Cada vez mais presente na publicidade, a ilustração vem conquistando espaço em campanhas, eventos e projetos que antes eram dominados quase exclusivamente pela fotografia. Mais do que um recurso visual, ela se tornou uma linguagem capaz de traduzir identidades, criar universos e aproximar marcas de diferentes públicos.
Entre os profissionais que acompanham esse movimento está o ilustrador e designer gráfico cearense Pevê Azevedo. Natural de Sobral e atualmente radicado em São Paulo, ele construiu uma carreira que hoje passa por campanhas para marcas como Midea e São Geraldo, além de projetos ligados às Olimpíadas de Paris e ao Rock in Rio. Apesar da dimensão nacional dos trabalhos, as referências do Ceará continuam ocupando um lugar central em seu processo criativo.
Antes de viver exclusivamente da ilustração, Pevê trabalhou por mais de dez anos como diretor de arte em agências de publicidade. A experiência ajudou a desenvolver seu olhar para o design, mas foi a decisão de apostar em um caminho mais autoral que permitiu construir um estilo próprio, marcado pela mistura entre Pop Art, modernismo e elementos da cultura brasileira.
Em entrevista ao Nosso Meio, o artista fala sobre a influência das suas origens, os desafios de equilibrar criatividade e demandas comerciais, a crescente valorização da ilustração na publicidade e por que acredita que manter viva a própria identidade é um dos maiores diferenciais para quem deseja construir uma carreira criativa.
Confira a entrevista:
Nosso Meio: O que de Sobral e do Ceará continua presente no seu traço hoje, mesmo depois de tantos anos vivendo em São Paulo, e como você percebe essa herança aparecendo nas cores, nas texturas e nos personagens que cria?
Peve Azevedo: Primeiramente, no meu sotaque. Não perdi nada do jeito cearense de falar, mesmo depois de tantos anos aqui. Mas, na minha ilustração, acho que o que mais carrega essa herança cearense é o ‘calor’ e o fato de eu estar sempre buscando transmitir uma pequena alegria, por menor que seja, em tudo o que faço.
Nosso Meio: Antes de virar ilustrador em tempo integral, você passou mais de dez anos como diretor de arte em agências. O que motivou a decisão de dar esse salto por volta de 2018, e o que a vivência de agência te deu que ainda sustenta o seu trabalho como ilustrador hoje?
Peve: Eu nunca me encontrei 100% em uma agência de publicidade. Sempre achava a dinâmica engessada demais e, muitas vezes, careta. Sentia falta de uma liberdade que me permitisse realmente deixar fluir tudo o que estava na minha cabeça. Em Sobral, não havia nada parecido com isso. Então fui para Fortaleza cursar Publicidade, que era o mais próximo que encontrei.
Consegui construir uma boa base e desenvolver meu critério visual. Quando me senti preparado para dar esse passo a mais, decidi vir para São Paulo, onde o mercado já era muito mais estruturado para essa área. Até hoje, o que permanece no meu trabalho é exatamente esse critério visual voltado para o design. Sempre uso muito design nas minhas ilustrações e devo bastante disso aos meus anos de agência.
Nosso Meio: Você descreve seu estilo como uma mistura de Pop Art, Modernismo e elementos brasileiros, e diz que desenha com dois objetivos: fazer as pessoas se sentirem bem ou fazê-las pensar. Como você decide qual desses caminhos seguir em cada projeto e como equilibra sua assinatura autoral com aquilo que cada marca precisa comunicar?
Peve: Quando é um trabalho comercial, muitas vezes não temos tanta liberdade para fazer tudo 100% do nosso jeito. Normalmente, as marcas já chegam com um briefing bem definido sobre o que estão buscando nas ilustrações. Às vezes é apenas uma ilustração de apoio, às vezes algo mais visual e alegre e, em outros casos, algo mais voltado para a reflexão. Em trabalhos comerciais, é menos comum misturar tudo isso em um mesmo conceito.
Quando é um trabalho pessoal, acho que depende muito do tema e do que quero transmitir com aquela ilustração. Mas sempre tento colocar um pouco de tudo.
Nosso Meio: Na campanha de São João da São Geraldo, “No São João a gente veste o Nordeste”, você foi um nordestino ilustrando o próprio Nordeste para uma marca da região. O que muda no seu processo quando o trabalho fala diretamente da sua terra e como você lida com a responsabilidade de representar essa cultura sem cair no estereótipo?
Peve Azevedo: Acho que, quando o assunto é algo tão meu, o processo acaba sendo até mais fácil. Eu meio que já sei internamente o que quero e preciso comunicar. Então, basicamente, preciso buscar elementos que transmitam isso.
O fato de ser algo que realmente vivi, e continuo vivendo, ajuda muito a entender o que está abaixo da superfície, onde normalmente ficam os estereótipos. Tento sempre colocar detalhes que só quem é do Nordeste vai entender, mesmo quando as ilustrações representam outros estados que não são o Ceará.
Nesses casos, faço pesquisas realmente aprofundadas sobre costumes, tradições e pessoas, evitando sempre recorrer aos conceitos mais estereotipados.
Nosso Meio: Agora na Copa, com a Midea, e antes em projetos como as Olimpíadas de Paris e o Rock in Rio, seu traço chegou a eventos de grande visibilidade. O que representa para você levar uma linguagem tão pessoal para projetos dessa escala?
Peve Azevedo: É uma grande realização. Quando comecei, imaginava que demoraria bem mais para alcançar esse nível de visibilidade. Fico muito feliz em saber que estou conseguindo atingir tantas pessoas.
Em relação às exigências, acho que continuam sendo basicamente as mesmas, só que em uma proporção muito maior: pesquisa, compromisso com o trabalho, descanso e qualidade na entrega final. Tendo tudo isso, qualquer trabalho pode ser bem-feito.
Nosso Meio: A ilustração vem ganhando cada vez mais espaço na publicidade brasileira, ocupando lugares que antes eram quase exclusivos da fotografia. Como você enxerga esse movimento do mercado e o que significa construir uma carreira reconhecida nacionalmente?
Peve Azevedo: Acho que a ilustração tem conquistado esse espaço porque consegue expandir um universo no qual a fotografia encontra certos limites. Você só consegue chegar até determinado lugar com a fotografia, enquanto, na ilustração, praticamente não há limites. Tudo o que você imagina pode ser ilustrado, mas nem sempre pode ser fotografado.
Para mim, ter meu trabalho reconhecido nacionalmente é algo que, alguns anos atrás, seria inimaginável. Acho que o que isso mais representa é realização. Hoje consigo trabalhar com o que realmente amo, de casa, e levar meu estilo para projetos de grandes marcas.
Nosso Meio: Olhando para frente, onde você quer levar o seu trabalho nos próximos anos? E que mensagem deixaria para os jovens que sonham viver de ilustração, mas acham que precisam abrir mão das próprias origens para isso?
Peve Azevedo: Quero levar meu trabalho até onde eu conseguir. Quero expandir o máximo possível, participar de grandes campanhas globais e fazer com que o mundo conheça meu trabalho. Também tenho muita vontade de voltar a fazer trabalhos editoriais, agora para jornais internacionais. É algo que sempre quis.
Sobre as origens, para mim acontece exatamente o contrário do que muita gente imagina. Não esquecer de onde você veio ajuda muito no crescimento dentro do mercado criativo, porque só você conhece as próprias vivências, e são elas que permitem criar coisas realmente únicas.
Lembro que, quando fazia inúmeras explorações tentando encontrar um estilo próprio, os momentos em que mais me sentia desconectado, sem criatividade e achando ruim tudo o que produzia eram justamente aqueles em que deixava minhas origens de lado.
Quando você se lembra de quem é, fica muito mais fácil encontrar um estilo que realmente te represente.
