Por Felipe Godoy, executiva de marketing, conselheiro estratégico e palestrante
Durante muito tempo, fazer marketing era relativamente simples. A empresa abria as portas, anunciava em alguns veículos de comunicação e esperava que os clientes aparecessem. Hoje, essa lógica não existe mais.
A forma como as pessoas descobrem produtos, pesquisam informações e tomam decisões de compra mudou radicalmente. Novas tecnologias transformaram os mecanismos de busca, as redes sociais passaram a influenciar comportamentos e a quantidade de pontos de contato entre marcas e consumidores cresceu de forma exponencial.
Antes, o consumidor pesquisava. Hoje ele descobre. Antes, a marca interrompia. Hoje ela precisa merecer atenção. Ao mesmo tempo em que surgiram mais oportunidades, surgiu também um desafio muito maior: a disputa pela atenção.
Hoje, sua empresa não compete apenas com seus concorrentes. Ela compete com vídeos, influenciadores, criadores de conteúdo, memes, séries, notícias e milhares de estímulos que disputam alguns segundos da atenção do consumidor. E existe um detalhe importante: ninguém entra nas redes sociais para ver anúncios.
As pessoas entram para se divertir, aprender, se informar ou se conectar com outras pessoas. Por isso, as marcas que ainda tratam o marketing apenas como um canal de divulgação estão ficando para trás. O desafio atual é criar conteúdo capaz de gerar atenção, conexão, credibilidade e, consequentemente, resultado para o negócio. Mas isso não significa produzir conteúdo por produzir. Significa entender profundamente o contexto.
Ao liderar campanhas como Gracyovos e Agostinho Carrara como Diretor de Marketing do Canva, o ponto de partida nunca foi apenas a mensagem que queríamos transmitir. A primeira pergunta era outra: onde estamos falando, com quem estamos falando e qual é a expectativa das pessoas naquele ambiente?
A partir dessa compreensão, conseguimos criar campanhas que pareciam naturais para a plataforma e relevantes para a audiência. Na campanha Gracyovos, utilizamos um conceito que chamo de “absurdo possível”: uma ideia que parece improvável o suficiente para gerar curiosidade, mas plausível o suficiente para fazer as pessoas se perguntarem se aquilo poderia realmente acontecer. Esse espaço entre a dúvida e a possibilidade gera conversa, compartilhamento e amplificação orgânica.
Já na campanha com Agostinho Carrara, usamos a força da nostalgia para criar uma conexão emocional imediata com o público. Mais uma vez, a estratégia não estava apenas na criatividade da ideia, mas na compreensão de como as pessoas reagiriam a ela. O resultado é que cada compartilhamento, comentário ou conversa gerada ampliava o alcance da campanha sem investimento adicional em mídia.
Essa é uma das principais mudanças do marketing moderno: as empresas que conseguem gerar relevância fazem seu público trabalhar a favor da distribuição da mensagem. Por trás disso existe um processo que vai muito além de criatividade. É a capacidade de interpretar cenários, identificar movimentos culturais, mapear oportunidades e tomar decisões com velocidade.
Em um mercado que muda constantemente, empresas que dependem apenas de fórmulas do passado tendem a perder espaço. Já aquelas que conseguem ler o contexto, agir com rapidez e transformar oportunidades em ação criam diferenciação competitiva. O marketing é uma ferramenta estratégica para crescimento. E as empresas que entenderem isso primeiro terão uma vantagem difícil de copiar.
O desafio é que, em um cenário cada vez mais complexo, nem sempre é fácil identificar quais oportunidades realmente merecem atenção, quais tendências têm potencial de impactar o negócio e quais iniciativas devem receber investimento. Por isso, mais do que executar ações isoladas, as empresas precisam desenvolver a capacidade de interpretar o contexto, conectar marketing à estratégia do negócio e construir processos de decisão mais rápidos e consistentes.
Ao longo da minha trajetória, liderando áreas de marketing em empresas globais de tecnologia e desenvolvendo campanhas que geraram impacto e resultado de negócio, percebi que o diferencial raramente está em uma ferramenta ou canal específico. Ele está na capacidade de entender o momento, fazer as perguntas certas e transformar estratégia em execução. E talvez essa seja a principal oportunidade para as empresas que querem crescer nos próximos anos.
