Com trajetórias construídas em áreas que ajudam a interpretar movimentos de mercado e comportamento, Luciane Sallas, diretora-executiva de Investimentos e Planejamento Financeiro da M. Dias Branco; e Rebecca Lyrio, gerente de Estratégias e Produtos Digitais da Rede Bahia/Globo, compartilham nesta edição suas visões sobre uma transformação que já está em curso: a consolidação do Nordeste como um dos principais polos de influência econômica, cultural e de consumo do país. Entre dados, identidade, inovação e conexões genuínas com o público, as executivas refletem sobre os fatores que colocam a região no centro das estratégias empresariais e explicam por que o futuro dos negócios passa, cada vez mais, pela compreensão das múltiplas forças que emergem do Nordeste.
NOSSO MEIO: Durante muito tempo, o Nordeste foi analisado pelo mercado a partir de indicadores de renda. Hoje, se fala mais em comportamento, identidade cultural e capacidade de influência. Na sua avaliação, o que as empresas ainda precisam compreender melhor sobre o consumidor nordestino?
Luciane Sallas: O Nordeste hoje exige uma leitura mais sofisticada do que simplesmente indicadores de renda. Estamos falando de um consumidor cada vez mais conectado, com repertório ampliado e que faz escolhas baseadas também em identidade, pertencimento e valores. O desafio para as empresas é sair de uma lógica mais transacional e evoluir para uma relação de conexão. Isso passa por compreender as especificidades culturais, respeitar as diferenças dentro da própria região e reconhecer a força que o Nordeste tem na construção de tendências. Mais do que atender demanda, é preciso dialogar com esse consumidor de forma autêntica, porque ele reconhece rapidamente quando há consistência e, principalmente, quando não há.
Rebecca Lyrio: O Nordeste não é um mercado único e que se comunica de forma linear, estamos falando de uma região com mais de 57 milhões de pessoas, múltiplas realidades econômicas, culturais e comportamentais. Durante muito tempo, a análise esteve concentrada na renda, hoje o que diferencia o consumidor nordestino é sua capacidade de influenciar cultura, tendências e conversas que repercutem nacionalmente. As empresas devem compreender que relevância não nasce apenas do poder de compra, mas da conexão cultural e isso faz o Nordeste assumir um papel de destaque, já que é um dos maiores produtores de conteúdo, criatividade e engajamento do país. Quem chega apenas para adaptar uma campanha nacional perde a oportunidade de construir uma comunicação genuína, capaz de gerar identificação e valor de marca.
NOSSO MEIO: O tema desta edição aponta para o Nordeste como um novo eixo estratégico do consumo. Na prática, o protagonismo regional nasce do crescimento econômico ou da capacidade de produzir tendências, cultura e novas formas de relacionamento com o mercado?
Luciane Sallas: O protagonismo do Nordeste não pode ser explicado apenas pelo crescimento econômico. Ele se sustenta, de forma mais consistente, na capacidade da região de produzir cultura, influenciar comportamentos e gerar identificação com as pessoas. Hoje, a região ocupa um espaço ativo na construção de tendências, seja na música, na gastronomia, na moda ou na forma de se relacionar com marcas. Isso reposiciona a região dentro da estratégia das empresas. Quem entende esse movimento deixa de enxergar o Nordeste como expansão e passa a vê-lo como um território estratégico de inovação e influência.
Rebecca Lyrio: Entendo que os dois fatores caminham juntos: acredito que a produção cultural tem sido o principal acelerador desse protagonismo, o crescimento econômico amplia oportunidades e isso, somada à capacidade do Nordeste gerar narrativas, comportamentos e referências que influenciam o país inteiro têm colocado a região no centro das atenções. O mercado começa a perceber que o Nordeste não é apenas um destino para distribuição de produtos, mas também um território de criação, inovação e influência.
NOSSO MEIO: Em um cenário cada vez mais orientado por dados, existe o risco de as empresas conhecerem profundamente os hábitos de consumo e, ainda assim, não compreenderem as pessoas. Como equilibrar inteligência analítica e sensibilidade humana na tomada de decisões?
Luciane Sallas: Dados são essenciais, mas não são suficientes. Eles mostram padrões, mas não explicam, sozinhos, as motivações mais profundas das pessoas. O risco está em tomar decisões apenas com base em métricas e perder a dimensão humana do consumo. O equilíbrio vem quando conseguimos traduzir dados em contexto, combinando análise com repertório cultural, escuta ativa e diversidade de perspectivas dentro das equipes. No fim, a melhor decisão é aquela que consegue ser ao mesmo tempo precisa e sensível.
Rebecca Lyrio: Os dados explicam o que está acontecendo e as pessoas ajudam a entender por que está acontecendo. O problema surge quando as empresas acreditam que dashboards substituem convivência, escuta e observação. No dia a dia, acredito que a melhor tomada de decisão acontece quando dados quantitativos e repertório humano trabalham juntos, lendo contexto. Em mercados tão diversos quanto o brasileiro, compreender pessoas é tão importante quanto medir comportamentos: os números irão mostrar padrões e a capacidade analítica da cultura, emoções e relações sociais são fundamentais para interpretar esses padrões corretamente.
NOSSO MEIO: Tanto a indústria quanto a comunicação vivem uma pressão constante por inovação. Como diferenciar uma inovação que realmente transforma o negócio de uma iniciativa que apenas responde a uma tendência momentânea do mercado?
Luciane Sallas: O ambiente de negócios hoje é muito pressionado por novidade, e isso gera um volume grande de iniciativas que nem sempre se sustentam. Inovação real é aquela que resolve um problema relevante, gera impacto mensurável e se conecta com a estratégia do negócio. Não é sobre tecnologia isolada ou tendência do momento. A diferença está na consistência: inovação de verdade integra modelo de negócio, cultura e execução. É isso que transforma, e não apenas reposiciona temporariamente.
Rebecca Lyrio: Nem toda novidade tecnológica representa inovação, muitas vezes vemos empresas correndo para adotar ferramentas porque o mercado está falando sobre elas enquanto a pergunta que deveria vir antes é: qual problema estamos resolvendo? Se a resposta não for clara, provavelmente estamos diante de uma tendência e não de uma transformação. As organizações mais maduras são aquelas que conseguem experimentar novas tecnologias sem perder de vista seus objetivos estratégicos e a experiência das pessoas que atendem.
NOSSO MEIO: O Nordeste tem produzido marcas, lideranças e projetos com relevância nacional. O que ainda precisa acontecer para que a região deixe de ser vista como uma promessa e passe a ser reconhecida definitivamente como um centro estratégico de influência econômica e cultural do país?
Luciane Sallas: O Nordeste já demonstra, na prática, sua relevância econômica e cultural. O que ainda falta é consolidar essa percepção de forma mais ampla no imaginário nacional. Isso passa por dar escala ao que já está acontecendo: fortalecer ecossistemas, ampliar a visibilidade de marcas e lideranças da região e acelerar processos de integração com o restante do país. Existem ativos muito potentes aqui, que são o talento, a criatividade e a capacidade empreendedora do nordestino. O próximo movimento é consolidar esse conjunto como um pilar estruturante da estratégia nacional.
Rebecca Lyrio: Acredito que o principal desafio seja a mudança de mentalidade dos próprios centros decisórios do mercado. O Nordeste já produz inovação, negócios, talentos, audiência e influência em escala nacional. Em muitos casos, o reconhecimento ainda não acompanha a realidade, então precisamos ampliar investimentos, fortalecer ecossistemas locais e aumentar a presença de lideranças nordestinas nos espaços onde as decisões são tomadas, para que se possa contribuir com a construção das estratégias que moldam o mercado brasileiro.
NOSSO MEIO: Sua trajetória profissional foi construída em setores que passam por profundas transformações. Há alguma crença de mercado que há dez anos era considerada quase inquestionável e que hoje já não faz mais sentido sustentar?
Luciane Sallas: Uma ideia que já não se sustenta é a de que crescimento e eficiência são escolhas excludentes. Hoje, crescer com disciplina, com base em dados e com foco em rentabilidade é não só possível, como necessário. Outra mudança relevante é em relação à forma de gestão. Modelos muito rígidos e hierárquicos perderam espaço para estruturas mais ágeis, colaborativas e abertas à experimentação. Os negócios que evoluem são aqueles que conseguem combinar consistência na execução com flexibilidade na forma de operar.
Rebecca Lyrio: Talvez a principal crença seja a de que alcançar mais pessoas automaticamente gera mais resultado para as marcas. Durante anos, o mercado foi orientado por métricas de escala, como audiência e alcance. A lógica era simples: quanto mais pessoas impactadas, melhor. Hoje, essa relação já não é tão direta. Em um ambiente fragmentado, a atenção se tornou um recurso escasso e relevância, contexto e capacidade de gerar conexão passaram a valer mais do que simplesmente acumular audiência, o que ajuda a explicar a ascensão dos influenciadores e das comunidades digitais. O desafio das marcas deixou de ser apenas aparecer. É preciso ser lembrada, recomendada e escolhida. Por isso, acredito que uma das maiores mudanças da última década foi a substituição da lógica do alcance pela lógica da atenção qualificada.
NOSSO MEIO: Quando você observa o Nordeste da próxima década, qual mudança de comportamento ou de consumo acredita que terá maior potencial para redefinir estratégias empresariais, investimentos e modelos de negócio na região?
Luciane Sallas: O que deve ganhar ainda mais força é a combinação entre digitalização e identidade local. O consumidor nordestino tende a ser cada vez mais conectado, mas sem renunciar àquilo que o representa culturalmente. Isso traz um desafio importante para as empresas: operar com sofisticação (dados, tecnologia, canais) sem perder autenticidade. Além disso, veremos um avanço na qualidade das decisões de consumo, com mais atenção a propósito, experiência e valor percebido. Quem conseguir equilibrar escala com sensibilidade terá uma vantagem clara nesse cenário, porque o futuro da região passa exatamente por essa integração.
Rebecca Lyrio: Falar de uma década é desafiador, diante da velocidade com que acompanhamos as mudanças atualmente, mas acredito que veremos uma combinação poderosa entre digitalização, economia da influência e valorização da identidade local e suas comunidades. Os consumidores serão cada vez mais digitais, mas também mais seletivos. Acredito que eles buscarão marcas que entendam seus contextos culturais, suas comunidades e seus valores ao mesmo tempo em que criadores de conteúdo, especialistas e lideranças locais ganharão ainda mais relevância como mediadores de confiança entre marcas e consumidores. As empresas que entenderem essa dinâmica deixarão de enxergar o Nordeste apenas como mercado consumidor e passarão a vê-lo como um polo estratégico de criação, influência e desenvolvimento de novos negócios.
