Novo modelo apresentado no Google I/O reduz drasticamente o custo de produção audiovisual e deve transformar publicidade, marketplaces e estratégias de conversão
O avanço da inteligência artificial generativa acaba de atingir um dos pilares mais caros da operação digital: a produção de vídeo publicitário. Durante o Google I/O 2026, o Google apresentou o Gemini Omni, família de modelos capaz de criar vídeos completos a partir de comandos em texto, imagens ou áudio. A tecnologia chamou atenção pela capacidade de gerar cenas com física realista, locução sincronizada e acabamento visual próximo ao padrão publicitário tradicional, tudo em poucos minutos.
Entre as demonstrações mais comentadas do evento, uma bola de gude atravessando um cenário animado impressionou pelo comportamento físico extremamente realista e pelos efeitos sonoros sincronizados gerados integralmente por IA. Outra apresentação mostrou a criação instantânea de um vídeo em estilo claymation explicando dobramento de proteínas, reforçando a capacidade da ferramenta de produzir conteúdos complexos em diferentes linguagens visuais.
O lançamento representa mais do que uma atualização tecnológica. Para o mercado de e-commerce e mídia digital, a ferramenta inaugura uma nova etapa na redução do custo de criação audiovisual, permitindo que marcas produzam campanhas em escala, com maior velocidade e personalização.

Segundo Gabriel Bontempo, head de e-commerce do Beach Park, a mudança deve alterar profundamente a lógica operacional das campanhas digitais. “Para quem opera e-commerce e tráfego pago, isso não é mais um lançamento de IA. É o terceiro deslocamento estrutural do custo de produção audiovisual em quinze anos. O primeiro foi o smartphone com câmera 4K, que matou a contratação obrigatória de produtora para conteúdo orgânico. O segundo foi o banco de imagens stock barato com vídeo curto, que matou parte da fotografia institucional. O terceiro acaba de chegar, e ele mata a próxima camada inteira: a produção de vídeo publicitário com som, locução, transições, variação por canal e por idioma”, afirma.
Na prática, ferramentas como o Gemini Omni tornam possível produzir vídeos completos com locução, edição, trilha sonora e adaptação para diferentes formatos sem a necessidade de grandes estruturas de gravação. O impacto financeiro é significativo: produções que antes exigiam equipes, estúdio, captação e pós-produção podem passar a custar apenas uma fração do modelo tradicional.
O próprio Gabriel realizou um teste utilizando uma foto pessoal em alta resolução e os slides de uma palestra apresentada por ele no Gramado Summit. O pedido enviado para a IA foi simples: criar um vídeo “como se eu estivesse fazendo essa apresentação em um palco do TEDx”. Em poucos minutos, a ferramenta gerou um material com iluminação cinematográfica, plateia ao fundo, movimentos corporais sincronizados e cortes semelhantes aos de uma apresentação real. Segundo ele, o resultado foi convincente o suficiente para parecer uma gravação profissional de evento.
Para o varejo digital, isso muda a frequência com que campanhas podem ser atualizadas. Em vez de peças produzidas para durar meses, os criativos passam a funcionar quase em tempo real, acompanhando estoque, sazonalidade, preço e comportamento de consumo. Em setores como hotelaria, moda, turismo e marketplace, a velocidade de atualização pode se transformar em vantagem competitiva direta.
Outra transformação importante está na personalização. Com a IA generativa, marcas conseguem adaptar vídeos para públicos específicos com muito mais facilidade, criando campanhas diferentes para perfis distintos de consumidores sem multiplicar proporcionalmente o custo de produção. O mesmo produto pode ganhar narrativas diferentes para famílias, jovens, turistas ou consumidores premium, por exemplo.
Além disso, o modelo amplia a capacidade de internacionalização das campanhas. Sistemas de IA já conseguem gerar versões em diferentes idiomas, com locuções naturais e adaptações culturais automáticas, algo que antes dependia de equipes especializadas e altos investimentos em localização de conteúdo.
Mas o avanço da tecnologia também acende alertas dentro do mercado. Bontempo aponta que marketplaces e plataformas intermediárias podem se tornar protagonistas dessa nova disputa criativa. Segundo ele, empresas como marketplaces já possuem imagens, descrições, avaliações e dados suficientes para gerar campanhas próprias usando IA, muitas vezes antes das próprias marcas.
“Marketplaces e plataformas intermediárias já têm fotos do seu produto em alta resolução, descrição completa, reviews com texto longo e em muitos casos áudio de comprador via experimentos próprios. Agora têm um modelo capaz de transformar tudo isso em vídeo publicitário sem chamar você”, analisa o executivo. O executivo acredita que isso pode alterar profundamente a dinâmica entre marcas e plataformas de venda.
O movimento também levanta discussões sobre autenticidade, direitos autorais e integridade de marca. Como os vídeos se tornam cada vez mais convincentes, cresce o risco de peças criarem expectativas irreais sobre produtos, experiências ou serviços. Em segmentos como turismo e hotelaria, por exemplo, a diferença entre o material gerado por IA e a experiência real pode impactar diretamente a confiança do consumidor.
Mesmo assim, o mercado já trata o vídeo gerado por inteligência artificial como uma das principais transformações recentes da publicidade digital. Com plataformas integrando IA diretamente a ecossistemas como YouTube, anúncios e marketplaces, a tendência é que o vídeo deixe de ser um ativo raro e caro para se tornar um formato contínuo, dinâmico e altamente escalável.
Nesse cenário, a vantagem competitiva deixa de estar apenas na capacidade de produzir conteúdo e passa a depender da velocidade, da direção criativa e da capacidade de transformar dados em narrativas audiovisuais relevantes quase instantaneamente.
