Google Zero e o fim da internet do clique

Por Redação

18/09/2026 08h50

Compartilhe
  • Whatsapp
  • Facebook
  • Linkedin

É bem provável que você já tenha feito uma pesquisa no Google hoje. E é bem provável também que tenha encontrado o que queria e fechado a janela sem clicar em nenhum link. Parece algo banal, mas esse comportamento está mexendo com a lógica que sustenta boa parte da internet há mais de duas décadas.

Tanto que isso ganhou até nome: Google Zero. Longe de insinuar que a gigante de Mountain View está perdendo relevância, o termo descreve um cenário em que o Google continua essencial para quem busca informação, mas que precisa cada vez menos enviar usuários para os sites que aparecem nos resultados.

Não é de hoje que o Google dá respostas diretas a pesquisas mais básicas, como o resultado de um jogo ou o endereço de um restaurante. A diferença é que agora essas respostas deixaram de ser simples. Com os resumos de IA, o Google consegue sintetizar informações de diferentes fontes, explicar assuntos, comparar alternativas e até recomendar produtos sem que você precise visitar os sites que forneceram as informações para a resposta. 

Para quem produz conteúdo, isso tem um cheirinho de fim do mundo. Roger Lynch, CEO da Condé Nast, grupo que reúne publicações como Vogue, GQ, Glamour e The New Yorker, orientou suas equipes a planejar o negócio “como se a busca fosse zero”. A Penske Media, dona de Rolling Stone, Billboard e Variety, foi além e entrou com uma ação contra o Google, acusando a empresa de usar seu conteúdo nos resumos de IA sem autorização enquanto reduz o tráfego para seus sites.

Os números ajudam a explicar essa preocupação. O Google segue como o buscador número 1 do mundo e registra volumes recordes de pesquisa. Só o Modo IA já passou de 1 bilhão de usuários mensais. Um estudo do Pew Research Center, que analisou a navegação de usuários nos Estados Unidos, observou que, quando aparece um resumo de IA, apenas 8% clicam em um resultado tradicional, contra 15% quando ele não aparece.

E não são apenas as plataformas de conteúdo que estão preocupadas. Os resumos de IA começam a ocupar etapas cruciais na jornada de decisão dos consumidores, justamente quando marcas, produtos e empresas precisam ser encontrados.

Essa transformação vai além do Google. Ferramentas como ChatGPT e Claude estão se tornando ambientes de descoberta, pesquisa e comparação. Aos poucos, uma parte da jornada que antes acontecia entre buscadores e sites começa a acontecer dentro de uma conversa, sem necessariamente produzir um clique.

Essa nova dinâmica já começa a redesenhar também o mercado publicitário. A OpenAI já exibe anúncios no ChatGPT no Brasil e testa novos formatos capazes de aproximar empresas dessas conversas. Para as marcas, surge um desafio novo: disputar as primeiras posições de uma página de resultados já não é suficiente. Agora elas também precisam aprender a ganhar relevância dentro das respostas das IAs.

O Google Zero é o primeiro sinal de uma mudança maior. A internet do clique começa a dar lugar à internet da decisão mediada por algoritmos. E, se antes a disputa era para conseguir cliques, agora ela começa antes, na disputa por presença, consideração e recomendação dentro das inteligências artificiais.

Gustavo Peixoto
Diretor de Produtos e Startups na iRede
Gustavo tem mais de 25 anos de experiência nas áreas de marketing, inovação e educação. É Diretor de Produtos e Startups no iRede e Professor de Marketing na Unifor. Anteriormente, atuou como Diretor de Estratégia na Advance e Redator Criativo em diversas agências regionais e internacionais, participando de projetos para marcas como Pague Menos, Johnnie Walker, Cisco, PlayStation, Stella Artois, Apple, Emirates, Angola Cables e Rappi. É mestrando em Administração na UECE, tem MBA em Gestão de Negócio e Inteligência de Mercado pela Saint Paul e graduação em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda pela Unifor, com passagem por importantes escolas de estratégia e criatividade, como McKinsey.org, Hyper Island, Miami Ad School e ESPM.