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IA, eleições e o limite da verdade

Por Redação

05/06/2026 18h00

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Por Jamile Peixoto, jornalista especialista em comunicação de tecnologia da informação

As eleições de 2026 serão as primeiras da história do Brasil disputadas sob regras específicas para o uso da Inteligência Artificial. E não por acaso. O avanço das ferramentas de geração de imagem, voz e vídeo transformou a comunicação política em uma velocidade muito maior do que a capacidade da sociedade de distinguir o que é real do que foi fabricado digitalmente.

O problema deixou de ser apenas tecnológico. Tornou-se eleitoral.

Nos últimos meses, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) precisou endurecer normas diante do crescimento de conteúdos sintéticos capazes de simular falas, posicionamentos e comportamentos de candidatos. A preocupação não está apenas nos chamados deepfakes, mas também na criação de perfis virtuais automatizados, personagens digitais e conteúdos produzidos por IA que circulam sem identificação clara sobre sua origem.

A legislação não proíbe o uso da Inteligência Artificial nas campanhas. Pelo contrário. Ela pode ser utilizada na criação de roteiros, legendas, planejamento estratégico, peças gráficas, segmentação de conteúdo e otimização da comunicação digital. O limite surge quando a tecnologia passa a induzir o eleitor ao erro.

Um vídeo que altera a fala de um adversário. Uma montagem que cria situações inexistentes. Um áudio produzido para simular a voz de um candidato. Um personagem virtual apresentado como pessoa real. Tudo isso pode gerar responsabilização eleitoral. As punições previstas vão desde multas e remoção imediata do conteúdo até perda de tempo de propaganda, investigação por abuso dos meios de comunicação e, em casos mais graves, questionamentos sobre a própria legitimidade da candidatura.

O próprio presidente do TSE, ministro Nunes Marques, alertou recentemente que uma deepfake divulgada na véspera de uma eleição pode alcançar milhões de pessoas antes mesmo de qualquer decisão judicial ser tomada. A preocupação da Justiça Eleitoral não é apenas com a mentira, mas com a velocidade da mentira.

Por isso, a comunicação política vive uma nova realidade: nenhuma peça deve ser publicada sem alinhamento prévio com o jurídico da campanha. O marketing eleitoral deixou de trabalhar isoladamente. Hoje, estrategistas, designers, videomakers, redatores e advogados precisam atuar em conjunto para avaliar riscos, validar conteúdos e garantir conformidade com as resoluções do TRE e do TSE.

Mais do que nunca, o eleitor espera autenticidade. Em um ambiente saturado por algoritmos, avatares digitais e conteúdos artificiais, a confiança passou a ser um ativo ainda mais valioso que o alcance. O cidadão quer reconhecer coerência entre discurso e prática, identificar quem está por trás da mensagem e ter segurança de que não está sendo manipulado por uma narrativa fabricada.

A Inteligência Artificial será uma das protagonistas desta disputa eleitoral. Mas as campanhas que realmente gerarão conexão não serão as que dominarem melhor a tecnologia. Serão aquelas capazes de preservar algo que nenhuma máquina consegue produzir sozinha: identidade, compromisso e verdade.