Da revolução dos videoclipes à construção de um império de marca, o Rei do Pop segue moldando a música, o audiovisual e o espetáculo na indústria global
Além da vitória de Ana Paula Renault na 26ª edição do Big Brother Brasil, a penúltima semana de abril foi marcada pela estreia de “Michael”, cinebiografia estrelada por Jaafar Jackson que revisita os primeiros anos da carreira de Michael Jackson e sua ascensão meteórica a partir do fim dos anos 1970.
Apesar da recepção majoritariamente desfavorável da crítica, o filme deve se consolidar como a maior estreia de uma cinebiografia da história. Projeções da Variety indicam uma arrecadação entre US$140 milhões e US$150 milhões no fim de semana de estreia, superando o desempenho de “Bohemian Rhapsody”, que somou cerca de US$122 milhões em seu lançamento.
Mais do que os números, no entanto, o movimento revela algo maior: décadas após o auge de sua carreira, Michael Jackson segue como um ativo central da cultura pop. Em uma era anterior ao streaming, o artista não apenas alcançou escala global, como também antecipou modelos que hoje estruturam a indústria musical contemporânea.
Anos 80: O nascimento de um ídolo
1979. O mundo passava por grandes transformações políticas, sociais e culturais, e a indústria musical acompanhava esse movimento. Os brilhos da discoteca começavam a perder força, abrindo espaço para bandas de rock e para artistas pop com sonoridades mais diversificadas e ritmos efervescentes. Era um momento de transição, em que novos caminhos começavam a ser desenhados.
Enquanto isso, Michael Jackson, já uma figura conhecida da black music, buscava reinventar sua própria trajetória. Com o aval dos executivos da Epic Records e sob a produção musical de Quincy Jones, ele lança, em 10 de agosto, seu quinto álbum de estúdio: “Off the Wall”.
O projeto mistura disco, funk, R&B, soft rock e baladas com influência da Broadway, apresentando também uma lírica que se afasta dos padrões juvenis associados ao Jackson 5. O resultado é um reposicionamento da figura de Michael Jackson, que deixa de ser apenas um nome relevante dentro da black music e passa a se afirmar como um artista pop de alcance mais amplo.
Em uma sociedade ainda profundamente marcada pela segregação e pela marginalização de figuras negras, a ascensão de Michael Jackson ao mainstream representa também uma ruptura simbólica. Sua música atravessa barreiras raciais e passa a dialogar com diferentes públicos, ampliando seu alcance de forma consistente. E esse impacto também se reflete nos números. Com cerca de 20 milhões de cópias vendidas mundialmente e certificação 9x Platina pela Recording Industry Association of America (RIAA), “Off the Wall” consolida uma nova fase de sua carreira, como também antecipa o tipo de escala que se tornaria marca registrada de sua próxima e mais bem sucedida era: “Thriller”.
O segundo trabalho de Michael Jackson em parceria com Quincy Jones chegou às lojas em 30 de novembro de 1982. Em comparação com seu antecessor, o artista manteve a mistura de gêneros e ritmos que já marcava sua sonoridade, mas avançou ao incorporar uma abordagem lírica mais voltada para temas psicológicos e sociais.
Com singles assertivos e uma estratégia de distribuição massiva, Thriller rapidamente se consolidou como um fenômeno global. O resultado foi um desempenho sem precedentes: mais de 105 milhões de cópias vendidas, tornando-se o álbum mais bem-sucedido da história da indústria musical, como também um dos mais premiados, garantindo oito Grammy Awards, incluindo o de Álbum do Ano, em 1984.
A era “Thriller” também marca um refinamento decisivo da marca pessoal de Michael Jackson. Apostando em figurinos icônicos, coreografias que mesclavam referências clássicas e contemporâneas e uma construção mais controlada de sua imagem pública, o artista redefine o que significa ser um artista pop, não apenas pela música, mas pela forma como se apresenta ao mundo.
“O Michael era um artista com visão de indústria muito à frente do seu tempo. Ele sabia que precisava se desvencilhar da imagem dos Jackson se quisesse ser ‘o maior de todos os tempos’. Com a escolha de elementos como a luva prateada e o chapéu fedora, ele passa a ser reconhecido até pelo contorno. Apesar de não ter criado o moonwalk, ele se apropria do movimento em sua apresentação na Motown e carimba sua presença no imaginário coletivo. Além disso, detalhes como os dedos marcados com esparadrapo branco, que destacavam os movimentos das mãos, e a inclinação de Smooth Criminal, que intrigava o público, reforçam essa construção simbólica”, aponta a profissional de marketing e fã, Monalisa Araújo.
Outra característica marcante da trajetória de Michael Jackson na década de 1980 foram os videoclipes. Em um momento em que o formato ainda era tratado majoritariamente como peça promocional, o artista compreendeu que a música pop também demandava um forte apelo visual como parte do espetáculo.
Diferente dos clipes usuais da época, mais centrados em performance, Michael apostou em narrativas cinematográficas, transformando lançamentos em verdadeiros eventos audiovisuais. Produções como “Billie Jean” e “Thriller’ exemplificam essa virada, ao combinar storytelling, direção de arte elaborada e coreografias marcantes. Esse movimento também representou um avanço estrutural na indústria, com a exibição dos videoclipes na MTV, até então majoritariamente voltada a ser vitrine de artistas brancos e com grande recusa a dar espaço a nomes da black music em sua programação.
Com a chegada da era “Bad”, a linguagem visual se torna ainda mais sofisticada e ambiciosa. Projetos como o filme experimental “Moonwalker” e “Captain EO” extrapolaram os limites do formato clássico dos videoclipes e consolidaram uma proposta em que música, imagem e narrativa operam de forma integrada.
“O Michael sempre usou tecnologias de ponta na produção dos clipes, integrada à dança e aos efeitos especiais, e não há dúvidas que o clipe de Thriller marcou um antes e um depois na indústria. O Rei do Pop também contava com os melhores diretores do cinema, que contribuíram significativamente com a linguagem visual que ele queria apresentar. A exemplo disso, temos o John Landis em ‘Thriller’ e posteriormente em ‘Black or White’, já na era ‘Dangerous’, que contou também o David Fincher em “Who Is It”. Já na era HIStory, tem o Spike Lee que fez “They Don’t Care About Us”, aponta Fernando Fernandez, diretor executivo da Terravista 360.
Anos 90: O reposicionamento de um ícone
Apesar de ter sido um sucesso comercial com mais de 50 milhões de cópias vendidas, Bad também marcou um momento de tensão na carreira de Michael Jackson. A ausência de reconhecimento nas principais categorias do Grammy Awards de 1988 evidenciou um distanciamento entre o sucesso de público e a validação da crítica especializada. O sentimento de frustração, somado ao desejo constante de renovação, impulsiona mais um movimento de reinvenção de Michael Jackson em 1991, com o lançamento de “Dangerous”.
No novo projeto, a parceria com Quincy Jones dá lugar a uma nova direção criativa, com Teddy Riley assumindo a produção ao lado de Michael Jackson. A mudança se refletiu diretamente na sonoridade com elementos do new jack swing, batidas mais marcadas e uma abordagem mais urbana. Ao mesmo tempo, as letras ganharam densidade temática, incorporando críticas à indústria, ao racismo, à perseguição midiática e às desigualdades sociais.
Mais do que uma mudança estética, Dangerous representa um reposicionamento estratégico em que som, discurso e imagem passaram a dialogar de forma ainda mais direta com as tensões políticas e sociais da época.
“O segredo do Michael era saber exatamente equilibrar o ‘núcleo’ da marca dele, que era a excelência técnica, a voz característica e o ritmo, com as novas tecnologias de som e as mudanças temáticas das letras. Ele entendia que inovar retém a atenção das pessoas, mas a familiaridade é o que mantinha a lealdade dos fãs. Então, ao mesmo tempo em que ele criava coreografias mais complexas, ele mantinha as bases que o público amava, como o moonwalk e a pose na ponta dos pés. Isso criava um porto seguro pros fãs e uma porta de entrada para novos admiradores, sem que a conexão se perdesse”, pontua Monalisa.
Entre os elementos que permanecem na década de 1990, os videoclipes grandiosos seguem como um dos pilares da trajetória de Michael Jackson. Com orçamentos mais elevados e um design de produção cada vez mais ambicioso, o artista evolui o padrão narrativo e técnico do formato, incorporando novos efeitos especiais, construções cênicas mais complexas e roteiros que passam a contar com a participação de grandes nomes da época, como Eddie Murphy e Macaulay Culkin.
Nos palcos, essa lógica de expansão também se intensifica. Os shows ao vivo ganham proporções ainda maiores, com estruturas cenográficas robustas, uso avançado de tecnologia visual, ilusionismo e pirotecnia, consolidando a apresentação musical como um espetáculo de grande escala.
“Michael também foi inovador nos shows ao vivo. Na HIStory World Tour, por exemplo, ele integrou dança e tecnologia com o uso de plataformas interativas e projeções, criando um impacto visual e sonoro inédito para a época. Mas a grande virada acontece na Dangerous World Tour, que, na minha visão, tem para os shows o mesmo peso que Thriller teve para os videoclipes: ali, as turnês passam a ser pensadas como experiências verdadeiramente cinematográficas”, aponta Fernando Fernandez.
Entre os destaques tecnológicos, o diretor executivo da Terravista 360 destaca:
• Ilusionismo em escala de espetáculo: no encerramento do show, Michael Jackson simulava um voo sobre a plateia com o número “Rocket Man”. O efeito envolvia uma troca precisa com um dublê por meio de alçapões no palco, evidenciando o uso de técnicas cênicas de alta complexidade.
• Entrada com efeito de impacto (“Toaster”): a abertura utilizava um mecanismo de catapulta que projetava o artista ao palco em alta velocidade, sincronizado com pirotecnia, criando um início pensado como momento de choque visual.
• Coreografia com engenharia aplicada: a inclinação de 45 graus (“lean”) — que desafiava a gravidade — era viabilizada por um sistema patenteado de sapatos que se encaixavam em pinos metálicos no palco, integrando tecnologia à performance.
• Figurino como extensão tecnológica: desenvolvidos por Michael Bush e Dennis Tompkins, os trajes incorporaram fibra óptica, lasers e efeitos estroboscópicos que chegavam a 3.000 volts, ampliando o impacto visual durante as coreografias.
• Escala logística inédita: a turnê mobilizou cerca de 1.000 toneladas de equipamentos, incluindo aproximadamente 1.000 refletores, 168 alto-falantes e 9 telões de grande porte — um nível de produção incomum para a época.
• Interação em tempo real: durante “Heal the World”, imagens da plateia eram captadas ao vivo e exibidas nos telões, criando uma experiência de conexão direta entre artista e público.
Michael Jackson também ampliou sua atuação no campo empresarial ao longo da década de 1990. Em 1993, formaliza a MJJ Productions, consolidando uma estrutura voltada ao desenvolvimento de projetos próprios, ao fortalecimento de seu controle criativo e também ao apoio a novos talentos dentro de sua órbita criativa.
Esse movimento tem origem ainda em 1985, quando adquiriu a ATV Music Publishing por cerca de US$47,5 milhões e passou a deter o valioso catálogo dos Beatles. Dez anos depois, em 1995, Michael funde a operação com a Sony, dando origem à Sony/ATV Music Publishing, avaliada em aproximadamente US$1 bilhão na época, com Michael detendo 50% da operação.

Ao longo dos anos, a joint venture passou a gerar receitas recorrentes na casa das centenas de milhões de dólares anuais em royalties e licenciamento, consolidando o catálogo como uma das engrenagens financeiras mais relevantes da indústria musical. Em 2016, já após sua morte, a venda de sua participação para a Sony foi concluída por cerca de US$750 milhões, evidenciando a valorização contínua do ativo.
Hoje: o legado de uma estrela
É quase paradoxal pensar que Michael Jackson se foi há mais de uma década e, ainda assim, segue presente de forma tão ativa na cultura pop. Mais do que uma referência histórica, sua influência se manifesta de maneira concreta na produção contemporânea, seja na sonoridade, na performance ou na construção de espetáculo.
Em “Bed Chem”, de Sabrina Carpenter, por exemplo, a base de sintetizadores remete diretamente à atmosfera de “Human Nature”. Já artistas como Taylor Swift e Beyoncé operam em uma lógica de espetáculo que combina escala, narrativa e construção de eras, transformando turnês em eventos culturais de grande impacto. No campo musical, nomes como Bruno Mars e The Weeknd incorporam elementos claros da estética oitentista de Michael, tanto na escolha de timbres quanto nas estruturas rítmicas.
Em terras coreanas, a presença de Michael Jackson não é apenas referência, como base de sua indústria musical. Artistas e grupos de K-Pop, como BTS, Blackpink, Stray Kids, TWICE e Seventeen ecoam a mistura de ritmos contemporâneos, as coreografias meticulosamente ensaiadas, os figurinos marcantes e as estruturas de palco pensadas para impressionar.
No Brasil, esse legado ganha contornos próprios. A obra de Michael Jackson atravessa gêneros e gerações, aparecendo tanto na dedicação de intérpretes como Rodrigo Teaser quanto em releituras que dialogam diretamente com a música popular. A canção “Bom Demais”, da banda Calcinha Preta, reinterpreta “Human Nature” para o português; já “Raparigas”, do cantor Filho do Piseiro, incorpora elementos de “They Don’t Care About Us” em uma nova estética.
“Eu acredito que o legado real é o modelo estrutural que ele criou. Michael foi o primeiro a entender que um artista precisa ser uma marca 360°. Ele não via o videoclipe como um “vídeo da música”, ele via como um investimento de marketing pesado. Ele mostrou que você tem que ser o dono da sua narrativa, cuidando de cada detalhe, do licenciamento de produtos à experiência que o fã tem no show. O Michael tinha a humildade e a visão de saber com quem se aliar para cada objetivo. Diferente de muitos artistas que lançam um álbum com 2 ou 3 músicas boas, Michael tinha a mentalidade de que toda faixa deveria ser um potencial número 1”, ressalta Monalisa. “Ele sabia que, para ser o “Rei”, o som dele não podia apenas ser bom; ele precisava ser tecnicamente superior a tudo o que estava tocando nas rádios. Seu estúdio virou um laboratório de pesquisa e desenvolvimento, garantindo que o produto final fosse atemporal. É por isso que Thriller ou Dangerous ainda soam atuais mesmo 40 anos depois”.
Na era contemporânea, a obra de Michael Jackson não só permanece, como evolui. Seja em Seul ou no Nordeste brasileiro, ela é apropriada, reinterpretada, adaptada e, principalmente, sentida. Uma prova concreta de que a coroa do Rei do Pop nunca será retirada de sua cabeça. Afinal, como o próprio título dessa análise afirma: quem foi rei, nunca perde sua majestade.


