19ª Edição

Capa | O novo eixo do consumo: o protagonismo estratégico do Nordeste

Por Redação

02/07/2026 12h05

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Com consumo em alta e novas oportunidades de negócio, o Nordeste deixa de ser fronteira de expansão para se tornar parte do core business das empresas

O Nordeste vive um momento de transformação econômica que vai além do crescimento do consumo. Com movimentação estimada em R$1,5 trilhão em 2025, a região assumiu a segunda posição entre os maiores mercados consumidores do país e passou a ocupar um papel mais estratégico para os negócios.  Mais do que números expressivos, o avanço revela uma mudança de percepção: o que antes era tratado por muitas empresas como uma fronteira de expansão passou a integrar o centro das estratégias de crescimento, investimento e relacionamento com o mercado.

O crescimento econômico da região acontece em paralelo a uma valorização crescente das identidades locais. De acordo com o estudo Brasilidades 2025, da MindMiners, 48% dos brasileiros afirmam que comprariam mais de marcas que representassem melhor suas regiões e culturas. No entanto, apenas 40% dizem conhecer uma empresa que cumpra esse papel de forma satisfatória. O levantamento também mostra que 67% acreditam que as marcas deveriam assumir maiores responsabilidades sociais, indicando que o consumidor espera uma atuação mais conectada aos territórios onde essas empresas estão inseridas.

Marcas e identidade cultural
48% dos brasileiros comprariam mais de marcas que representassem melhor suas regiões e culturasApenas 40% dizem conhecer uma empresa que cumpra esse papel de forma satisfatória67% acreditam que as marcas deveriam assumir maiores responsabilidades sociais
Fonte: Estudo Brasilidades 2025, da MindMiners

Além da força econômica, o Nordeste também se destaca pela valorização de sua identidade cultural. Ainda segundo o estudo, os próprios nordestinos apontam o espírito alegre e festeiro como uma das principais características da região. A pesquisa mostra que 84% dos entrevistados no Nordeste reconhecem a existência de festas importantes na região, o maior percentual registrado entre todas as regiões do país. A culinária, marcada pela diversidade de sabores e tradições, e as belezas naturais, como praias e paisagens, também aparecem entre os elementos que mais despertam orgulho e reforçam a singularidade nordestina. 

Nesse contexto, o Nordeste se consolida não apenas como um polo de consumo, mas como um território estratégico para negócios, inovação e construção de marca. Empresas que nasceram ou investiram na região passaram a enxergar seu potencial para além dos indicadores demográficos, encontrando um mercado com identidade própria, crescente relevância econômica e capacidade de influenciar decisões corporativas em escala nacional.

Aderson Uchoa, diretor financeiro da Solar Coca-Cola, explica como o perfil do consumidor nordestino impacta as estratégias comerciais e de relacionamento da empresa. “O consumidor nordestino possui características distintas e estas são devidamente consideradas as nossas estratégias e operações. Mas há uma máxima fundamental que quem gerencia negócios nesta região precisa compreender antes de mais nada: o Nordeste não é um só. Estamos falando de um território riquíssimo em peculiaridades, composto por múltiplos mercados, sotaques e identidades. Por isso, na Solar Coca-Cola, nossas estratégias não são genéricas; elas são customizadas, respeitando as particularidades de cada lugar em que estamos”. 

Para o executivo, outra característica comum é a forma como os nordestinos valorizam a proximidade, a relação de confiança e a identidade cultural. “Eles querem e exigem se enxergar de verdade nas marcas que consomem. E para responder a esse perfil, a nossa estratégia comercial e de relacionamento precisa ser dinâmica e assertiva. Ela tem de acontecer lá na ponta, no pequeno e médio varejo, em todos os momentos de consumo e, claro, nos momentos de celebração da nossa gente. Acompanhar as rotas em campo nos faz entender essa diversidade e ver que esse consumidor, ao mesmo tempo em que é apegado às suas raízes, é moderno, ávido por inovação e altamente conectado”, explica. 

Esse vínculo com a região também se traduz em inovação, desenvolvimento de produtos e estratégias de mercado. Um dos exemplos é a Fanta Caju, criada por profissionais cearenses a partir de um dos sabores mais característicos do Nordeste. O produto nasceu da compreensão dos hábitos e preferências locais e se consolidou como um caso de sucesso dentro do portfólio da companhia. A conexão com o território também se manifesta na participação em grandes festas regionais, onde a empresa impulsiona a economia local e gera renda e desenvolvimento social e econômico. 

“Levamos sustentabilidade para esses eventos e para essas comunidades por meio de ações de economia circular com o Recicla Solar, e grandes iniciativas socioambientais, como ações de acesso à água, de segurança alimentar, e de combate à violência doméstica. O grande impacto para nós é entender que, no Nordeste, a tecnologia e a eficiência aceleram a execução, mas é o respeito pela cultura, pela diversidade de cada estado e o cuidado com o território que sustentam um crescimento consistente”, pontua Aderson. 

Hoje, a região Nordeste concentra 8 das 13 fábricas da Solar Coca-Cola, 94 das 120 unidades operacionais e mais de 330 mil pontos de venda, com mais de 400 mil clientes atendidos e 17.800 empregos diretos na região. Para Aderson, os resultados da região passam pelas cidades médias do interior. “Esses municípios estão ampliando suas bases produtivas, atraindo investimentos e descentralizando uma força econômica que antes ficava exclusivamente restrita às capitais. Para nós, ver o Nordeste se posicionar como um mercado maduro, robusto e estratégico nos dá a certeza de que o crescimento consistente só acontece assim: onde o negócio se conecta, de verdade, com o desenvolvimento econômico e com a vida das pessoas”, comenta.

Transformação digital e experiência do cliente 

O crescimento no Nordeste também tem consolidado a trajetória de empresas no cenário nacional. Esse é o exemplo da Aço Cearense, empresa que nasceu no Ceará e hoje atende clientes em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal, mostrando a capacidade de crescimento sem perder os valores que marcaram a origem. 

“Essa trajetória reforça atributos como proximidade com o cliente, confiança, resiliência e compromisso de longo prazo. Mais do que uma empresa que nasceu no Nordeste, a Aço Cearense mostra que é possível construir uma indústria nacional forte, competitiva e inovadora a partir da região, contribuindo para o desenvolvimento econômico e social do país”, explica Ricardo Dias, diretor Comercial e de Marketing do Grupo Aço Cearense. 

Na visão do executivo, hoje o Nordeste se destaca como um polo de energias renováveis, sobretudo nos segmentos eólico e solar, além de apresentar crescimento em áreas como tecnologia, logística, indústria e serviços. Esse cenário cria novas oportunidades de negócios, atrai investimentos e contribui para a geração de emprego e renda. 

“Empresas que desejam crescer de forma sustentável enxergam cada vez mais o Nordeste como uma região estratégica, não apenas pelo tamanho de seu mercado consumidor, mas também por seu potencial de inovação e desenvolvimento”, pontua. 

Para acompanhar essa evolução, Ricardo ressalta que a transformação digital faz parte da estratégia da Aço Cearense, com foco em aumentar a eficiência dos processos, aprimorar a experiência dos clientes e fortalecer a competitividade do negócio.

Nos processos industriais, a empresa já utiliza soluções de inteligência artificial para identificação automática de impurezas na sucata utilizada pela Sinobras, além de tecnologias de mapeamento e contagem de unidades de eucalipto na Sinobras Florestal. Já no eixo da experiência do cliente, os investimentos incluem a implementação de um CRM e uma loja virtual. 

“Esses investimentos refletem a visão da empresa de combinar tradição industrial com inovação, utilizando a tecnologia para gerar valor, melhorar a jornada do cliente e manter a Aço Cearense preparada para os desafios e oportunidades do futuro”, finaliza. 

Desafios para o desenvolvimento 

Apesar dos avanços observados nos últimos anos, o processo de desenvolvimento econômico do Nordeste ainda enfrenta desafios estruturais. Essa é a avaliação de Sérgio Melo, economista e sócio-fundador do Grupo SM. Segundo ele, a região já se consolidou como um dos principais mercados consumidores do país, mas ainda precisa avançar para ampliar sua competitividade como base produtiva e geradora de riqueza.

Para o especialista, o fato de o Nordeste ter ultrapassado o Sul em volume de consumo é um indicador relevante, especialmente para setores como varejo e distribuição. No entanto, a análise exige uma contextualização. “O Nordeste tem 57 milhões de habitantes contra 32 milhões do Sul. Superar o Sul no agregado com 75% mais gente é sinal de escala, não de força per capita. O gap estrutural permanece: o Nordeste responde por apenas 14% do PIB, fatia estável há mais de 50 anos”, observa. Na sua avaliação, o desafio está em transformar o potencial consumidor da região em ganhos mais expressivos de produtividade, renda e desenvolvimento econômico.

Se o fortalecimento do consumo consolidou o Nordeste como um mercado estratégico para empresas de diferentes setores, o próximo passo da região passa pela capacidade de atrair e materializar investimentos capazes de ampliar sua base produtiva. A consolidação desse movimento depende menos do potencial de consumo e mais da capacidade de transformar oportunidades em projetos geradores de emprego, renda e valor agregado. 

“O Complexo do Pecém, por exemplo, que concentra a principal aposta do país em hidrogênio verde, reúne US$24 bi em intenções de investimento no segmento. O ponto a observar em 2026 é a conversão desses anúncios em decisão final de investimento — o momento em que a intenção se transforma em capital efetivo. Caso se concretize em escala, constituirá o indício mais robusto de que a região deixou de ser apenas mercado para tornar se polo gerador de riqueza”, explica o economista. 

Para Sérgio, os principais diferenciais do Nordeste estão na convergência de quatro fatores: mercado consumidor em escala, localização logística, vocação em energia renovável e capital humano técnico em formação. Assim, a posição portuária — Pecém, Suape, Itaqui — e o hub de cabos submarinos de Fortaleza, um dos principais da América Latina, segundo Etice/Banco Mundial, criam condições únicas para tecnologia, data centers e exportação. “O fator menos visível nos rankings, mas frequentemente citado por investidores, é institucional: o Ceará construiu uma cultura de governança orientada a resultados com menor atrito na execução de projetos estruturantes”, complementa. 

Na avaliação de Sérgio Melo, a agenda para ampliar a competitividade do Nordeste deve ser guiada por prioridades claras, especialmente diante das restrições fiscais enfrentadas por diversos estados da região. O economista elenca três frentes consideradas estratégicas para acelerar o desenvolvimento sustentável:

1. Logística multimodal integrando zonas produtivas aos portos exportadores — a FIOL (Ferrovia de Integração Oeste-Leste) cruza a Bahia em direção a Goiás, onde se conecta com a Ferrovia Norte-Sul (FNS) e o eixo norte-sul têm impacto direto sobre o agronegócio do oeste da BA e do sul do PI/MA; 

2. Qualificação técnica vinculada às cadeias em expansão — hidrogênio verde, economia digital e indústria 4.0; 

3. Crédito e ambiente regulatório para PMEs locais, condição para que grandes investimentos gerem encadeamentos e não apenas enclaves.

Assim, ele aponta que a conversão do protagonismo de consumo em protagonismo produtivo é possível, mas não automática e não homogênea. “Para os principais estados nordestinos, os fundamentos estão parcialmente em curso. Para os estados de base primária, o horizonte é mais longo e a dependência de política federal é maior. Tratar o Nordeste como bloco monolítico nas decisões de investimento é o principal equívoco que a narrativa atual ainda comete. Inovar e internacionalizar as empresas nordestinas, aliado à forte investimento em infraestrutura, pode ser a solução”, conclui.