Brisanet e o contrato de Falcão: a anedota da experiência do profissional liberal

Por Redação

26/01/2026 16h53

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Minha tia mudou de NET para Brisanet, eu especulo. Faz-se, à minha óptica, um contrato invisível. Trato da poesia e firmeza cearense de Pereiro. Solo da Brisanet, tangenciando pelo cantor Marcondes Falcão Maia. Também da firma que nomeia esta croniqueta. A poesia é a nossa primeira tentativa de brincar com a linguagem. Se a primeira tecnologia foi o alfabeto, ante o que versará sobre inteligência artificial, convém dizer um passado de memória:

“O homem é o homem”…

“Sendo assim, quem nunca queimou o anel quando menino?”

Jamais falo de gênero, especializo-me na esquina do outro. Nosso UX requer configurar o acordo da rua, aquilo que o algoritmo não exprime. Há uma retórica regional nisso. Mantenho Falcão. É aqui que a persuasão, tal como ensinada, começa a falhar como categoria explicativa suficiente. Falcão ensinou, nas esquinas do Senhor Raimundo dos Queijos, a euforia de uma pontual observação alencarina. Explico:

Kenneth Burke, cria da mesma cidade que habito, não disputa Aristóteles. Desloca o eixo. Onde a retórica clássica insistia na persuasão consciente, Burke introduz a identificação como princípio. Não se trata de convencer alguém de algo, sem embargo, de fazer com que alguém se veja em algo. Isso estabelece o diferente, muitas vezes sem perceber.

Identifico a firma Brisanet e o arquiteto Falcão na qualidade de personagens quando atravessam provas. Da firma, mercado, ou seja, da competição, há desvios e pequenas epopeias ordinárias. Não porque alguém nos disse para fazê-lo, mas porque algo ali ressoa. Brisnanet, ao meu ver persuadiu o império da antiga NET. Falcão, como arquiteto-cantor, desloca a ciência à arte. E é sobre isso que reclamo.

A diferença, outrossim, torna-se sutil e decisiva: quando somos persuadidos, sabemos que estamos sendo. Há intenção, há vigilância. Já a identificação opera em outra camada. Vestimo-nos como alguém, falamos como alguém, desejamos como alguém, não por cálculo, mas por proximidade afetiva e simbólica.

Na adoção da Recrut.AI pela Brisanet, não se trata apenas da modernização de um fluxo de contratação. O que se inscreve é uma experiência reconhecível para o profissional liberal que habita a rua e atravessa o mercado. A IA entra como mediação silenciosa, prometendo transparência e agilidade, mas o vínculo não se sustenta pela persuasão e sim pela identificação que se instala, sem alarde.

A Brisanet não “convence” candidatos: faz com que eles se vejam no percurso status informado, linguagem acessível, promessa de “encaixe fino” entre perfil e vaga. É o mesmo segredo que Falcão performa ao deslocar ciência em arte e arte em ciência: não há cálculo ostensivo, há ressonância.

O algoritmo organiza, anteposto, não exprime. Quem exprime é o acordo tácito da esquina, onde a crença se mantém por proximidade afetiva e reconhecimento simbólico. Assim, o UX do recrutamento opera como epopeia ordinária, de mercado, prova, desvio, onde se vestir como alguém. É tal como falar com alguém e desejar outrem como antecedente de qualquer dashboard.

Eis o ponto: a tecnologia otimiza e é profícua, mas a adesão nasce daquilo que torna o homem “homem”. O profissional liberal adere porque se reconhece — não porque foi persuadido.

Nisso, justamente, é que a retórica se torna experiência. Grande parte do que nos move não passa pelo crivo da consciência. A persuasão mais eficaz é aquela que não se anuncia como tal. Falcão, de Pereiro, o fez, não anunciou ser eviterno. Brisanet, do mesmo solo, mantém.  E é esse deslocamento, da persuasão explícita para a identificação tácita, ambas oblíquas, que marca a passagem entre a retórica da Antiguidade e a fala convincente moderna, profundamente atenta à dimensão psicológica da vida social.

Está em jogo, então, não é apenas de onde vêm as crenças, de uma promessa de nova tecnologia, ou forasteiro ambulante. “Quem nunca deu o anel aqui”, é promessa futura na composição de Falcão. Seria a conexão de Pereiro o elo? Ou cambiante? Embora visto sendo como sociedade nascida de rupturas, fascinados por transformações súbitas, há uma promessa outra de IA.

De um novo menino-homem? Trato da questão mais silenciosa, e talvez mais decisiva: como estas crenças se mantêm? O que sustenta aquilo que chamamos de verdade? E sobretudo: quando já não pensamos mais nela?

Vemos apenas a ponta do iceberg, à minha óptica. Abaixo da superfície, estende-se uma massa densa de hábitos, afetos, repetições e identificações não tematizadas. Não aprendemos algo uma vez para nunca mais questionar. E, como aprendi no antigo Sete de Setembro, à luz do saudoso Doutor Nelson Campos: Somos de encontro, ou revisitamos continuamente nossas crenças?

O que quis crer Falcão ao falar da epopeia do menino cearense? Onde logrará o investimento de Brisanet para além de IA em recrutamento? Permita-me, leitor, vejo esta épica como crença. De onde surge? O que a muda? Quando se mantém? Prevarico a parecer evidências naturais do mundo.

O que a retórica institucional nomeia de verdade, em cada período histórico, costuma ser matéria de opinião sedimentada, de retórica bem-sucedida. Foi-me ensinado a não questionar certos arranjos, determinados modos “corretos” de agir, pensar e sentir. E justamente por isso eles se tornam invisíveis.

É nesse ponto que a noção de propaganda surge, não como vilã automática, sem nenhum embargo, como processo estrutural. Toda sociedade precisa produzir e manter coesão simbólica. Isso não acontece por acaso. Há um trabalho contínuo, muitas vezes imperceptível, de manutenção do sentido comum.

A própria ambiguidade do termo, nascido do propagandum fidei, da propagação da fé, revela que estou, quiçá, estamos, diante de uma tecnologia social antes de um desvio moral. Seria o menino-homem de Falcão um desarte? Ou, um chamado para uma marcha experientia? O que resta na letra?

Talvez a iniciativa de IA de Brisanet desenhe um começo, ou mero discurso para se manter como o jargão desconhecido do Gilmar de Carvalho: “E, então, você ganhou no roll?”, dito numa entrevista que fiz na Revista Brasileira de História da Mídia. Brisa ganhou no front no primeiro discurso? Wagner Castro sabe!

Nosso UX, este ano, se inscreve exatamente aí: no espaço onde a crença não é imposta. Prefiro vê-la enquanto sustentada. Onde o profissional liberal não é convencido, mas se reconhece, onde a rua ensina mais do que o dashboard. Não se trata de manipular a experiência, outrossim, de compreender de que maneira ela nos perpassa antes de qualquer interface.

Tal Aristóteles primara que somos animais racionais, e que a racionalidade é uma conquista tardia, fruto de formação; talvez hoje seja mais honesto dizer que somos animais fisiológicos à cata de sentido compartilhado.

Sim, a internet é nossa nova necessidade. Não a mídia social! Antes de sermos racionais, psicológicos ou sociológicos, somos corpos em situação. É desse chão que emergem nossas certezas mais duráveis. A Brisanet entende isso sem dizer. Falcão canta isso sem explicar. A rua sabe disso sem teorizar. O algoritmo, ainda não.

Kochav Koren
Professor adjunto e pesquisador do PhD de Retórica na Duquesne University
Kochav Koren é professor adjunto e pesquisador do PhD de Retórica na Duquesne University, professor designado na Universidade do Estado de Minas Gerais, pesquisador visitante do Zentrum für Medien- Kommunikations- und Informationsforschung (ZeMKI) da Universidade de Bremen na Alemanha (2022) e Max Kade German-American Center da Universidade de Kansas (2018). Foi auditor em pesquisa na Ernst & Young (EY). Graduado em Publicidade pela Escola Superior de Propaganda em Marketing, mestre em Sociologia e doutor em Estudos da Mídia. Possui mais de dez anos de experiência em pesquisa e oito anos em docência. Inventor do software Qualichat, desenvolvido em seu pós-doutoramento na UNICAMP, entre 2020 e 2022. Fundador do Ernest Manheim Laboratório de Opinião Pública.