Durante décadas, a favela foi tratada pelo mercado brasileiro sob a lógica da carência, da assistência ou do risco. Agora, na visão da Favela Holding, esse olhar começa a mudar — ainda que lentamente. Em entrevista ao Nosso Meio, Leo Ribeiro, sócio e CEO da empresa, defende que as periferias deixaram de ocupar apenas o lugar de consumidoras para se consolidarem como centros de inteligência, inovação e desenvolvimento econômico.
Com atuação em diferentes regiões do país, a empresa aposta na conexão entre empreendedorismo, impacto social e geração de riqueza local para estruturar o que define como um “capitalismo de proximidade”. A tese é direta: o futuro dos negócios no Brasil passa pela capacidade das marcas de compreender a favela não como pauta social, mas como parte estratégica da infraestrutura econômica do país.
NOSSO MEIO | A Favela Holding atua em diferentes regiões do país conectando empreendedorismo, impacto social e desenvolvimento econômico. Como surgiu a visão de transformar a favela em um ecossistema estratégico de negócios?
Leo Ribeiro: A visão de transformar a favela em um ecossistema estratégico de negócios nasceu de uma constatação simples, mas poderosa: a favela nunca foi um lugar de carência, mas de potência represada.
Durante anos, o mercado olhou para essas favelas apenas sob a ótica da assistência social ou da segurança pública. No entanto, o que Celso Athayde percebeu — e o que a Favela Holding sistematizou — foi que ali reside um dos maiores mercados consumidores e empreendedores do Brasil. A visão surgiu da necessidade de criar uma ponte logística, cultural e econômica que permitisse às grandes marcas entrarem na favela com respeito e eficiência, e aos empreendedores locais escalarem seus negócios.
Não estamos apenas fazendo negócios, estamos provando que o desenvolvimento econômico e o impacto social são indissociáveis. Quando transformamos a favela em um ecossistema estratégico, estamos gerando riqueza que circula dentro da própria favela, criando um ciclo virtuoso de autonomia e protagonismo.
NOSSO MEIO | Na sua visão, o que sustenta projetos e marcas relevantes em territórios marcados por transformação constante e desafios estruturais?
Leo Ribeiro: Para nós, a arquitetura da longevidade em territórios de transformação constante não é feita de concreto, mas de legitimidade e adaptabilidade. O que sustenta marcas e projetos relevantes nesses contextos são três pilares fundamentais: o primeiro é escuta ativa e cocriação: projetos longevos na favela não são feitos para a favela, mas com a favela. A relevância vem da capacidade de entender as dores e potências locais, transformando o morador em protagonista do processo de negócio, e não apenas em consumidor final.
O segundo é impacto real na ponta: uma marca só se torna perene em um território de desafios estruturais se ela entrega valor tangível. Longevidade aqui é sinônimo de confiança; e a confiança é construída quando o desenvolvimento econômico gera melhora direta na qualidade de vida e geração de renda local.
Por último, agilidade e flexibilidade: Em ambientes de mudança rápida, a rigidez é um risco. Marcas relevantes são aquelas que possuem capilaridade e fluidez para se adaptar às transformações sociais e tecnológicas do território sem perder sua essência.
Na Favela Holding, acreditamos que a longevidade de um ecossistema de negócios depende da sua capacidade de ser socialmente necessário e economicamente viável. Se o negócio resolve um problema real da base da pirâmide e gera prosperidade compartilhada, ele não é apenas um projeto passageiro; ele se torna parte da infraestrutura de desenvolvimento daquela sociedade.
A longevidade na favela é medida pela profundidade das raízes que você cria na favela, e não pelo tamanho da placa que você pendura na entrada.
NOSSO MEIO | Durante muito tempo, as favelas foram retratadas apenas pela ótica da vulnerabilidade. O que ainda falta para que o mercado e as grandes empresas enxerguem plenamente a potência econômica e criativa desses territórios?
Leo Ribeiro: Para a Favela Holding, o diagnóstico é que o problema não está na favela, mas na lente de quem olha para ela. O que ainda falta é a quebra de um paradigma colonial que enxerga a favela como um lugar de falta, quando, na verdade, ela é um lugar de excesso: excesso de criatividade, de resiliência e de consumo. Para que o mercado enxergue essa potência plenamente, precisamos superar três barreiras principais:
1. O viés inconsciente (e o consciente): muitas empresas ainda operam sob o estigma. Elas veem a favela como um território de risco, e não de oportunidade. O mercado precisa entender que o “risco” real é ignorar um público que movimenta bilhões anualmente e que dita tendências culturais para o mundo todo.
2. Dados e métricas adequadas: as ferramentas tradicionais de pesquisa de mercado muitas vezes não conseguem captar a economia informal e as dinâmicas de consumo locais. Falta investir em inteligência de dados que venha de dentro para fora, traduzindo o comportamento desse consumidor de forma fiel.
3. A presença física e emocional: não se entende a favela via planilha. Falta as empresas ‘subirem o morro’ não para fazer assistencialismo, mas para estabelecer relações comerciais genuínas. O mercado precisa parar de falar sobre a favela e começar a falar com a favela.
Quando uma grande marca entende que o morador da favela é um cliente exigente e um parceiro estratégico, a chave vira. O que falta, em resumo, é o mercado trocar a lente da caridade pela lente da oportunidade.
NOSSO MEIO | A atuação da Favela Holding passa muito pela construção de conexão real com as favelas. Em um cenário de excesso de discursos e ações superficiais, como diferenciar impacto genuíno de oportunismo de marca?
Leo Ribeiro: A Favela Holding é o filtro que garante a autenticidade nessa relação. A diferença entre impacto genuíno e oportunismo de marca reside em três pilares: permanência, profundidade e divisão de dividendos. No cenário atual, as favelas desenvolveram um “radar” muito aguçado para ações superficiais.
O oportunismo é sazonal; ele aparece no Dia da Consciência Negra ou em momentos de tragédia, e depois desaparece. O impacto genuíno é uma construção de longo prazo. Uma marca relevante não faz apenas uma ação na favela; ela estabelece uma operação, cria raízes e permanece lá quando as câmeras se desligam.
No oportunismo, a favela é usada como cenário para o marketing da empresa. No impacto genuíno, a favela é a protagonista. Isso significa contratar mão de obra local, investir em fornecedores da favela e garantir que a inteligência do projeto também venha de dentro.
A métrica mais honesta para diferenciar os dois é observar para onde flui o resultado financeiro. Se a marca lucra com a imagem da favela, mas a riqueza não circula e não permanece no território, é oportunismo. Impacto real gera prosperidade compartilhada — é quando o sucesso da empresa está diretamente atrelado à ascensão econômica do morador.
Na Favela Holding, nós atuamos como esse selo de legitimidade. Nós não aceitamos projetos que buscam apenas uma foto bonita; nós estruturamos negócios onde a marca entra com o capital e o know-how, e a favela entra com a competência e a execução. Se a vida de quem está na ponta não mudou para melhor, não é impacto, é apenas publicidade.
NOSSO MEIO | Brasília concentra decisões políticas e econômicas que impactam todo o país, mas também abriga algumas das maiores periferias urbanas do Brasil. Como você enxerga o potencial da capital quando falamos em inovação, empreendedorismo periférico e transformação social?
Leo Ribeiro: Brasília costuma ser vista pelo Brasil apenas como o centro das decisões políticas, mas quem vive o dia a dia do Distrito Federal sabe que a verdadeira força de inovação e resiliência está pulsando nas suas periferias e favelas, como Sol Nascente, A segunda maior favela do Brasil, com 70.908 habitantes. O potencial da capital para o empreendedorismo periférico é gigantesco e, muitas vezes, subestimado.
O que nós fazemos na Favela Holding, em parceria com a CUFA, é justamente lançar luz sobre essa potência. Quando falamos em transformação social, Brasília tem uma oportunidade única: conectar a capacidade de investimento e a estrutura do “asfalto” — que na capital inclui tanto grandes marcas quanto o próprio ecossistema institucional — à inteligência e criatividade que já existem na periferia.
Mudar a matriz econômica da favela em Brasília significa transformar o que hoje é uma economia informal de subsistência em negócios estruturados e sustentáveis. A inovação não está apenas nos grandes centros tecnológicos; ela nasce da necessidade, na periferia. Nosso papel é ser a ponte que valida essa potência, garantindo que o desenvolvimento econômico do DF seja, de fato, inclusivo e que a riqueza gerada pela favela retorne e permaneça nela.
NOSSO MEIO | A economia da favela movimenta bilhões no Brasil e vem ganhando cada vez mais relevância. Que mudanças você percebe hoje na relação entre grandes marcas e os territórios periféricos?
Leo Ribeiro: A principal mudança que percebo é a transição da concessão para a convicção. Se antes as marcas olhavam para a favela por uma obrigação de “responsabilidade social”, hoje elas olham por uma necessidade de sustentabilidade do negócio. Notei três movimentos fundamentais nessa nova relação:
O primeiro deles: a favela como laboratório de inovação. As marcas perceberam que a escassez de recursos na periferia gerou uma criatividade sem precedentes. Hoje, grandes empresas buscam nas favelas soluções de logística, métodos de pagamento e linguagens de comunicação que depois são replicadas no asfalto. A favela não é mais apenas o destino final do produto, passa a ser também um centro de inteligência.
Segundo: o fim do “marketing de prateleira”. As marcas entenderam que não basta colocar um outdoor na entrada da favela. Elas estão aprendendo a adaptar seu portfólio. Percebemos uma busca maior por customização: comunicação que fala a língua real das pessoas do território (favelês), sem caricaturas.
E terceiro: reconhecimento do poder de compra. O mercado finalmente parou de subestimar o bolso do morador. Com bilhões circulando anualmente, a favela deixou de ser vista como um ‘público de assistência’ para ser tratada como um consumidor exigente e fiel. Marcas que oferecem qualidade e respeito ganham uma lealdade que raramente se vê em outros extratos sociais.
Na Favela Holding, vemos que o diálogo amadureceu. As empresas pararam de perguntar “como eu posso ajudar a favela?” e começaram a perguntar “como eu posso ser parceiro da favela?”. Essa mudança de mentalidade é o que realmente vai destravar o próximo nível do PIB brasileiro.
NOSSO MEIO | Olhando para o futuro, qual será o principal desafio para construir negócios mais conectados com a realidade social brasileira — e menos distantes das pessoas que movimentam a economia no dia a dia?
Leo Ribeiro: O principal desafio para o futuro não é mais técnico ou logístico, mas cultural e estrutural. Para construir negócios verdadeiramente conectados com o Brasil real, o mercado precisará enfrentar o desafio da desconcentração.
Isso se desdobra em três pontos críticos:
- Diversidade na tomada de decisão: não basta que as empresas vendam para a favela; é preciso que as pessoas que vêm da favela e das periferias ocupem as cadeiras de diretoria e os conselhos de administração. O maior desafio é o mercado aceitar que a inteligência estratégica para o futuro do Brasil está nas mãos de quem vive o dia a dia desses territórios. Sem diversidade no topo, os negócios continuarão tendo uma visão “turística” da realidade social.
- A democratização do crédito e investimento: hoje, o empreendedor da favela movimenta bilhões, mas ainda encontra barreiras imensas para acessar crédito bancário ou capital de risco. O desafio do futuro é criar mecanismos financeiros que entendam as garantias e as dinâmicas da periferia, permitindo que esses negócios locais ganhem escala global.
- A superação da lógica de “nós e eles”: o futuro exige uma integração total. O desafio é parar de ver a favela como um “mercado à parte” e entendê-la como parte indissociável da infraestrutura do país. Negócios conectados com a realidade social brasileira serão aqueles que entenderem que o sucesso de uma marca está diretamente ligado à diminuição do abismo de desigualdade.
Na Favela Holding, acreditamos que o futuro do capitalismo brasileiro é o capitalismo de proximidade. O desafio será humanizar as relações comerciais a ponto de as empresas não serem apenas fornecedoras, mas vizinhas e parceiras no desenvolvimento de cada território.
