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Após queda da patente, Ozempic perde fôlego e Mounjaro bate recorde de importação

Por Redação

22/04/2026 14h52

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O mercado brasileiro de medicamentos voltados à perda de peso passa por uma mudança acelerada de liderança. O Mounjaro atingiu recorde histórico de importação, superando com ampla vantagem concorrentes consolidados como Ozempic e Wegovy.

A leitura é baseada em dados de comércio exterior analisados por especialistas do Citigroup, que acompanham a importação de medicamentos à base de polipeptídeos, categoria que inclui tanto a tirzepatida quanto a semaglutida, princípios ativos desses tratamentos.

Como não há uma base pública que diferencie diretamente os medicamentos, a identificação ocorre pela origem das importações. Produtos vindos dos Estados Unidos e da Alemanha indicam tirzepatida (Mounjaro), enquanto os da Dinamarca correspondem à semaglutida (Ozempic e Wegovy).

Em março, as compras provenientes dos EUA e da Alemanha somaram cerca de US$ 350 milhões, mais que o dobro do mês anterior e o maior valor já registrado na série acompanhada pelo banco. No mesmo período, as importações da Dinamarca ficaram em US$ 27 milhões, bem abaixo do pico histórico de 2024. A diferença expressiva indica uma rápida migração do consumo para uma nova geração de tratamentos, com maior percepção de eficácia e inovação.

Um mercado dividido em dois andares

A movimentação reflete uma reorganização clara do setor em dois segmentos distintos.

De um lado, medicamentos de alto valor agregado, baseados em novas tecnologias, com preços elevados e forte apelo de eficácia, onde a tirzepatida avança rapidamente. De outro, produtos que caminham para a popularização, impulsionados pela perda de patentes e pela entrada de genéricos.

A semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, está no centro dessa transição. Com a queda da proteção patentária no Brasil, mais de dez pedidos de registro de medicamentos similares aguardam análise da Anvisa.

A expectativa é de uma redução significativa de preços, que pode chegar a até 70%, ampliando o acesso e impulsionando o volume de consumo. Ao mesmo tempo, abre-se espaço para a consolidação de uma nova liderança no segmento premium.

Crescimento acelerado e mercado bilionário

O avanço da concorrência deve expandir rapidamente o setor. Projeções do BTG Pactual indicam que os genéricos podem adicionar R$ 3,6 bilhões ao mercado já em 2026, levando o total a cerca de R$ 15,6 bilhões. O crescimento, no entanto, não ocorre sem distorções.

Demanda elevada impulsiona mercado paralelo

Uma operação conjunta da Anvisa e da Polícia Federal revelou a dimensão de um mercado ilegal em expansão. Foram apreendidos 3,5 kg de tirzepatida, volume suficiente para produzir mais de 1 milhão de canetas, com movimentação de cerca de R$ 4,8 milhões.

Também foram identificadas substâncias ainda em fase experimental, sem aprovação regulatória, além de medicamentos manipulados de forma irregular. A diferença de preços em relação a outros países intensifica o problema. Em mercados vizinhos, o custo pode ser significativamente menor, incentivando importações informais e revenda, o que amplia os riscos sanitários.

A mudança estrutural não apenas de liderança

Esse cenário vai além da troca de protagonismo entre medicamentos. Trata-se de um ciclo clássico de mercado em que a inovação surge com posicionamento premium e alto valor percebido e, posteriormente, se expande via escala, com redução de preços e maior acesso.

Esse padrão, já observado em outros setores, agora se consolida na indústria farmacêutica.

Nesse contexto, o diferencial competitivo tende a migrar progressivamente da tecnologia para fatores como marca, percepção de eficácia e confiança. Em um mercado em rápida expansão, esses elementos devem definir quem será capaz de sustentar relevância no longo prazo.