Duas décadas depois de abrir as portas em Fortaleza, a Bolero Comunicação chega a 2026 vivendo um dos momentos mais simbólicos de sua história. A agência conquistou, pela segunda vez, o título de Agência do Ano no Prêmio Colunistas Norte-Nordeste e liderou a premiação com um desempenho que ultrapassa um reconhecimento isolado: foram um Grand Prix, nove Ouros, quatro Pratas e seis Bronzes, além de ocupar o topo dos rankings de Direção de Criação, Direção de Arte e Redação. Mais do que celebrar troféus, o resultado confirma uma trajetória construída sobre consistência criativa e uma visão de publicidade que sempre buscou ir além das tendências passageiras.
Para André Mota, sócio e diretor geral de criação da Bolero, essa identidade nunca foi fruto de uma decisão planejada, mas de uma inquietação permanente que acompanha a agência desde o início. Segundo ele, a criatividade sempre ocupou o centro da operação e acabou se tornando uma assinatura reconhecível justamente porque esteve presente em cada projeto desenvolvido ao longo desses 20 anos.
“A agência já nasceu com esse DNA disruptivo, inovador, com essa vontade de buscar o diferente. Essa assinatura criativa aconteceu de forma natural, porque em cada job tentamos fazer mais e melhor. Não por capricho, mas porque entendemos que criatividade traz retorno para o cliente e para a agência.”
Essa forma de enxergar a criação também explica por que a Bolero evita perseguir tendências apenas porque elas dominam o mercado naquele momento. Para André, acompanhar novas ferramentas faz parte da profissão, mas nenhuma inovação substitui o entendimento profundo do negócio de cada cliente. Na prática, a agência construiu um método que combina estratégia, criatividade e repercussão como pilares inseparáveis.
“Num mercado onde todo mundo grita as mesmas coisas de um jeito plastificado, permanecer invisível é o maior risco financeiro que um cliente pode correr.”
Criar no Nordeste também moldou essa maneira de pensar na publicidade. Em um mercado historicamente marcado por orçamentos menores do que os grandes centros do país, a agência aprendeu que boas ideias frequentemente precisam compensar aquilo que falta em investimento. Em vez de enxergar a limitação financeira como obstáculo definitivo, a Bolero transformou esse contexto em estímulo para desenvolver soluções mais inventivas.
Foi assim que um simples pedido para uma promoção de fim de ano do Shopping Iguatemi acabou dando origem ao I’Music, que se consolidou como um dos principais festivais de música do Ceará. Da mesma forma, uma corrida promovida pela Rede Uniforça se transformou na Academia da Vida, iniciativa que ampliou a visibilidade da marca enquanto arrecadava toneladas de alimentos para crianças assistidas pelo Lar Amigos de Jesus.
“Falta de verba não pode ser desculpa para fazer um trabalho medíocre. Quando você não tem grandes recursos, precisa fazer muito com pouco. E nisso nós, nordestinos, somos craques.”
Essa capacidade de transformar limitações em oportunidades também ajuda a explicar a consistência da agência em festivais. Para André, o reconhecimento obtido no Colunistas não representa um acerto isolado, mas o resultado de uma cultura construída internamente ao longo dos anos.
Segundo ele, o rigor criativo deixou de ser uma cobrança exclusiva da direção para se tornar parte do funcionamento cotidiano da empresa. O envolvimento de todas as áreas, somado à decisão de tratar qualquer projeto com o mesmo nível de dedicação, permitiu que a Bolero acumulasse premiações em diferentes categorias e com clientes de perfis completamente distintos, tanto públicos quanto privados.
“Não existe cliente menor nem job menor. Todos têm o mesmo peso quando o assunto é criar algo relevante.”
Mesmo em um cenário onde redes sociais aceleram o ritmo das entregas e a produção de conteúdo acontece praticamente em tempo real, André acredita que velocidade só funciona quando existe uma estratégia sólida por trás. É essa preparação anterior que permite à equipe responder rapidamente aos acontecimentos sem perder consistência criativa.
“O segredo é ter muito claro onde o cliente quer chegar. Quando essa construção estratégica está bem feita, conseguimos criar rápido, adaptar campanhas e manter qualidade.”
Entre todos os trabalhos recentes da agência, poucos sintetizam tão bem essa visão quanto O Mundo Distópico das Mulheres, vencedor do Grand Prix de Design no Colunistas. A peça parte da linguagem tradicional dos calendários para subverter completamente seu significado, transformando um objeto historicamente associado à objetificação feminina em um manifesto visual sobre violência de gênero, machismo estrutural e direitos das mulheres.
O projeto, desenvolvido para a Mídia Ninja, foi executado artesanalmente por meio de colagens digitais, reunindo meses de trabalho manual em uma série de doze composições.
“A realidade das mulheres ainda é uma distopia. Queríamos transformar um símbolo dessa objetificação em uma peça de empoderamento. Todo o trabalho foi feito praticamente no modo old school, com recorte e colagem digital. Acho que esse cuidado, junto da força da ideia, chamou atenção do júri.”
Ao longo da conversa, porém, fica claro que a maior transformação de André não aconteceu na técnica, mas na forma de enxergar o próprio papel da publicidade. Depois de acompanhar a evolução da profissão desde a época em que layouts eram produzidos manualmente até a chegada da inteligência artificial, ele acredita que o aprendizado mais importante foi compreender que comunicação também produz impactos sociais.
“A publicidade de décadas atrás muitas vezes reforçava estereótipos. Hoje entendo que não dá para ser um comunicador de massa e ser alienado. Sempre que posso, faço questão de colocar minorias no centro das nossas discussões.”
Para ele, essa mudança também altera a relação entre dados e criatividade. Em um mercado cada vez mais orientado por métricas, números continuam sendo fundamentais para orientar decisões estratégicas, mas não substituem aquilo que torna uma campanha memorável.
“Os dados mostram comportamentos. Mas quem ainda cria arrepio, emoção e faz as pessoas se importarem é uma boa ideia.”
Ao completar vinte anos, a Bolero olha menos para aquilo que já conquistou e mais para os próximos desafios. A expansão para novos mercados já começou, com clientes em outros estados, e a intenção é continuar levando a criatividade produzida no Nordeste para diferentes regiões do país. Ao mesmo tempo, André afirma que a agência pretende trabalhar cada vez mais com empresas que desejem gerar impacto positivo, além de resultados comerciais.
“Nós teremos prazer em atender supermercados, bancos, construtoras, faculdades, petshops… o que for. Menos bets. Nisso, pode apostar.”
Em um mercado onde ferramentas, formatos e plataformas mudam constantemente, a Bolero parece apostar que algumas coisas continuam sendo permanentes: boas ideias, inquietação criativa e a convicção de que publicidade também pode ajudar a construir uma sociedade melhor.
