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“Este momento presente já foi um futuro inimaginável”, dizem especialistas em debate sobre educação

Por Redação

12/03/2026 17h23

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Lyn Jeffery e Maisha T. Winn discutiram como improviso, imaginação e a observação de sinais de mudança podem ajudar a repensar o futuro da educação

A sessão Estratégia nos Tempos de Caos: Imaginando Futuros da Educação, realizada no SXSW, parte de um diagnóstico sobre o momento atual. Em um cenário marcado por transformações rápidas e imprevisíveis, desde recordes históricos de temperatura até avanços tecnológicos que aproximam máquinas da comunicação humana, pensar o futuro da educação exige novas formas de leitura do presente.

Lyn Jeffery no palco no SXSW. Créditos: SXSW

A primeira a subir ao palco foi Lyn Jeffery, diretora do programa Foresight Essentials, do Institute for the Future. Em sua apresentação, a pesquisadora destacou que o contexto contemporâneo, marcado por crises geopolíticas, mudanças econômicas e avanços tecnológicos acelerados, cria um ambiente de incerteza constante. Para ela, esse cenário não deve ser visto apenas como instabilidade, mas também como uma oportunidade para repensar instituições, modelos e estratégias.

Segundo Jeffery, em tempos de caos as organizações precisam desenvolver duas habilidades centrais: improviso e imaginação. O improviso está relacionado à capacidade de responder rapidamente a acontecimentos inesperados. Já a imaginação permite abrir espaço para novas possibilidades, projetando cenários futuros que ainda não existem, mas que podem orientar decisões no presente.

A especialista apresentou três caminhos para quem busca pensar estrategicamente sobre o futuro. O primeiro é olhar para o passado em busca de padrões. A análise histórica permite identificar ciclos e comportamentos recorrentes, oferecendo pistas sobre como determinados fenômenos podem evoluir. Como sintetizou durante a apresentação, olhar para trás ajuda a olhar para o futuro.

O segundo ponto é questionar o presente, especialmente aquilo que ela chamou de zombie ideas. O termo se refere a ideias que já foram refutadas por evidências, mas que continuam circulando e influenciando decisões. Um exemplo citado é a crença de que o aumento da criminalidade pode ser resolvido apenas com mais policiamento, mesmo diante de estudos que apontam a complexidade do problema.

O terceiro passo é imaginar o futuro, exercitando cenários possíveis a partir das transformações já em curso.

Aplicados ao campo educacional, esses três movimentos ajudam a compreender como o setor pode evoluir diante das mudanças atuais. 

Diante dessas transformações, a pesquisadora levantou uma pergunta central: como preparar a educação para as próximas gerações e desenvolver novas narrativas capazes de redefinir o setor? Para ela, o ponto de partida está na observação dos sinais de mudança que surgem nas margens do mainstream. Muitas vezes, são nesses espaços menos visíveis que surgem experimentações capazes de indicar caminhos futuros.

Entre os exemplos citados estão o avanço da inteligência artificial dentro do mercado de trabalho e das universidades e o crescimento da educação voltada para questões ambientais, cada vez mais incorporada aos currículos escolares. Esses movimentos funcionam como indicadores de que novos modelos de aprendizagem e formação profissional já estão em construção.

Maisha T. Winn no palco do SXSW. Créditos: SXSW

Após a apresentação inicial de Jeffery, quem assume o palco é Maisha T. Winn, professora da Stanford University e pesquisadora dedicada a estudar educação, justiça social e comunidades historicamente marginalizadas.

Em sua fala, Winn destacou que seu interesse não está em imaginar o futuro da educação a partir de narrativas de ficção científica ou de projeções distantes. Seu foco está em compreender como esse futuro pode ser construído a partir das experiências de comunidades periféricas, especialmente de crianças negras.

Para contextualizar essa visão, a pesquisadora cita a escritora N. K. Jemisin, no Introduction to How Long ’Til Black Future Month. A referência reforça a ideia de que imaginar o futuro também é um ato político e cultural, sobretudo para grupos historicamente excluídos das narrativas de progresso.

Winn reconhece que os cenários atuais apresentam desafios significativos, como racismo estrutural, desigualdades sociais e transformações tecnológicas que impactam o mercado de trabalho. Ainda assim, sua mensagem central é de construção coletiva. Ela faz um chamado a pais negros, educadores e membros de comunidades para que continuem sonhando e imaginando novos caminhos para a educação das próximas gerações.

E se o futuro já estivesse aqui?

A provocação sugere que muitas transformações que hoje parecem distantes começam, na verdade, em pequenas mudanças que já estão acontecendo no presente.

Na sequência, Winn apresenta a ideia de historical signals, ou sinais históricos. O conceito propõe observar acontecimentos e práticas do passado para identificar caminhos que já foram experimentados por comunidades que precisaram criar soluções educacionais diante da escassez de recursos.

Esses exemplos mostram que, muitas vezes, a inovação educacional surge fora dos centros tradicionais de poder, a partir de iniciativas comunitárias que reinventam práticas de ensino e aprendizagem.

Créditos: SXSW

No momento final da sessão, Jeffery e Winn iniciam uma conversa no palco, aprofundando os conceitos apresentados. Winn retoma a ideia de improviso e imaginação e destaca que, diante de contextos de crise, o desafio não é apenas reagir aos acontecimentos, mas reimaginar o futuro de forma intencional.

Entre as atitudes apontadas por ela estão agir com intenção, ser realista sobre a escala das transformações e reconhecer que a educação das crianças é uma responsabilidade coletiva, que envolve toda a comunidade.

Mesmo diante das incertezas do presente, as especialistas encerraram o debate com uma perspectiva de construção. Para elas, imaginar o futuro não significa prever exatamente o que vai acontecer, mas desenvolver a capacidade coletiva de criar caminhos possíveis. Em meio às mudanças do presente, educadores, comunidades e estudantes continuam experimentando novas formas de aprender, ensinar e colaborar, apontando caminhos para sistemas educacionais mais inclusivos e preparados para os desafios das próximas gerações.