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A Copa mudou: como o futebol passou a ser vivido na era das redes sociais?

Por Redação

19/05/2026 16h55

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Com transmissões no YouTube, múltiplas telas, campanhas milionárias e consumo impulsionado pelas redes sociais, a Copa de 2026 transforma a forma como o brasileiro vive o futebol

O futebol sempre encontrou um jeito de atravessar gerações. No Brasil, ele mora nos churrascos de domingo, nos gritos vindos da sala, nos bares lotados em dia de jogo e até no silêncio nervoso antes de um pênalti decisivo. A Copa do Mundo, principalmente, transforma o país em um organismo coletivo que sente junto, sofre junto e comemora junto. É um evento que ultrapassa o esporte e invade a cultura, o consumo, a publicidade e, agora mais do que nunca, as redes sociais.

Em 2026, essa paixão ganhou novas formas de existir. A Copa deste ano chega marcada por uma atmosfera extremamente digital, em que assistir aos jogos já não significa apenas sentar na frente da televisão. O torcedor acompanha a partida enquanto comenta no X, reage em lives, envia memes no WhatsApp e alterna entre diferentes telas ao mesmo tempo.

Com estimativa de movimentar cerca de US$ 10,5 bilhões em investimentos publicitários globais, segundo a WARC Media, o torneio se consolida como um dos maiores ativos de comunicação do mundo em um cenário marcado pela fragmentação de audiência e pela digitalização do entretenimento.

A própria estética da Copa acompanha essa transformação. A seleção da França, por exemplo, chamou atenção ao divulgar seus convocados em formato cinematográfico nas redes sociais, apostando em um filme com direção sofisticada e linguagem pensada para engajamento digital. O anúncio deixou de ser apenas informativo e passou a funcionar como um verdadeiro produto de entretenimento pensado para circular na internet.

No Brasil, essa mudança de comportamento já aparece de forma clara. De acordo com o estudo “O Brasileiro e a Copa”, realizado pela Data-Makers, 54% dos fãs utilizam múltiplas telas durante os jogos, tornando a experiência simultânea e distribuída.

É nesse ambiente que cresce a famosa “futtt”, comunidade criada principalmente no X, antigo Twitter, onde o futebol virou linguagem própria da internet. Mais do que comentar jogos, a comunidade transformou o esporte em entretenimento coletivo. E foi justamente nesse cenário digital, marcado por conversas em tempo real, que novos formatos de transmissão começaram a ganhar força e mudar a maneira como o brasileiro consome futebol.

A CazéTV e a mudança na forma de assistir futebol

Entre os maiores símbolos dessa transformação está a CazéTV, considerada hoje por muitos como a “Globo do YouTube”, o projeto ganhou força durante a Copa de 2022, quando Casimiro Miguel começou a transmitir partidas gratuitas pelo Youtube.

Pertencente à LiveMode, a CazéTV iniciou as transmissões gratuitas no primeiro jogo do Brasil na Copa de 2022. Mas o que chamou atenção não foi apenas o fato de os jogos estarem no YouTube. A plataforma trouxe para as transmissões a mesma linguagem que já dominava as redes sociais: comentários espontâneos, memes, interação com o chat e um clima muito mais próximo da conversa entre amigos do que do formato tradicional da televisão. A estreia registrou cerca de 6,9 milhões de espectadores e mostrou que existia um público interessado em consumir futebol de uma forma mais participativa e conectada à cultura da internet.

Esse movimento também acompanha uma transformação maior no comportamento da audiência. Segundo dados da Kantar, apesar da TV aberta ainda liderar o consumo esportivo, com 85% dos brasileiros acompanhando jogos por esse meio, o público hoje já divide sua atenção entre TV por assinatura (39%), streaming (31%) e redes sociais (23%). Na prática, isso significa que assistir futebol deixou de ser uma experiência centralizada em uma única tela.

A CazéTV entendeu justamente esse novo hábito do torcedor digital. Enquanto a televisão tradicional ainda opera em um modelo mais linear, a plataforma se fortaleceu ao transformar a transmissão em um espaço de comunidade e compartilhamento em tempo real. O público não entra apenas para assistir ao jogo, mas para participar dele coletivamente junto da internet.

Quatro anos depois, o que parecia um experimento virou uma das maiores operações de mídia esportiva do país. A CazéTV será a única plataforma a transmitir gratuitamente os 104 jogos da Copa de 2026 e já negociou 11 cotas de patrocínio, com receita estimada em R$ 2 bilhões.

A mudança também alterou a relação emocional do público com a Copa. A transmissão ao vivo da convocação da Seleção Brasileira ultrapassou 3 milhões de espectadores simultâneos antes mesmo do início do Mundial, mostrando como a experiência da competição passou a começar muito antes da bola rolar. Hoje, o torcedor acompanha anúncios, bastidores, reacts e repercussões como parte essencial do evento.

Copa 2026, consumo e o fenômeno “Brazil Core”

A transformação na maneira de assistir futebol também impactou diretamente o consumo. Em 2026, a Copa aparece fortemente ligada ao crescimento do chamado “Brazil Core”, estética que resgata símbolos brasileiros, camisetas da Seleção, cores nacionais e referências populares como comportamento e identidade digital. Segundo a plataforma cultural Winnin, o termo gerou cerca de 40 milhões de interações nas redes sociais apenas no último ano.

O impacto também chega ao varejo. De acordo com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 60% dos brasileiros planejam gastar com produtos ou serviços relacionados à Copa de 2026. O estudo define o Mundial como “um segundo Natal” para o comércio, impulsionando vendas tanto em lojas físicas quanto no ambiente digital.

A publicidade acompanha esse movimento de forma cada vez mais intensa. Em 2026, a Copa do Mundo não movimenta apenas transmissões e audiência, mas também influência digital, comportamento e desejo de consumo. Os jogadores deixaram de ocupar somente o papel de atletas e passaram a funcionar também como grandes plataformas de mídia.

Um dos maiores exemplos disso é Neymar. Pouco depois de ser convocado para o mundial, o jogador lançou três campanhas publicitárias em suas redes sociais e faturou mais de R$ 30 milhões em ações ligadas à Copa. Mais do que utilizar sua imagem como atleta, as marcas passaram a explorar Neymar como símbolo cultural e digital, conectando o futebol e a influência online em uma mesma narrativa.

Esse movimento mostra como a Copa de 2026 também virou um grande palco de construção estética e emocional para as marcas. As marcas passaram a entender a Copa como um território de construção cultural, as campanhas deixaram de falar apenas sobre futebol e passaram a explorar memória afetiva e identidade brasileira. O resultado é uma publicidade que tenta acompanhar a mesma lógica da nova Copa: emocional, digital e profundamente conectada à forma como o torcedor brasileiro vive o futebol hoje.

Campanhas que marcaram a Copa de 2026

Brahma | “Tá Liberado Acreditar”

A campanha da Brahma aposta justamente na relação emocional e desconfiada do brasileiro com a Seleção. A peça recria jogadas históricas das Copas do Mundo usando pessoas comuns em cenários urbanos, reforçando a ideia de que, mesmo depois de frustrações recentes, o torcedor brasileiro nunca deixa completamente de acreditar.

Mercado Livre + Neymar

Logo após a convocação oficial da Seleção, o Mercado Livre lançou uma campanha estrelada por Neymar. Criada pela GUT, a ação conecta a promessa de entrega do atleta dentro de campo com a proposta da plataforma de entregar produtos aos torcedores em qualquer lugar do país, aproximando performance esportiva e consumo digital.

Vivo + Vini Jr.

No filme “Contrato”, a Vivo continua explorando o conceito “Brasileiro Roxo”. A campanha, criada pela Africa Creative, mostra Vinícius Júnior em um encontro simbólico com um fã mirim que sonha em levá-lo para jogar no time da rua. A narrativa aposta em emoção, infância e esperança como símbolos da paixão brasileira pelo futebol.

Sadia | “Estrelas”

Sadia lançou um filme que percorre momentos emblemáticos da história da Seleção Brasileira, desde o primeiro título mundial em 1958 até cenas recentes de torcida e celebração coletiva. A campanha reforça como o futebol atravessa gerações e se mistura à memória afetiva dos brasileiros.

Uber + Ronaldinho Gaúcho

Estreando como patrocinadora da CBF, a Uber lançou a campanha “Chega Junto”, estrelada por Ronaldinho Gaúcho. Criada pela Wieden+Kennedy SP, a ação brinca com o clima das convocações oficiais da Seleção ao apresentar uma “escalação paralela” formada por figuras inusitadas do cotidiano do ex-jogador.