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A coragem e a humildade de Socorro Simões

Por Lucas Abreu

08/03/2026 10h00

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Tenho 25 anos — um quarto de século. Sou jovem sob a lupa da vida. Mas, se pegarmos esse mesmo número e o transformarmos em tempo de carreira, as coisas mudam um pouco de perspectiva. “E por que isso importa?”, você pode perguntar. Porque conheci uma mulher que tem de carreira o mesmo tempo que eu tenho de vida.

O post no LinkedIn

Era a penúltima sexta-feira de janeiro. No grupo da redação, alguém da diretoria mandou um link para uma postagem de Renato Camargo, atual CMO do Bradesco, no LinkedIn. Nem vi quem enviou. Só cliquei. Na tela do meu computador apareceu a foto de uma mulher que eu supus ter uns 40 anos: loira, de óculos e com um sorriso que transmitia leveza — e a segurança de quem sabe muito bem o lugar que ocupa.

No texto publicado por Renato, descobri o nome dela: Socorro Simões. Logo na primeira linha, uma informação clara, quase como um título: “De operadora de caixa à primeira mulher diretora de operações da Pague Menos”.

Como uma corrente elétrica que acende uma lâmpada, a informação fez surgir um pensamento imediato: “isso dá uma crônica!”.

Matutei a ideia durante o fim de semana e, na segunda-feira, mandei uma mensagem para Edinaele Sousa, assessora de imprensa da Pague Menos, solicitando uma entrevista com Socorro. Ela disse que checaria a disponibilidade da executiva e me daria uma resposta em alguns dias. Na quarta-feira de manhã, veio a devolutiva — em forma de pergunta:

“Podemos no dia 5 de fevereiro, às 10h?”

“Podemos, sim. Vou deixar marcado”, respondi.

Um pequeno contratempo

Costumo dizer aos assessores de imprensa que a dinâmica da redação é volátil. Num momento, o dia está inteiro planejado numa planilha. No outro, surge uma pauta quente às 17h30 que precisa ser resolvida antes de você encerrar o expediente — e que ainda te faz chegar atrasado ao crossfit.

Imagino que a sensação seja parecida para alguém que está se mudando de Fortaleza para Salvador, ao lado do marido e de um filho já jovem-adulto, para assumir uma diretoria de operações. Alguém que precisa liderar um time de doze pessoas e garantir o funcionamento sustentável de 242 farmácias espalhadas por três estados do Nordeste.

Não à toa, na manhã do dia da entrevista, Edinaele me repassou uma mensagem da própria Socorro pedindo para remarcar nossa conversa para o dia seguinte. Só mais um pequeno contratempo num dia de home office. Mas suficiente para me dar uma ideia: publicar a crônica no Dia da Mulher.

O começo da trajetória e o apoio familiar

Entrei na sala de reuniões online às 16h55 — cinco minutos antes do horário da entrevista. Nesse meio tempo, revisei o questionário que havia preparado para Socorro e abri meu bloco de notas numa página em branco para registrar qualquer detalhe que pudesse render uma nova pergunta.

Edinaele entrou pouco depois, me cumprimentou e disse que acompanharia a conversa. Em seguida, Socorro apareceu na tela com um sorriso no rosto — o mesmo que estava no post de Renato Camargo.

“Olá. Boa tarde, meninos, tudo bem?”, disse.

“Oi, Socorro. Seja muito bem-vinda”, respondi.

Edinaele me apresentou à Socorro e eu expliquei os objetivos da pauta:

“Quero contar um pouco da sua história — não só a profissional. Quero conhecer a Socorro além do cargo de diretora de operações: a filha, a mãe, a esposa, a amiga. Quero entender como você saiu de operadora de caixa para se tornar a primeira mulher a ocupar a diretoria de operações da segunda maior rede de farmácias do Brasil. Você topa dividir essa história comigo?”

Socorro respirou fundo e olhou para cima, como quem encarava um passado distante.

“Tem muita história”, começou. “Meu nome é Socorro Simões. Tenho 43 anos, sou casada e tenho um filho, o Vinícius, de 18 anos, cujo lema é ‘viver é diferente de estar vivo’, e isso às vezes me faz sofrer um pouco”, disse, rindo.

“Eu venho de uma família muito humilde”, ela continuou. “Minha mãe trabalhou como costureira por muito tempo e nunca me deixou faltar nada. Tenho também uma tia que morava no mesmo prédio que a gente e que, para mim, é uma segunda mãe. Sempre vi nas duas mulheres fortes que lutavam para ter dignidade e uma velhice tranquila.”

“E como você foi parar na Pague Menos?”, perguntei.

“Quando eu completei 18 anos, resolvi que queria trabalhar de qualquer jeito. Eu não queria ficar em casa ou então estudar para passar numa faculdade, apesar de que, naquela época, eu sonhava em cursar Odontologia. Uma prima minha, naquela época, trabalhava numa loja da Pague Menos. Eu entreguei a ela meu currículo e, pouco tempo depois, me chamaram para trabalhar lá como operadora de caixa de serviços. Eu era responsável pelo pagamento das contas de água, luz e telefone, que precisava ser feito no dia 1º e no dia 15. Um ano depois, fui chamada para trabalhar na matriz, onde atuava diretamente com pessoas que hoje compõem o conselho da Pague Menos. Eu trabalhava bastante na área de vendas, mas me identifiquei mesmo foi com o marketing.”

“Foi por causa disso que você resolveu fazer faculdade na área?”

“Dos 25 anos que eu tenho de Pague Menos, 15 foram na área de marketing. Então, eu me especializei na área, fazendo faculdade de Publicidade e Propaganda. Mas, antes disso, logo no início da minha trajetória na Pague Menos, eu tinha o entendimento de que precisava estudar se quisesse evoluir profissionalmente. Demorei um pouco para iniciar o curso superior e, nesse intervalo, fui mãe, aos 25 anos. Só me senti pronta quando meu filho já tinha um ano. A partir daí, tive que me desenrolar entre ser uma mulher que trabalha, que é mãe, que é esposa e que é estudante.”

Uma coisa é certa: trabalhar cansa. Estudar, também. E, para quem é mãe de uma criança pequena, esse cansaço não sai totalmente do corpo quando se volta para casa, porque ser mãe também dá trabalho. “Então, como equilibrar as três coisas?”, perguntei a Socorro.

“Eu só consegui realizar tudo porque tinha uma rede de apoio”, Socorro respondeu com uma simplicidade tão poderosa que me arrancou um sorriso. “Eu tenho uma mãe que ficava o dia inteiro com o Vinícius enquanto eu trabalhava e um marido que me pegava na faculdade para me fazer chegar em casa às 10h da noite e ficar trinta minutinhos aproveitando a vida com o meu filho. Foi uma época muito difícil, Lucas, mas que, graças à minha família, eu consegui superar.”

Sabia que, no Brasil, 11 milhões de mulheres criam seus filhos sozinhas e mais de 70% delas não têm rede de apoio próxima? Sabia também que mulheres com filhos pequenos têm participação 24% menor no mercado de trabalho do que mulheres sem filhos? Diante dessas questões, só consigo pensar em como a Socorro teve sorte.

“E como você vê esse apoio da sua família hoje em dia, com o Vinícius já crescido?”, perguntei.

“Como o Vinícius tem 18 anos hoje, eu consigo percorrer distâncias maiores. E ele, assim como meu marido, me apoia muito no que eu faço. Nós estamos indo para Salvador agora, onde vou ocupar o cargo de diretora de operações, e decidimos juntos onde vamos morar. Então vamos permanecer unidos. E isso é uma coisa que o Renato tinha me dito: ‘mantenha sua família perto de você, porque uma hora você vai precisar de alguém para te dar uma base’. Eu fico muito feliz de tê-los ao meu lado”, respondeu Socorro, com outro sorriso de leveza e segurança.

O peso e o privilégio de liderar

“Socorro, você mencionou que, na época em que trabalhava na matriz, tinha contato direto com pessoas que hoje compõem o conselho da Pague Menos. Como a gente aprende no trabalho, algum deles te ensinou algo que você leva para a vida toda?”

“Uma mulher que eu admiro muito, chamada Patriciana Queiroz, um dia me olhou e disse que eu poderia ser tudo o que quisesse. Mas também disse que, se o que eu quisesse não desse certo, estaria tudo bem. Eu nunca esqueci isso, porque o problema não é errar. Pelo contrário: você pode errar, mas precisa aprender a corrigir rapidamente. Ela também me ensinou, Lucas, que precisamos estar presentes em todos os processos de trabalho que executamos. Acho que isso me tornou muito da profissional que sou hoje.”

“Assim como a Patriciana, hoje você é uma mulher em um cargo de liderança. Mas como, de fato, é ser uma?”

“Algumas pessoas já me fizeram essa pergunta, Lucas, e eu sempre respondi que é super tranquilo. Tenho muitos parceiros ao meu lado, pessoas que conheço há uns 20 anos e que me ajudam muito nesse processo de gerenciar o que está ao meu alcance. Então, para mim, não é difícil ser líder. Eu só preciso me lembrar constantemente de ter humildade para me colocar numa posição de aprendizado contínuo, paciência para entender que não vou compreender tudo de uma vez e coragem para seguir em frente e entregar o meu melhor todos os dias.”

“A gente sabe que o machismo é uma realidade da sociedade brasileira e que ele dificulta a vida das mulheres em diversos aspectos, inclusive no profissional. Alguns estudos nacionais e internacionais sustentam que mulheres enfrentam padrões maiores de avaliação do que homens exercendo a mesma função. Você já vivenciou algo parecido ao longo da sua carreira?”

Socorro respirou fundo e me olhou com franqueza pela janela da câmera. Sua resposta foi clara, direta e sincera:

“Eu nunca achei que precisava entregar mais porque era uma mulher. Nunca. Desde a época em que era operadora de caixa, eu me cobro muito e entrego o meu melhor. E os números que eu entregava demonstravam o meu esforço. Eu poderia estar trabalhando com dez homens na mesma função que eu. Mas, se eles não entregam e eu entrego, no fim das contas o que vale sou eu e o meu trabalho. E faço isso cuidando de quem está comigo, porque sei que, se o meu time não estiver engajado, ele não vai entregar o resultado que os meus gestores esperam.”

Uma nota para o meu bloquinho em branco: Socorro Simões é uma mulher de fibra.

“As mulheres em cargos de liderança também se tornam referências para outras mulheres que almejam chegar a posições semelhantes. Você sente que essa é uma responsabilidade que também carrega?”

“Sempre que uma mulher chega a um cargo de liderança, ela abre uma porta para outras mulheres fazerem a mesma coisa. E às vezes nós, mulheres, nos perguntamos se vamos dar conta dessa responsabilidade. Mas quando eu palestro e vejo mulheres sorrindo com uma frase minha, sinto que estou crescendo e cumprindo esse compromisso.”

“E que mensagem você quer deixar para essas mulheres que você inspira?”

“Que elas tenham humildade, mas também muita coragem. Acho que você precisa disso se um dia quiser ser referência. Educação também, porque você precisa ter um repertório muito bom para se comunicar com as pessoas e ter um networking forte. Isso é muito importante para crescer na vida: nunca deixar de buscar conhecimento e referências.”

“Socorro, nessa correria da vida, você encontra tempo para se autocuidar?”

“O tempo é uma questão de prioridade. Então eu preciso não só ter prioridade, mas ser a prioridade para o bem da minha saúde física e mental, da minha família e das minhas amizades. Não abro mão de me exercitar pelo menos três vezes por semana e de fazer uma caminhadazinha para garantir que, quando eu for idosa, tenha massa muscular suficiente para me sustentar. Meus finais de semana são sempre com a minha família. Também tenho um grupo de amigas com quem converso todos os dias e com quem saio pelo menos uma vez por mês para me divertir. São coisas que não são terapia, mas que são terapêuticas.”

“Mas você faz terapia?”

“De quinze em quinze dias, sem faltar a nenhuma sessão. A gente também precisa entender as coisas que aconteceram no passado para administrar tudo melhor no presente.”

Num cantinho da folha quase totalmente preenchida do meu bloco de notas, anotei esse conselho valioso.

Um jogo rápido

Uma curiosidade sobre o jornalista desta pauta: ele é muito fã de talk shows e da Marília Gabriela. Por isso, em toda entrevista deixo sempre um espaço no roteiro para um bate-bola, um jogo rápido. Pode parecer bobo, mas acho divertido descobrir informações triviais sobre uma pessoa e entender melhor a sua personalidade. Com Socorro não foi diferente — e, felizmente, ela também achou a ideia divertida.

“Um livro?”

“A Bíblia.”

“Uma figura bíblica?”

“José.”

“Por quê?”

“Porque ele entendeu o chamado de Maria.”

“Um filme?”

“Titanic.”

“Uma novela?”

“Eu gosto muito da que está sendo reprisada depois do Jornal Hoje…”

“Terra Nostra?”

“Isso!”

“Uma alegria?”

“A festa de formatura do meu filho.”

“Um arrependimento?”

“Não ter feito intercâmbio. Inclusive, se você puder fazer, faça. Vá para a Irlanda, lá é lindo.”

“Acho que já sei a resposta, mas… um país?”

“Irlanda”, respondeu Socorro, com uma gargalhada. “Mas também gosto muito da França”.

“Uma realização pessoal?”

“Ter minha própria casa e ter reformado a casa dos meus pais.”

“E um legado para deixar?”

“O de uma profissional humilde e corajosa, que não abriu mão dos seus sonhos e entregou grandes feitos.”

“Obrigado, Socorro.”

“Eu que te agradeço, Lucas.”

Socorro se despediu de mim. Eu me despedi dela e de Edinaele. Olhei para o relógio do celular: eram 18h em ponto. “Que sorte!”, pensei. Afinal, tive uma boa conversa no fim da tarde — e também não me atrasaria para o crossfit.