Rodrigo Cunha construiu sua trajetória acompanhando de perto as transformações do consumo em duas das regiões mais dinâmicas do país. À frente da Romazi, empresa que se consolidou como uma das principais indústrias e fabricantes de materiais elétricos do Norte e Nordeste, ele observa um movimento que vai além dos indicadores econômicos: a valorização da identidade regional, o fortalecimento das relações de confiança e o crescimento da influência nordestina nas estratégias empresariais. Nesta entrevista, o executivo reflete sobre os desafios de compreender um consumidor cada vez mais conectado, a importância da presença física em um mundo digital e as mudanças que devem moldar o futuro dos negócios na região.
NOSSO MEIO: Na sua visão, o que mudou nos últimos anos para que o Nordeste deixasse de ser visto apenas como mercado consumidor e passasse a ocupar um papel mais relevante na construção de estratégias nacionais?
Rodrigo Cunha: O Nordeste sempre teve relevância; o que mudou foi a forma como o resto do país passou a enxergar isso. Quem empreende aqui gerou renda, formalizou negócios e criou uma nova classe consumidora, com empresas nascidas na região crescendo em escala nacional. A região deixou de ser apenas destino do produto fabricado em outro lugar e passou a ser também lugar de produção e de decisão. Quando os dados de consumo da região mostraram constância mesmo nas crises, ficou claro que ignorá-la era um erro estratégico.
NOSSO MEIO: A Romazi se posiciona como a maior empresa do segmento no Norte e Nordeste. Em um mercado cada vez mais competitivo e pulverizado, qual foi a principal decisão estratégica que permitiu à empresa construir essa liderança regional?
Rodrigo Cunha: A decisão central foi tratar a proximidade como vantagem competitiva. Em vez de competir só por preço contra os grandes, investimos em capilaridade, presença física e relacionamento próximo com o lojista. Também não tentamos replicar o modelo do Sudeste, construímos uma operação pensada para a realidade daqui, e foi isso que sustentou a liderança.
NOSSO MEIO: Muitas marcas ainda desenvolvem campanhas e experiências a partir de uma lógica centralizada nos grandes centros do Sudeste. Que erros costumam ser cometidos quando empresas tentam falar com o consumidor nordestino sem compreender as particularidades culturais da região?
Rodrigo Cunha: O erro mais comum é tratar o Nordeste como um bloco único e recorrer à caricatura — sol, sotaque, folclore — em vez de entender de fato o consumidor. Pegar uma campanha do Sudeste e só trocar o sotaque não é regionalizar, e o público percebe. Outro equívoco é achar que sensibilidade a preço significa menos exigência. O consumidor daqui compra de quem confia, e essa confiança leva tempo e presença para ser construída.
NOSSO MEIO: A Romazi atua tanto no Nordeste quanto no Norte do país. Embora frequentemente sejam agrupadas em análises de mercado, essas regiões possuem características distintas. Quais diferenças de comportamento, consumo e relacionamento com as marcas mais chamam sua atenção quando compara esses dois públicos?
Rodrigo Cunha: São regiões distintas, ainda que costumem ser agrupadas. No Norte, distância e logística pesam mais, e o que fideliza é a garantia de abastecimento. No Nordeste, mais denso e competitivo, reputação e relacionamento têm peso maior na decisão. Quem trata as duas com a mesma estratégia tende a errar nas duas.
NOSSO MEIO: Hoje, consumidores são impactados por milhares de mensagens todos os dias. Nesse contexto, qual é o papel da experiência física e da presença visual das marcas na construção de relevância e conexão com as pessoas?
Rodrigo Cunha: O excesso de mensagens cansa, e no fim o que fica na cabeça do cliente é aquilo que ele vê e toca. Por isso a presença física continua pesando tanto: o produto bem-posto na prateleira, a loja organizada, a marca presente onde a compra acontece. Na Romazi a gente investe muito em trade marketing exatamente por isso — é no ponto de venda, na hora da decisão, que a marca se prova para quem está comprando.
NOSSO MEIO: Em um cenário dominado por inteligência artificial, automação e plataformas digitais, existe espaço para que a experiência presencial se torne ainda mais valiosa? Como você enxerga essa relação entre o avanço tecnológico e a necessidade de criar conexões concretas com o consumidor?
Rodrigo Cunha: Sim. Quanto mais as coisas se automatizam, mais elas se parecem entre si — e aí o atendimento humano e a experiência presencial passam a ser o diferencial. Uso tecnologia para tirar a equipe da operação repetitiva e liberar tempo para o relacionamento direto com o cliente, que é onde a confiança realmente se constrói. Tecnologia e presença não competem; uma sustenta a outra.
NOSSO MEIO: Ao longo da trajetória da Romazi, houve algum projeto, iniciativa ou transformação interna que tenha mudado a forma como a empresa compreende o mercado e o papel que desempenha na jornada das marcas? O que essa experiência ensinou?
Rodrigo Cunha: A grande mudança dos últimos anos foi o investimento massivo em controle de qualidade, em marketing e na profissionalização e capacitação das pessoas da empresa. Foi essa combinação que fez a Romazi fincar o pé como uma das mais relevantes do cenário nacional. A lição é que o produto abre a porta, mas o que sustenta a relevância é a consistência da qualidade, da marca e das pessoas por trás dela.
NOSSO MEIO: Quando você observa o Nordeste dos próximos dez anos, qual mudança de comportamento ou dinâmica de consumo acredita que será mais determinante para os negócios da região — e que muitas empresas ainda não estão percebendo?
Rodrigo Cunha: Muitas empresas ainda enxergam o Nordeste como mercado de preço baixo, e acho que essa leitura vai ficar para trás. A inclusão digital está chegando ao interior ao mesmo tempo em que cresce um orgulho regional que influencia a decisão de compra. O consumidor não quer mais ser tratado como mercado secundário em relação ao Sudeste, e as empresas que entenderem isso vão se diferenciar
