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Do sertão ao mercado global: como o Ceará virou potência agrícola no semiárido

Por Redação

26/05/2026 09h00

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Existe uma narrativa consolidada sobre o Nordeste que os números do agronegócio cearense estão desfazendo em tempo real. A ideia de que o semiárido é uma limitação estrutural para a produção agrícola começa a soar cada vez mais como uma premissa ultrapassada, confrontada por dados que apontam para uma transformação silenciosa e acelerada de toda uma economia regional.

Em dez anos, o PIB do agronegócio cearense saltou de R$ 4,9 bilhões para R$ 12,2 bilhões, avanço de 148%, segundo levantamento do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste, o Etene, vinculado ao Banco do Nordeste. O crescimento médio do setor superou 6% ao ano entre 2013 e 2023, ritmo acima do registrado por comércio e indústria no mesmo período. Segundo o economista Allisson Martins, que apresentou os dados no evento Cresce Ceará, o desempenho do agro cearense vem ocorrendo em velocidade muito superior à dos demais setores da economia local, enquanto indústria e comércio crescem em ritmo mais moderado.

O que explica esse desempenho em uma região historicamente associada à escassez hídrica e à vulnerabilidade climática? A resposta está em uma combinação de tecnologia, infraestrutura logística, acesso a crédito e uma aposta consistente na fruticultura irrigada como vetor de exportação e geração de renda.

O melão é o símbolo mais visível dessa transformação. Em 2026, as exportações cearenses de melão já somam US$ 90,94 milhões em apenas cinco meses, valor que supera todo o montante exportado durante o ano de 2025, que fechou em US$ 85,67 milhões. O estado ocupa hoje a posição de segundo maior exportador nacional da fruta, e a região de Morada Nova se prepara para ampliar ainda mais as áreas de plantio neste ciclo de irrigação. “Os números de 2026 são excepcionais. Somos o segundo maior exportador do Brasil e o apoio do Governo, aliado à tecnologia de irrigação, é o que garante que o Ceará continue batendo recordes neste segmento”, afirmou Silvio Carlos Ribeiro, secretário em exercício da Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará.

O melão não está sozinho nessa equação. O agronegócio cearense movimentou cerca de R$ 2,51 bilhões em exportações entre janeiro e novembro de 2025. A castanha de caju respondeu por R$ 371 milhões, com crescimento de 88,84%, mantendo o Ceará como responsável por mais de 94% das exportações brasileiras do produto. A cera de carnaúba gerou outros R$ 530 milhões, com crescimento de 35,91%, e o Ceará detém 74% da participação nacional, atendendo principalmente China, Alemanha e Estados Unidos.

A porta de saída dessa produção tem nome e endereço: o Complexo do Pecém. Somente em 2024, mais de 160 mil toneladas de frutas saíram pelo porto do Pecém, representando cerca de R$ 1 bilhão em mercadorias. O hub logístico que combina porto, zona de processamento industrial e conexões internacionais é um dos pilares que diferenciam o agronegócio cearense de outras regiões produtoras do Nordeste, reduzindo custos de escoamento e ampliando a competitividade no mercado europeu e norte-americano.

O impacto vai além da balança comercial. Protocolos firmados pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico do Ceará envolvem R$ 10,3 bilhões em investimentos previstos no setor, com potencial de 11,9 mil empregos diretos. A expansão da fruticultura irrigada em Morada Nova já responde por 1,6 mil postos de trabalho, com projeção de crescimento nos próximos anos.

O que o agronegócio cearense está construindo é um modelo que desafia a lógica geográfica tradicional: produzir com escala, qualidade e conectividade internacional em um território que o senso comum classificaria como adverso. O semiárido não deixou de ser desafiador. Mas deixou de ser um impeditivo. E essa distinção, do ponto de vista de negócios, faz toda a diferença.