como um detalhe de logística de evento é onde muitas empresas perdem valor. Ele descreve o cenário de uma organização que investe meses na preparação de um encontro internacional, traz um executivo ou especialista de fora, reúne clientes e potenciais investidores, e vê a mensagem se perder justamente no momento mais importante porque o público não a compreende plenamente. Pensada desde o início, afirma, “a interpretação deixa de ser suporte e passa a ser ferramenta de comunicação”, o que exige entender o público, o conteúdo, os termos técnicos e a própria dinâmica do evento.

Há ainda um recorte regional que o I.T.I carrega como parte da própria identidade. Construir uma startup de linguagem a partir do Nordeste, longe do eixo tradicional das empresas de idiomas no país, contraria a ideia de que atuação internacional exige presença física nos grandes centros. “Estar em Fortaleza não nos distancia do mundo. Pelo contrário, nos coloca diante da possibilidade de criar pontes entre o mercado local e o internacional”, afirma Bonet. Ele observa que a região reúne empresas, profissionais e eventos com potencial de internacionalização e que, muitas vezes, o que falta não é competência, mas acesso, uma barreira que a eliminação do obstáculo linguístico ajuda a derrubar.

Sobre o avanço da inteligência artificial, o fundador não trabalha com a lógica de ameaça. Reconhece a eficiência da tecnologia em tarefas de contexto previsível, mas aposta na camada humana diante de ambiguidades, mudanças de assunto, ironias e decisões tomadas em frações de segundo, sobretudo quando há responsabilidade envolvida em negociações e encontros estratégicos. “O futuro não será de humanos contra máquinas, mas de humanos utilizando máquinas para fazer um trabalho ainda melhor”, afirma. Para ele, o Instituto de Tradução e Interpetração caminha nessa direção, combinando sensibilidade e tecnologia para tornar a comunicação internacional mais acessível.

A leitura conversa com o momento do setor. O mercado global de interpretação foi avaliado em cerca de US$ 14 bilhões em 2025, com projeção de quase triplicar na próxima década, e mais de 60% desses serviços já são entregues de forma remota, movimento acelerado pelo mesmo período que deu origem à empresa. À medida que mais companhias brasileiras se internacionalizam e mais estrangeiras olham para o Brasil, cresce a demanda por quem constrói pontes entre esses mundos. A necessidade de compreender, e de ser compreendido, permanece essencialmente humana.

Confira a entrevista na íntegra:

NOSSO MEIO | O Instituto de Tradução e Interpretação (I.T.I) nasce em 2020, num momento em que o mundo se fechava e, ao mesmo tempo, se conectava como nunca por telas. Você já vinha de mais de duas décadas traduzindo vozes em salas de conferência, inclusive em reuniões da OCDE, quando decidiu empreender. O que você enxergou naquele instante de virada que o convenceu de que existia um negócio a ser construído, e não apenas uma carreira a ser mantida?

Rodrigo Bonet: Eu sempre enxerguei a interpretação como algo maior do que simplesmente traduzir de um idioma para outro. Ao longo de mais de duas décadas atuando nesse mercado, tive a oportunidade de estar em ambientes muito diferentes, de grandes conferências a reuniões internacionais, e percebi o quanto a linguagem pode ser determinante para aproximar pessoas, empresas e culturas.

A pandemia acelerou uma transformação que já estava acontecendo. De repente, o mundo inteiro passou a trabalhar, negociar, ensinar, participar de eventos e se relacionar por meio de telas. Aquilo que antes dependia de presença física passou a acontecer remotamente, e a necessidade de comunicação entre diferentes idiomas continuava, talvez até mais forte.

Foi nesse momento que percebi que não era apenas uma mudança no formato do meu trabalho. Havia uma oportunidade de transformar toda aquela experiência acumulada em uma empresa, com tecnologia, processos e uma visão mais ampla de mercado. O I.T.I nasceu justamente dessa combinação: experiência de quem conhece profundamente a interpretação com a percepção de que era possível oferecer esse serviço de uma maneira mais ágil, escalável e conectada com o novo mundo dos negócios.

NOSSO MEIO | Existe uma diferença sutil, mas decisiva, entre traduzir palavras e traduzir intenção. Quando uma voz estrangeira chega a um público brasileiro, o que se transmite não é só o conteúdo, mas o tom, o ritmo, a cultura por trás da fala. Como você enxerga esse trabalho de preservar o tom de voz de quem fala outro idioma, e por que ele é tão determinante para que uma mensagem realmente crie conexão de um lado e do outro?

Rodrigo Bonet: Para mim, esse é justamente o coração da interpretação. Se fosse apenas uma questão de substituir palavras de um idioma por palavras de outro, provavelmente uma máquina já resolveria grande parte do problema.

Mas comunicação não acontece apenas pelas palavras. Ela acontece pelo contexto, pela intenção, pelo humor, pela emoção, pelo ritmo, pelas referências culturais e até pelo silêncio. Um bom intérprete precisa ouvir não apenas o que está sendo dito, mas entender o que aquela pessoa realmente quer comunicar.

Quando alguém fala em outro idioma, o nosso papel é fazer com que o público receba aquela mensagem com a maior naturalidade possível, sem perder a personalidade de quem está falando. É quase como permitir que uma pessoa continue sendo ela mesma mesmo quando sua voz precisa atravessar uma barreira linguística.

E isso é fundamental principalmente em situações de negócios, eventos e grandes encontros. Uma tradução tecnicamente correta pode transmitir informação, mas uma interpretação de qualidade transmite significado. E é o significado que gera conexão.

NOSSO MEIO | O mercado global de interpretação foi avaliado em torno de US$ 14 bilhões em 2025, com projeção de quase triplicar na próxima década, e mais de 60% desses serviços já são entregues de forma remota. Para além dos números, no dia a dia dos negócios, o que uma empresa perde quando trata a tradução simultânea como um detalhe de logística de evento, e o que ela ganha quando entende esse trabalho como parte estratégica da sua comunicação?

Rodrigo Bonet: Quando a interpretação é tratada apenas como um item de logística, existe um risco grande de a empresa pensar somente em “ter alguém traduzindo”. Mas, em um evento internacional, a interpretação faz parte da própria experiência de comunicação.

Imagine uma marca investindo meses na preparação de um evento, trazendo um executivo ou especialista de outro país, reunindo clientes, parceiros e potenciais investidores, e no momento mais importante dessa comunicação o público não consegue compreender plenamente aquela mensagem. É uma perda enorme de valor.

Por outro lado, quando a interpretação é pensada estrategicamente desde o início, ela ajuda a garantir que a mensagem chegue com clareza, naturalidade e impacto. Isso envolve entender o público, o conteúdo, os termos técnicos, o perfil dos participantes e até a dinâmica do evento.

A interpretação deixa de ser um “suporte” e passa a ser uma ferramenta de comunicação. E, em um mundo cada vez mais globalizado, permitir que pessoas de diferentes idiomas participem da mesma conversa em igualdade de condições é também uma forma de ampliar negócios e oportunidades.

NOSSO MEIO | O I.T.I foi construído em Fortaleza, longe do eixo tradicional onde costumam se concentrar as empresas de idiomas no país. Ao mesmo tempo, o seu produto é, por natureza, global, já que conecta línguas e culturas de continentes diferentes. Como é erguer uma startup de linguagem a partir do Nordeste, e de que forma essa origem regional se transforma em ponte para aproximar o mercado local de oportunidades internacionais?

Rodrigo Bonet: Construir o I.T.I a partir de Fortaleza é motivo de muito orgulho. Existe uma visão, muitas vezes equivocada, de que para construir uma empresa com atuação internacional é necessário estar fisicamente nos grandes centros tradicionais. A tecnologia mostrou que isso não é mais verdade.

O I.T.I nasceu no Nordeste, mas nunca teve uma atuação limitada geograficamente. Desde o início, nosso trabalho foi justamente conectar pessoas que estão em lugares diferentes. E isso também reflete um pouco a própria essência da empresa: estar em Fortaleza não nos distancia do mundo; pelo contrário, nos coloca diante da possibilidade de criar pontes entre o mercado local e o internacional.

O Nordeste tem empresas, profissionais, eventos e iniciativas com enorme potencial de internacionalização. Muitas vezes, o que falta não é competência ou oportunidade, mas acesso. Quando conseguimos eliminar uma barreira linguística, estamos ajudando a criar esse acesso.

Para mim, essa é uma das partes mais interessantes do I.T.I: uma empresa que nasceu em Fortaleza pode estar, no mesmo dia, viabilizando uma conversa entre alguém daqui e uma pessoa do outro lado do mundo. Essa é a força que a tecnologia e a linguagem têm quando trabalham juntas.

NOSSO MEIO | Ferramentas de tradução automática e inteligência artificial avançam rápido e já resolvem uma parte do trabalho em segundos. Nesse cenário, o que continua sendo insubstituível na presença de um intérprete humano, aquela camada de sensibilidade, contexto e escuta que a máquina ainda não alcança? E para onde você imagina que o I.T.I, e o próprio mercado de tradução, caminham nos próximos anos?

Rodrigo Bonet: Eu não vejo a inteligência artificial como uma ameaça à nossa atividade. Vejo como uma ferramenta que vai transformar profundamente a forma como trabalhamos.

A tecnologia já é muito eficiente para determinadas tarefas, principalmente quando existe um contexto previsível e estruturado. Mas a comunicação humana é muito mais complexa. Em uma conversa real, podem surgir ambiguidades, mudanças de assunto, referências culturais, ironias, emoções, situações inesperadas e decisões que precisam ser tomadas em frações de segundo. O intérprete humano consegue interpretar tudo isso dentro de um contexto.

Além disso, existe uma dimensão de responsabilidade. Em uma reunião estratégica, uma negociação, um evento institucional ou uma conversa entre culturas diferentes, não basta produzir uma frase linguisticamente correta. É preciso entender o impacto daquela frase e garantir que a intenção seja preservada.

Acredito que o futuro não será de humanos contra máquinas, mas de humanos utilizando máquinas para fazer um trabalho ainda melhor. O I.T.I caminha nessa direção: combinar a experiência e a sensibilidade humana com tecnologia para tornar a comunicação internacional cada vez mais acessível, eficiente e natural.

E acredito que o mercado vai crescer justamente porque o mundo está cada vez mais conectado. Quanto mais empresas brasileiras se internacionalizam e quanto mais empresas estrangeiras olham para o Brasil, maior será a necessidade de pessoas capazes de construir pontes entre esses mundos. No fim, a tecnologia pode até mudar a forma como traduzimos, mas a necessidade de compreender, e ser compreendido, continua sendo essencialmente humana.