Por Hugo Lopes, CEO da agência Rock Digital
O digital derrubou o pedágio da atenção, a IA, o da capacidade; ao eixo Rio-São Paulo, sobrou defender um prestígio caro e frágil
Por quase um século, a coisa mais cara do mundo dos negócios foi também a mais invisível. Isso jamais apareceu nas planilhas com o nome que realmente lhe cabia: distância.
Estar perto do centro econômico do país sempre custou caro. Era ali que se concentravam o capital, a mídia e as decisões. Tudo o que importava se organizava em torno de encurtar essa distância. Empresas e carreiras migravam nessa direção. O endereço deixava de ser apenas um ponto no mapa e passava a fazer parte da estratégia.
Foi por essa razão, e não por mágica, que São Paulo se tornou o que se tornou. Ali, todas as distâncias pareciam menores. Fazia sentido pagar o aluguel mais caro do país para estar a uma esquina de quem decidia. Durante décadas, essa conta fechou com sobras.
Sucede que duas tecnologias trataram de matar a distância, e convém insistir no verbo, porque elas não a encurtaram. Mataram. A primeira foi o digital, que zerou a distância até o cliente. Falar com o Brasil inteiro deixou de exigir a passagem obrigatória por uma emissora, uma rede de varejo ou um andar de gente numa avenida. A segunda, que se desenrola agora, é a inteligência artificial. O que ela zera é a distância até a capacidade. A mesma máquina que pensa por uma equipe sênior em São Paulo pensa, no mesmo segundo e pelo mesmo preço, por qualquer pessoa, em qualquer lugar.
Hoje, uma empresa fora do eixo pode comprar a mesma ferramenta, acessar o mesmo cliente, disputar a mesma atenção e operar com a mesma sofisticação técnica que antes parecia reservada a quem estava fisicamente perto do centro. A diferença deixou de estar no acesso. Passou a estar na leitura do problema, na velocidade de execução e na originalidade do ponto de vista.
Chegamos, então, ao ponto que ninguém teve a coragem de pronunciar numa reunião de diretoria: mortas as duas distâncias, a proximidade ao eixo se converteu na coisa mais cara que o dinheiro ainda compra sem devolver retorno algum. Segue-se pagando o aluguel da esquina mais valorizada de um cruzamento onde, muitas vezes, só sobraram trânsito e engarrafamento.
A inversão merece ser observada com vagar, porque o lugar deixou de ser destino para se tornar decisão. Antes, a posição geográfica determinava o que se podia fazer. Impunha um teto a quem nascia longe do eixo. Hoje, ela não limita mais nada e passou à condição de escolha. E toda escolha carrega um ponto de vista e um custo. Quem decide de onde constrói faz uma jogada deliberada. Quem apenas herdou um endereço caro segue pagando alto por uma vantagem cujo prazo já expirou.
Testei essa lógica na própria pele construindo uma Brandtech em Fortaleza, não apesar da cidade, mas precisamente por causa dela. Decidi permanecer quando a régua já havia mudado. A mesma tecnologia de fronteira que se abre numa torre da Faria Lima se abre igualmente no meu monitor, com três diferenças que quase ninguém coloca na conta: um custo inteiramente outro, um talento que não disputo em leilão com o mundo e um ponto de vista que não alugo de manual algum, porque é o chão onde vivo.
É justamente aí que reside o ativo que se tornou escasso. A máquina nivelou a ferramenta e converteu o pensar competente numa commodity, disponível na aba do navegador. Mas ela não consegue nivelar o lugar de onde se fala. Aquilo que antes parecia um problema de logística se tornou, pela primeira vez na história econômica do país, um ativo sem relação direta com o CEP de quem o possui.
Há nisso uma armadilha notável. A inteligência artificial foi treinada na média, exprime-se na média e oferece a mais perigosa tentação da década: soar como todo mundo, sem esforço e em escala. Em outras palavras, ser medíocre com excelente acabamento.
Por isso, a velha pergunta sobre quando o interior, a periferia ou o Nordeste alcançarão o centro nasceu de cabeça para baixo. Ela ainda imagina um centro e uma corrida até ele. Não percebe que o eixo nunca foi senão o ponto em que as distâncias se faziam curtas. Esgotadas elas, não há mais linha de chegada num único lugar.
A pergunta nova, e bem mais incômoda, é outra: por que se continua pagando caro para estar perto de algo que deixou de existir, agora que se pode construir de qualquer lugar?
Quanto a mim, já dei minha resposta. E foi de Fortaleza.
