Análise

Entre fatos e versões: os caminhos do jornalismo em ano eleitoral

Por Lucas Abreu

07/04/2026 17h47

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No Dia do Jornalista, profissionais refletem sobre os desafios da cobertura eleitoral em 2026, marcada pela desinformação, inteligência artificial e crise de confiança no debate público

O que separa o fato de uma narrativa?

Em ano eleitoral, essa deixa de ser uma pergunta abstrata e passa a ser uma disputa concreta. Em 2026, milhões de brasileiros voltam às urnas para definir o Congresso e o Executivo, enquanto versões concorrentes da realidade circulam duas vezes mais rápido que em décadas passadas. E em um cenário marcado pela polarização, pela desinformação e pelo avanço de conteúdos gerados por inteligência artificial, o jornalismo enfrenta um desafio direto: informar sem reforçar o ruído.

“Eu acredito que o jornalismo precisa abandonar essa falsa neutralidade diante do que é comprovadamente falso e assumir um papel mais ativo na mediação do debate. Na prática, isso significa investir em checagem contínua, contextualização aprofundada e explicação, não apenas exposição, dos fatos. É menos sobre dar palco e mais sobre qualificar o que vai ao ar”, afirma Maria Carolina Rossi, jornalista e sócia-fundadora da Comunica PR.

“Outro ponto central também é a curadoria. Em vez de replicar declarações ou polêmicas, o jornalismo deve filtrar relevância e impacto, evitando amplificar narrativas que se sustentam apenas no conflito. Também passa por diversificar fontes e vozes, fugindo de bolhas previsíveis e ampliando a complexidade do debate público”, complementa Beatriz Destefani, também jornalista e sócia-fundadora da Comunica PR.

Como fazer a verdade atravessar as crenças?

Cunhada em 1992 pelo dramaturgo Steve Tesich, a pós-verdade descreve um cenário em que, como sociedade, os fatos objetivos passam a ter menos peso do que crenças e emoções. Guiadas por algoritmos, as redes sociais acentuaram esse fenômeno ao inserir os usuários em bolhas digitais, reduzindo o contato com visões divergentes e reforçando narrativas dentro dos mesmos grupos. Nesse ambiente, a cobertura eleitoral passa a enfrentar um desafio central: informar em meio a percepções já cristalizadas, onde nem sempre o fato é suficiente para romper convicções.

Diante desse cenário, o desafio do jornalismo deixa de ser apenas informar e passa a envolver também a reconstrução da confiança no processo de apuração.

“O jornalismo precisa deixar de ser apenas um ‘emissor de verdades’ e passar a ser também um garantidor de processos. O público confia menos no que é dito e mais em como a informação foi construída. Além dos pilares clássicos como transparência, o público precisa também entender o processo de apuração para que entendam de onde vem a informação, como também a técnica por trás do conteúdo. Isso significa explicar como um vídeo foi manipulado por IA ou como um algoritmo tende a nos isolar nas redes sociais. Ao entender esses mecanismos, o público valoriza quem o ensinou a não ser enganado”, defende o diretor de jornalismo da Record Brasília, Roberto Munhoz.

Como resgatar a realidade quando a artificialidade ganha força?

O Brasil está entre os países que mais utilizam inteligência artificial no mundo, segundo dados da pesquisa Our Life With AI: From Innovation to Application. O país ocupa a quarta posição entre adultos que afirmam ter utilizado IA generativa no último ano. Com o avanço dessas tecnologias, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu, em março, regras para o uso de ferramentas de IA durante as eleições gerais de outubro. Nesse contexto, o jornalismo enfrenta um novo desafio: garantir a integridade da informação em um ambiente onde conteúdos manipulados podem interferir diretamente no processo eleitoral.

“O avanço das ferramentas de inteligência artificial generativa não é apenas um desafio, mas também uma preocupação. Nesse cenário, as redações precisam institucionalizar a desconfiança técnica, até porque hoje é quase impossível diferenciar um conteúdo real dos gerados pelas IAs. Em qualquer situação, a velha máxima do jornalismo precisa ser levada ao extremo: acionar o ‘deconfiômetro’, checar a fonte e rastrear o fato”, comenta Isabela Martins, diretora de jornalismo do Sistema Jangadeiro.

“Existe também a necessecidade de estabelecer parcerias com a Justiça eleitoral e com sistemas de alertas sobre fatos mentirosos, como o do TSE, para denunciar e monitorar redes de desinformação que atacam a integridade do processo eleitoral. Além disso, podemos também adotar ferramentas que identifiquem conteúdos adulterados (áudios e vídeos manipulados) para alertar o público antes que o conteúdo viralize sem controle”, complementa Roberto Munhoz.

Como proteger a reputação em épocas de polarização?

Em ano eleitoral, a polarização se intensifica e amplia a pressão sobre marcas e instituições. Narrativas distorcidas, recortes fora de contexto e conteúdos desinformativos circulam com mais força e, muitas vezes, encontram terreno fértil em públicos já inclinados a acreditar neles. Nesse cenário, organizações passam a operar sob exposição constante, onde qualquer posicionamento ou a ausência dele pode ser rapidamente interpretado e amplificado. Proteger a reputação, portanto, deixa de ser apenas uma questão de imagem e passa a exigir estratégia, consistência e capacidade de resposta em um ambiente onde comunicação e disputa política se sobrepõem.

“Acompanhar o que está sendo dito, sobre a marca e sobre o contexto, permite respostas mais rápidas e assertivas. Em ano eleitoral, o silêncio também comunica, e a ausência de posicionamento pode ser interpretada de diferentes formas. Além disso, consistência é chave. Mudanças bruscas de tom ou discurso tendem a gerar desconfiança. Em um cenário polarizado, coerência vale mais do que oportunismo”, aconselha Beatriz Destefani.

“Confiança não se reconstrói com discurso, mas com consistência. Isso significa comunicar com transparência, assumir erros quando necessário e, principalmente, manter coerência ao longo do tempo. A credibilidade é acumulativa e qualquer ruptura pesa mais do que anos de construção. A comunicação precisa reconhecer a complexidade do cenário e tratar o público como participante ativo, não apenas receptor”, afirma Maria Carolina Rossi.

De que forma o território molda a forma de fazer jornalismo em ano eleitoral?

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a cobertura eleitoral não se dá de forma uniforme. Embora o processo democrático seja nacional, as dinâmicas locais, os interesses regionais e a relação direta com o cotidiano da população moldam diferentes formas de fazer jornalismo. Entre a proximidade com o público e a complexidade dos centros de poder, o território deixa de ser apenas cenário e passa a influenciar diretamente prioridades, abordagens e critérios editoriais.

“O foco no hiperlocal é uma necessidade e uma forma inteligente de se aproximar da audiência porque é “no local” onde as pessoas vivem. É pelo transporte coletivo, a coleta de lixo, o bom funconamento dos serviços de saúde que elas se interessam. Questões nacionais podem e devem ser abordadas na medida em que refletem na vida cotidiana, desde que sejam traduzidas e territorializadas”, aponta Isabela Martins.

“Diferentemente do que ocorre no resto do país, o jornalismo de Brasília é segmentado, setorizado. Quanto mais especialista você for na cobertura de determinado Poder, mais chance você tem de acertar no teu trabalho. Respeitar os processos também é fundamental. Uma pauta não fica de pé apenas com as informações trazidas por quem sugeriu. Ela passa por checagem de provas, de relevância, de abrangência e por vários setores antes de se consolidar. Se todos os processos forem bem cumpridos, dificilmente cairemos na cilada do interesse individual”, finaliza Roberto Munhoz.