Como a Meta está ensinando seus algoritmos a entender o que deixamos de considerar relevante
Esta semana marca o início de minhas supostas férias após o longo percurso que se estendeu do Fall 2025 ao Spring 2026. Escrevo do aeroporto de Halifax e não vejo a hora de desembarcar na Canção do Mar para abraçar minha mãe, a quem não vejo há quase dois anos. Aquilo que, à primeira vista, parecia apenas uma pausa entre semestres revelou-se algo diverso. Entre uma mala e outra, descubro-me às voltas com o lançamento de meu primeiro livro, previsto para 19 de julho de 2026, e com uma suspeita que me acompanha há algum tempo: certas coisas apenas aparentam ser despretensiosas. Explico:
Uma das figuras que descrevo em meu livro é a do Transfigurator. Personagem curioso. Julga estar de férias, mas continua trabalhando. Acredita estar descansando, não obstante, continua observando. Imagina encontrar acontecimentos extraordinários e termina por descobrir que os episódios mais banais da vida cotidiana escondem relevâncias que, à primeira vista, permaneciam invisíveis.
Ocorreu-me algo semelhante na semana passada, quando participei de uma pesquisa promovida pela Meta. Survey aparentemente ordinário na minha tela do Instagram. Sim, marcado por tonalidades instigantes.
Confesso que esperava encontrar as habituais perguntas sobre discurso de ódio, violência ou conteúdos ofensivos. Afinal, consolidou-se certa percepção segundo a qual a moderação de conteúdo consiste fundamentalmente em discernir aquilo que pode ou não pode ser dito. A experiência observada, entretanto, sugeria algo distinto.
A pesquisa foi conduzida diretamente no aplicativo da mídia e organizada em etapas sucessivas. Inicialmente, a Meta informa ao participante que as respostas poderão ser empregadas para fins de personalização, inovação e pesquisa. Em seguida, esclarece que os conteúdos apresentados correspondem a recomendações efetivamente produzidas pelo algoritmo do Instagram e que, para cada publicação, o usuário deverá responder a duas perguntas. Dessa maneira, a experiência cotidiana de navegação é convertida em um mecanismo contínuo de avaliação humana.
Foi então que percebi o pitoresco. A unidade fundamental da investigação não era propriamente a postagem. Era a experiência.
O experimento silencioso da Meta para treinar os algoritmos do Instagram
Em um primeiro momento, a pesquisa opera no plano do post individual. O participante visualiza um Reel ou uma publicação recomendada e responde à pergunta “Was this post worth your time?”. Trata-se de uma escala composta pelas categorias “Completely”, “Mostly”, “Somewhat”, “Barely”, “Not at all” e “I cannot see the post”. Até o salvador Ciro apareceu.
À primeira vista, a pergunta parece banal. Sem embargo, me pareceu mais interessante do que aparentava. Não se trata de verdade ou falsidade. Tampouco de concordância ideológica. A Meta procura saber se alguns segundos de nossa vida foram bem empregados.
Na sequência, a plataforma procura discernir a adequação normativa da publicação mediante a pergunta “Did you think this post was offensive or inappropriate?”. O respondente pode indicar que não, que sim, que não tem certeza ou, ainda, que não consegue visualizar a postagem.
Ali, duas dimensões distintas emergem. Uma diz respeito à relevância. Outra, à moralidade. Um vídeo pode ser perfeitamente aceitável e, ainda assim, representar uma perda de tempo. Outro pode despertar interesse e, simultaneamente, parecer inadequado.
Como a Meta decide quais conteúdos deixaram de fazer sentido
Quando determinada publicação recebe avaliação negativa, a investigação introduz um terceiro momento, destinado à identificação das razões da rejeição. Entre os motivos examinados encontravam-se:
- conteúdo ofensivo ou inadequado;
- aparência de conteúdo produzido por inteligência artificial;
- repetição excessiva;
- desatualização;
- características de spam ou baixa qualidade;
- incompatibilidade com os interesses do usuário;
- ausência de interesse pelo autor da publicação;
- aparência promocional ou publicitária;
- conteúdo já visualizado anteriormente no Instagram ou em outras plataformas;
- ausência de humor;
- utilização de língua desconhecida;
- nenhuma das alternativas anteriores;
- impossibilidade de visualizar a publicação.
Após a avaliação de diversas postagens, a unidade de análise desloca-se do conteúdo individual para a experiência mais ampla proporcionada pela aba Explore. A Meta solicita então que o participante considere sua utilização da plataforma ao longo dos sete dias anteriores e identifique os principais problemas percebidos nesse período. As dimensões avaliadas incluíam:
- excesso de conteúdos provenientes das mesmas contas;
- presença de spam ou de conteúdos de baixa qualidade;
- conteúdos antigos ou desatualizados;
- influência excessiva de um único Reel ou fotografia sobre recomendações posteriores;
- exposição a conteúdos ofensivos ou inadequados;
- repetição de conteúdos já visualizados anteriormente;
- excesso de conteúdos visualmente semelhantes;
- lentidão do sistema em adaptar-se aos interesses do usuário;
- reduzida diversidade temática na aba Explore;
- excesso de conteúdos produzidos por inteligência artificial;
- presença de conteúdos em idiomas desconhecidos;
- recomendações incompatíveis com os interesses do participante;
- inexistência de problemas percebidos.
À guisa de fecho, a estrutura geral da pesquisa pode ser resumida da seguinte maneira:
- apresentação do estudo e consentimento para utilização dos dados;
- exibição de conteúdos efetivamente recomendados pelo algoritmo;
- avaliação do valor percebido de cada publicação;
- avaliação da adequação normativa do conteúdo;
- identificação das razões específicas da rejeição;
- deslocamento da unidade de análise, do post individual para a experiência acumulada dos sete dias anteriores;
- avaliação da qualidade do sistema Explore em seu conjunto;
- encerramento da pesquisa e agradecimento ao participante.
Sob o ponto de vista metodológico, trata-se de um survey experiencial multinível baseado em feedback humano explícito. Avaliações micro, centradas em conteúdos individuais, são combinadas com avaliações meso, voltadas à experiência recente do usuário na aba Explore. O instrumento revela que a Meta procura monitorar simultaneamente a qualidade das recomendações, a diversidade temática, a adequação normativa dos conteúdos, a capacidade adaptativa do algoritmo, a repetição excessiva, a presença de spam, a saturação provocada por conteúdos produzidos por inteligência artificial e o grau de alinhamento entre as recomendações e os interesses dos usuários.
Em consequência, milhões de participantes passam a desempenhar a função de avaliadores distribuídos do próprio sistema de recomendação da plataforma, fornecendo um mecanismo contínuo de retroalimentação humana destinado ao aperfeiçoamento dos algoritmos do Instagram.
Remeto que essa distinção não é pequena.
Durante décadas, imaginamos a moderação de conteúdo como um problema eminentemente moral. O discurso de ódio, a violência, a pornografia e a desinformação ocupavam o centro das preocupações. A pesquisa que encontrei sugere um deslocamento mais interessante. O problema parece mover-se do proibido para o tedioso. Do ilícito para o repetitivo. Do ofensivo para aquilo que simplesmente deixou de fazer sentido.
Afinal, o mundo da vida nunca se organizou apenas por objetos ou informações. Organiza-se por estruturas de relevância. Existem coisas que chamam nossa atenção e outras que lentamente se tornam invisíveis. Algumas experiências se repetem em excesso. Outras aparecem cedo demais ou tarde demais. Algumas deixam de produzir encanto. Outras perdem a capacidade de nos afetar.
Sob esse prisma, a pergunta “Esse conteúdo valeu o seu tempo?” deixa de parecer trivial. Este não procura saber se algo é verdadeiro ou falso. Tampouco se é moral ou imoral. Interroga se determinada experiência encontrou lugar em nosso sistema cotidiano de relevâncias.
E aqui reside uma pequena ironia. Tal minha férias.
Ao longo dos últimos anos, difundiu-se a percepção segundo a qual a inteligência artificial substituiria progressivamente os seres humanos. O survey da Meta sugere precisamente o contrário. Quanto mais sofisticados os algoritmos se tornam, mais dependentes parecem tornar-se do julgamento humano.
A inteligência artificial deixa de ser apenas uma máquina que observa pessoas.
As pessoas passam igualmente a observar a máquina. Talvez por isso a figura do Transfigurator tenha-me ocorrido durante minhas supostas férias. Aparentemente, este está descansando. Na realidade, continua trabalhando. Aparentemente, a Meta está moderando conteúdos. Sem o saber, a Meta talvez tenha começado a fazer fenomenologia. Será?
