Uma indústria de notícias forte é essencial, não apenas para a democracia, mas também como uma plataforma estratégica para profissionais de marketing e anunciantes. Ainda assim, os conflitos atuais têm levado parte do mercado a se afastar do jornalismo, muitas vezes com base em percepções distorcidas ou desatualizadas.
Esse foi o ponto de partida da conversa mediada por Jill Zuckman, que reuniu Betsy Reed, editora do The Guardian, Jennifer H. Cunningham, editora-chefe do Newsweek e Rebecca Grossman-Cohen, Diretora de Parcerias Estratégicas do The New York Times.
Logo na abertura, Jill provocou as participantes sobre as transformações recentes no mercado de comunicação. Ao apresentar o modelo do The Guardian, Betsy Reed, editora do The Guardian, destacou um diferencial importante: o veículo não opera com paywall tradicional. “Nos Estados Unidos, 70% da receita vem de contribuições dos leitores, cerca de 58 milhões de dólares, e globalmente esse número chega a 140 milhões”, explicou.
A dependência de uma única fonte de receita, no entanto, foi questionada por Jennifer H. Cunningham, editora-chefe do Newsweek. “No mínimo ingenuidade, e no máximo imprudência, depender de uma única fonte de receita neste ecossistema midiático”, afirmou. Segundo ela, o Newsweek aposta na diversificação, com produtos que vão de assinaturas a eventos, rankings e iniciativas B2B na área de saúde.
“É importante diversificar as estratégias de receita. Também valorizamos o posicionamento da nossa marca como uma organização independente, centrada em fatos e que permite ao leitor formar sua própria opinião”, completou.
Já Rebecca Grossman-Cohen, Diretora de Parcerias Estratégicas do The New York Times, trouxe a perspectiva do veículo, destacando o equilíbrio entre tradição e adaptação. “O que não pode mudar é o jornalismo independente de qualidade, a criatividade e tudo que nos define como organização. O restante precisa evoluir para garantir a longevidade do negócio”, afirmou.
O jornal está próximo de atingir 13 milhões de assinantes e registra entre 50 e 100 milhões de usuários semanais. “Estamos otimistas, apesar de um cenário desafiador, com o avanço da IA e os ataques à liberdade de imprensa”, disse Rebecca.
Como se conectar com a Geração Z
A relação com a Geração Z também entrou na pauta. Para Betsy Reed, editora do The Guardian, não basta estar presente nas plataformas, é preciso construir vínculo. Entre as apostas do veículo estão newsletters temáticas voltadas a esse público.
Jennifer H. Cunningham, editora-chefe do Newsweek, reforçou o papel das redes sociais como porta de entrada: “É o primeiro passo para criar relacionamento e engajamento com a Geração Z”. Já Rebecca Grossman-Cohen, Diretora de Parcerias Estratégicas do The New York Times, destacou que cerca de 30% da audiência global do veículo já pertence a essa geração.
O papel do jornalismo local
Outro ponto levantado foi a fragilidade do jornalismo regional. Para Jennifer H. Cunningham, editora-chefe do Newsweek, a inteligência artificial pode ajudar a equilibrar esse cenário, ampliando a capacidade produtiva de veículos locais. Rebecca Grossman-Cohen, Diretora de Parcerias Estratégicas do The New York Times, complementou: “Os sistemas de IA dependem das informações produzidas por esses veículos”.
Relevância em um cenário de transformação
Ao final, Jill Zuckman, sócia da SKDK, trouxe à discussão o desafio da relevância do jornalismo. Jennifer H. Cunningham, editora-chefe do Newsweek, foi direta: “Um mundo sem jornalistas seria muito assustador”.
Ela encerrou com um chamado à responsabilidade do setor: “Estamos trabalhando todos os dias para que o jornalismo não seja desacreditado. Precisamos dialogar com o público, reconhecer erros, ser transparentes sobre o uso da IA e deixar de tratar a indústria como algo superior”.
