Por Andreia Sousa, gerente comercial do Grupo Aratu
Durante muito tempo, o Nordeste foi visto como uma região de “potencial”. Hoje, os números mostram uma nova realidade: a região deixou de ser promessa para se tornar resultado. E digo isso não apenas pelos dados, mas pela perspectiva de quem vive, trabalha e negocia diariamente neste mercado.
Em 2025, o Nordeste voltou a ocupar a posição de segundo maior mercado consumidor do Brasil, movimentando cerca de R$1,5 trilhão e ultrapassando a região Sul, segundo levantamento do IPC Maps 2025. Mais do que um dado econômico, esse movimento representa uma mudança importante na forma como o país precisa olhar para o Nordeste real e pulsante.
O crescimento não aconteceu por acaso. Há uma combinação de fatores que vem transformando a região com consistência.
O primeiro é a geração de renda. No Nordeste, a queda do desemprego foi a mais expressiva do país — de 11,2% para 9,4% entre 2023 e 2024, o patamar mais baixo desde 2014, segundo a PNAD Contínua/IBGE. Mais emprego formal significa mais crédito, mais planejamento e um consumo presente. Não consumo passageiro.
Outro motor é a força das energias renováveis. O Nordeste concentra 90% dos parques eólicos do Brasil, com investimentos que ultrapassam R$230 bilhões entre 2015 e 2024. O impacto significa desenvolvimento regional, novos negócios e aumento real do poder de compra local.
O turismo também merece destaque. Mais de 159 mil turistas internacionais desembarcaram nos aeroportos do Nordeste apenas nos primeiros quatro meses de 2025 — alta de 51% em relação ao mesmo período do ano anterior. O setor gerou R$4,56 bilhões em 2023, representando quase 40% do total nacional, e hoje movimenta cadeias inteiras de serviços de forma contínua, não mais sazonal.
Talvez a transformação mais silenciosa esteja acontecendo longe das capitais. As cidades médias do interior assumiram um protagonismo com um crescimento impulsionado por fatores como infraestrutura logística, polos agroindustriais consolidados, regiões metropolitanas em expansão e interiorização do ensino superior, que vêm ganhando força econômica, ampliando sua base produtiva e atraindo novos investimentos do mercado. Quem ainda enxerga o Nordeste apenas pelas capitais está trabalhando com um mapa míope.
O consumidor nordestino de hoje é mais informado, mais conectado. Preço continua sendo importante, mas já não é o único fator de decisão na compra. Experiência, confiança, propósito e pertencimento cultural passaram a ter peso crescente nas escolhas de consumo. Marcas que chegam ao Nordeste com campanhas genéricas, sem escuta real do nosso território, vão encontrar um consumidor que rejeita desconhecimento da região. A força cultural e a autoestima nordestina são variáveis de mercado tão relevantes quanto o PIB.
Existe também uma característica que considero fundamental: o Nordeste valoriza relações próximas. Em um momento em que a tecnologia acelera processos e automatiza contatos, a conexão humana e real continua sendo um diferencial competitivo na região. Marcas que entendem essa dinâmica constroem vínculos fortes e relações mais duradouras.
Nós, mulheres dessa geração, acompanhamos um Nordeste que muitas vezes era visto apenas por seus desafios. Hoje, temos o privilégio de assistir — e participar das decisões — de uma mudança de narrativa. Não estamos falando apenas de crescimento econômico, mas de autoestima regional e de protagonismo em tudo que fazemos.
A Consultoria Tendências projeta que o PIB dos estados nordestinos cresça 3,2% ao ano entre 2027 e 2034, acima da média prevista para o Brasil, estimada em 2,3% ao ano. São indicativos de uma transformação estrutural, não de um movimento passageiro.
O desafio agora não é provar a relevância do Nordeste. Os números já fizeram isso por si só. O desafio é fazer com que o mercado compreenda a profundidade dessa transformação. Empresas que continuarem tratando a região como mercado secundário perderão oportunidades. As que entenderem a força econômica, cultural e humana do Nordeste terão uma vantagem competitiva.
Como profissional da área comercial, vejo diariamente que as melhores oportunidades estão onde existe crescimento, confiança e disposição para consumir. E hoje, poucas regiões reúnem esses três fatores de forma tão evidente e próspera quanto o nosso Nordeste.
O Nordeste não pede mais espaço. O Nordeste ocupa espaço. E vai virar uma potência ainda maior.
Fontes: IPC Maps 2025 · PNAD Contínua/IBGE · Consultoria Tendências · Embratur · Ministério do Turismo · ABEEólica · ANEEL · Braztoa
