Unidade será instalada em Jaguaribara, com investimento inicial de R$ 52 milhões, e deve começar a operar em 2028
O Ceará vai receber a primeira fábrica do mundo dedicada ao processamento em larga escala de pele de tilápia para uso médico. A unidade será instalada em Jaguaribara, no interior do Estado, com investimento inicial estimado em R$ 52 milhões, e terá como foco a produção de curativos biológicos destinados principalmente ao tratamento de queimaduras e feridas de difícil cicatrização.
A tecnologia que dá origem ao projeto foi desenvolvida ao longo de cerca de uma década de pesquisas na Universidade Federal do Ceará (UFC). A partir do processamento da pele do peixe, um material que normalmente seria descartado pela indústria, os pesquisadores desenvolveram um curativo que pode aderir à região lesionada e permanecer sobre a ferida por mais tempo, reduzindo a necessidade de trocas frequentes.
A produção industrial será conduzida pelo Consórcio Biotec, por meio da Inova Medical. Atualmente, o laboratório da UFC consegue processar cerca de 600 peles por mês. Com a nova estrutura, a expectativa é alcançar aproximadamente 4,3 mil unidades por dia no primeiro ano de operação comercial. Em uma segunda etapa, a capacidade poderá chegar a 12 mil peles processadas diariamente.
O cronograma prevê o início da construção da unidade na cidade de Jaguaribara, em outubro de 2026. A estimativa é de 15 a 18 meses para a conclusão das obras, instalação dos equipamentos e validação dos primeiros lotes-piloto. Se o cronograma for cumprido, a fábrica poderá iniciar a operação em janeiro de 2028. A comercialização dos curativos, entretanto, ainda depende do cumprimento das exigências regulatórias e sanitárias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A escolha de Jaguaribara está relacionada à proximidade com o Açude Castanhão e com uma das principais regiões produtoras de tilápia do Ceará. A localização aproxima a futura indústria da matéria-prima e cria uma conexão entre a cadeia da piscicultura e a produção de uma tecnologia de maior valor agregado.
Além do aproveitamento de um subproduto da indústria do pescado, a expectativa é que a fábrica gere cerca de 200 empregos diretos no município. Parte da mão de obra deverá receber capacitação técnica para atuar na operação da unidade.
Impacto no tratamento de queimaduras
A pele de tilápia funciona como um curativo biológico que permanece em contato com a área lesionada. A proposta é reduzir a exposição da ferida e, consequentemente, a frequência das trocas de curativos, que podem ser dolorosas para o paciente e demandar medicamentos analgésicos.
Dados apresentados pela empresa responsável pelo projeto apontam potencial de redução de aproximadamente 52% nos custos totais do tratamento de queimaduras em comparação com métodos convencionais. A tecnologia também pode diminuir a necessidade de uso de opioides e de procedimentos para troca dos curativos.
O produto tem potencial de aplicação em queimaduras de segundo e terceiro graus e em outras feridas de difícil cicatrização. A expectativa dos responsáveis pelo projeto é que a produção em escala contribua para ampliar o acesso à tecnologia no Sistema Único de Saúde (SUS).
Mercado internacional
A expansão da produção também abre possibilidade para que a tecnologia desenvolvida no Ceará alcance outros mercados. Países como México, Portugal e Turquia já demonstraram interesse na solução para pesquisas e futuras aplicações. A expectativa divulgada pelos responsáveis é que parte significativa da produção industrial seja destinada à exportação.
A tecnologia permanece vinculada à propriedade intelectual desenvolvida pela UFC. Com a transferência para a indústria, a universidade também deverá receber royalties que poderão ser destinados ao financiamento de novas pesquisas.
