Reaprender a escrever sem Inteligência Artificial talvez seja um dos curiosos desafios contemporâneos. Nesta croniqueta, ensaio justamente esse regresso: abandonar por alguns instantes a IA, voltar a telefonar para o velho Plantão Gramatical e recordar que um texto persuasivo não nasce de um prompt, mas do desenho de um parágrafo. Explico.
Há alguns dias, ouvi o Dr. Thames ensinar algo que, em princípio, nada tinha que ver com e-mails. A matéria era public speaking, onde, com prazer, sou professor assistente. Falava de discursos, parágrafos, topic sentences e, sobretudo, daquela difícil arte de conduzir uma plateia de uma ideia à seguinte sem lhe despertar, a cada vinte segundos, a vontade de levantar a mão e perguntar: “Mas, afinal, o que você quis dizer?”.
Enquanto o ouvia, ocorreu-me que Thames não estava apenas ensinando nossos alunos a falar em público. Estava, sem o saber, oferecendo uma pequena lição sobre como voltar a escrever e-mails. Exprimo nesta croniqueta a súmula dos principais achados. Quiçá, e-mails melhores do que aqueles que a Inteligência Artificial insiste em nos oferecer.
A primeira lição de Thames parece quase ofensivamente simples: você não pode dizer uma coisa apenas uma vez. Uma ideia precisa ser anunciada, reforçada, explicada e, quando necessário, retomada. Não por redundância, sem embargo, porque comunicar não significa despejar informação. Significa fazer com que alguma coisa atravesse a distância entre duas consciências e chegue reconhecível ao outro lado.
Um e-mail matador começa, portanto, antes da primeira palavra. Começa com uma pergunta: o que quero que esta pessoa compreenda?
Se não consigo responder em uma sentença, provavelmente ainda não tenho um e-mail. Tenho pensamentos procurando hospedagem.
Thames usa uma velha analogia do elevador. Se alguém entrasse conosco e perguntasse, antes do próximo andar, sobre o que será nosso discurso, deveríamos ser capazes de responder apenas com suas sentenças principais. Eis um excelente teste para a caixa de saída: se eu não puder resumir meu e-mail antes de o elevador chegar ao terceiro andar, talvez esteja obrigando o destinatário a subir até o décimo segundo.
Insisto que a verdadeira dificuldade não reside em produzir boas frases. Reside em descobrir a relação lógica entre elas. A lógica que precisa ser desenhada em cada sentença. Um ponto deve conduzir ao seguinte sem que alguém precise perguntar por quê.
Como escrever um e-mail matador sem Inteligência Artificial
Escreva a próxima frase antes que o leitor precise perguntá-la Numa conversa, podemos ser interrompidos. Se salto de A para C, meu interlocutor pode franzir a testa e perguntar onde foi parar B. Num discurso, essa correção já chega tarde. Por isso, ensina Thames, quem fala precisa antecipar a conversa: imaginar a pergunta que surgiria na mente do outro e fazer da resposta o movimento seguinte.
Um bom e-mail funciona exatamente assim.
Preciso falar com você.
Sobre quê?
Sobre o projeto que discutimos na sexta-feira.
O que aconteceu?
Concluí a primeira etapa e preciso de sua decisão sobre dois pontos.
Quais?
Prazo e orçamento.
Quando você precisa da resposta?
Até quarta-feira.
Pronto.
O leitor nunca precisou nos perseguir.
Talvez seja essa a diferença entre um e-mail que informa e um e-mail que age. O primeiro deposita dados na caixa postal. O segundo antecipa a consciência de quem os receberá. Reclamo que aqui a Inteligência Artificial pode até atrapalhar.
Peça a uma máquina para “make this email more professional” e, não raro, uma frase que dizia Can we meet Tuesday? reaparece fantasiada de burocrata:
I hope this message finds you well. I am reaching out to inquire about the possibility of scheduling a meeting at your earliest convenience…
A frase cresceu. A comunicação encolheu. Jamais faça isso!
O problema não é propriamente a IA. É nossa tentação de terceirizar a ela aquilo que Thames considera o trabalho intelectual mais importante: decidir o que dizer, em que ordem dizer e qual pergunta o outro fará em seguida.
Nenhum adjetivo “profissional” conserta uma ideia mal ordenada. Por isso, antes de apertar Send, comecei a imaginar um pequeno teste Thames.
- Primeiro: qual é a única sentença que justifica este e-mail?
- Depois: de que informação o destinatário necessita para compreendê-la?
- Em seguida: qual pergunta ele provavelmente faria se estivéssemos conversando?
- Por fim: o que desejo que ele faça depois de ler?
Se essas quatro respostas estiverem claras, o e-mail estará praticamente escrito.
Há ainda uma última lição de Thames de que gosto particularmente. Em nossas aulas, a audiência não está presente apenas para fornecer o número regulamentar de corpos diante de quem fala. Esta integra o aprendizado. Quando uma audiência se perde, esse extravio constitui informação: talvez o discurso estivesse mal organizado. Escutar o outro é também descobrir onde nossa própria comunicação fracassou.
Talvez devêssemos julgar nossos e-mails da mesma maneira.
Se alguém responde What do you need from me?, talvez o problema não seja a desatenção do destinatário.
Se responde When do you need this?, esquecemos o prazo.
Se responde Which document?, faltou contexto.
Se não responde coisa alguma, bem, aí começa outra croniqueta.
Desenhar um e-mail matador remete a reconstruir o que desaprendemos ante a IA e o que nos falta explorar no velho e bom dicionário Houaiss, ou seja, revivermos a experiência de aprendizagem com a língua.
