Autora de The Art and Science of Connection apresenta tendências sobre saúde social e aponta a conexão humana como um dos pilares do futuro do bem-estar

A palestra “Tendências e previsões da saúde social: a conexão é a nova fronteira”, apresentada no SXSW, trouxe ao centro do debate um conceito que vem ganhando cada vez mais espaço nas discussões sobre bem-estar: a chamada saúde social. A apresentação foi conduzida por Kasley Killam, pesquisadora e autora do livro The Art and Science of Connection, que investiga como as relações humanas influenciam diretamente a saúde e a qualidade de vida das pessoas.
Durante a conversa, a especialista explicou que a forma como normalmente falamos sobre saúde ainda é limitada. Em grande parte das discussões públicas e institucionais, o tema costuma ser dividido entre dois pilares principais: saúde física e saúde mental. No entanto, pesquisas acumuladas ao longo de décadas mostram que existe um terceiro elemento igualmente importante, que diz respeito às conexões humanas e às relações que construímos ao longo da vida.
“A primeira coisa a se notar é que normalmente falamos da nossa saúde como sendo física e mental, mas isso na verdade é um erro. Porque milhares de estudos, com bilhões de participantes ao longo de décadas, mostraram que a conexão envolve muito mais do que apenas a saúde mental. A conexão é essencial para a saúde mental e para a felicidade, sim, mas também é essencial para a saúde física e para a longevidade. Então falar de conexão apenas dentro do guarda-chuva da saúde mental acaba deixando de lado o seu significado mais amplo“, diz a especialista na palestra.
A ideia de saúde social, segundo ela, parte justamente dessa compreensão mais ampla. O conceito envolve a qualidade das relações, o senso de pertencimento e a capacidade de criar conexões significativas com outras pessoas. Ao longo da fala, a pesquisadora mostrou como esse tema tem ganhado relevância crescente em diferentes áreas, desde pesquisas acadêmicas até discussões públicas sobre bem-estar.
Dados apresentados durante o painel ajudam a dimensionar a importância da questão. De acordo com pesquisas da Organisation for Economic Co-operation and Development, cerca de 871 mil mortes prematuras por ano estão associadas à solidão e ao isolamento social, um número que evidencia como a falta de conexão pode impactar diretamente a saúde das populações.
Ao mesmo tempo, o interesse pelo tema vem crescendo rapidamente. Buscas pelo termo “saúde social” aumentaram mais de 50% no Google ao longo de 2025, enquanto as conversas online sobre o assunto cresceram cerca de 91%. O conceito também passou a ganhar reconhecimento institucional. A World Health Organization passou a tratar a saúde social como um “pilar perdido” para compreender o bem-estar humano, ao lado da saúde física e mental.
Apesar desse avanço no debate, os dados globais ainda revelam desafios importantes. Levantamentos da própria World Health Organization indicam que uma em cada seis pessoas no mundo se sente sozinha, enquanto cerca de 8% da população global afirma não ter amigos próximos. Ao mesmo tempo, há sinais positivos: 90% das pessoas dizem ter alguém a quem recorrer quando precisam de ajuda, e oito em cada dez afirmam estar satisfeitas com suas relações pessoais.
A especialista também apontou que discutir saúde social exige pensar em estratégias práticas para fortalecer conexões humanas. Entre as oportunidades destacadas está a necessidade de introduzir esse tema desde cedo nas escolas, incentivando o desenvolvimento de empatia, afeto e habilidades de relacionamento entre crianças e jovens.
Outro ponto importante envolve a forma como a tecnologia influencia essas relações. Como grande parte das interações acontece hoje no ambiente digital, o desafio passa a ser utilizar plataformas e redes sociais para aproximar pessoas e fortalecer vínculos, em vez de ampliar sentimentos de isolamento.
Esse debate também se conecta ao avanço da inteligência artificial nas interações humanas. Dados da VML indicam que 37% da geração Z conseguem se imaginar se apaixonando por uma inteligência artificial, um cenário que levanta novas reflexões sobre o futuro das relações.
Para a pesquisadora, discutir saúde social se torna cada vez mais urgente justamente nesse contexto. À medida que tecnologias transformam a forma como as pessoas se comunicam e se relacionam, entender o valor das conexões humanas passa a ser essencial para pensar o futuro da saúde e do bem-estar coletivo.

