A chegada do live-action de Moana aos cinemas reacende um debate que acompanha a Disney há mais de uma década: até que ponto revisitar animações de sucesso é uma forma de preservar clássicos ou apenas uma estratégia para explorar propriedades intelectuais altamente lucrativas? No caso de Moana, a discussão ganha um ingrediente extra. A animação original estreou em 2016, um intervalo considerado curto para uma releitura em comparação com outros clássicos do estúdio.
Para parte do público, a nova versão chega cedo demais para despertar nostalgia. Para outros, a produção parece reproduzir a história original quase quadro a quadro, levantando questionamentos sobre a necessidade criativa do projeto. No entanto, quando se observam os resultados financeiros da Disney, fica evidente que a resposta para essa aposta pode estar menos na nostalgia e mais nos bilhões de dólares movimentados pelas franquias da empresa.
Live-actions não são algo novo na Disney
Embora muitas pessoas associem os live-actions a uma tendência recente, a estratégia começou há décadas. O primeiro experimento foi Mogli – O Menino Lobo (1994), seguido por 101 Dálmatas (1996), estrelado por Glenn Close. Entretanto, foi a partir de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, lançado em 2010, que a Disney percebeu o enorme potencial comercial do formato.
O filme arrecadou mais de US$ 1 bilhão em bilheteria mundial e inaugurou uma sequência de adaptações que se tornaria uma das principais apostas do estúdio. Desde então, praticamente todos os anos um novo clássico ganhou uma versão em live-action, transformando personagens já conhecidos em ativos capazes de movimentar cinemas, plataformas de streaming, produtos licenciados, brinquedos, parques temáticos e campanhas publicitárias.
A estratégia também se mostrou altamente rentável. Entre os maiores sucessos da Disney nesse formato estão:
- O Rei Leão (2019) – US$ 1,66 bilhão
- A Bela e a Fera (2017) – US$ 1,27 bilhão
- Aladdin (2019) – US$ 1,05 bilhão
- Lilo & Stitch (2025) – US$ 1,03 bilhão
- Alice no País das Maravilhas (2010) – US$ 1,02 bilhão
- Mogli: O Menino Lobo (2016) – US$ 967 milhões
- Malévola (2014) – US$ 758 milhões
- A Pequena Sereia (2023) – US$ 570 milhões
- Cinderela (2015) – US$ 542 milhões
- Dumbo (2019) – US$ 353 milhões
Os números ajudam a explicar por que a Disney insiste na fórmula. Aladdin, por exemplo, arrecadou mais que o dobro da animação lançada em 1992, que havia somado aproximadamente US$ 504 milhões em valores nominais. O sucesso demonstra que personagens conhecidos continuam atraindo diferentes gerações, especialmente quando impulsionados por campanhas globais e pela força das plataformas digitais.
Mas nem todas as adaptações encontraram o mesmo caminho. Dumbo, lançado em 2019, arrecadou pouco mais de US$ 350 milhões diante de um orçamento elevado e custos significativos de marketing. Pinóquio (2022), estrelado por Tom Hanks, foi lançado diretamente no Disney+, recebeu críticas negativas e pouco impacto cultural.
Já Branca de Neve, um dos projetos mais aguardados dos últimos anos, enfrentou polêmicas desde o anúncio do elenco, mudanças na abordagem da história e críticas nas redes sociais, encerrando sua trajetória como um dos maiores fracassos recentes da Disney nas bilheterias.
Os resultados mostram que a força da marca, sozinha, já não garante sucesso automático.
Diversidade de renda envolvida na estratégia
Mesmo assim, abandonar os remakes parece estar longe dos planos da companhia. A explicação está no próprio modelo de negócios da Disney. Ao contrário de outros estúdios, a empresa não depende exclusivamente da venda de ingressos. Cada lançamento alimenta um ecossistema de receitas que inclui licenciamentos, brinquedos, roupas, livros, atrações em parques temáticos e o catálogo do Disney+.
Um personagem de sucesso pode gerar receita por décadas em diferentes frentes. Sob essa perspectiva, um live-action não é apenas um filme: é uma ferramenta para manter franquias relevantes e ampliar seu potencial comercial. Essa lógica ganha ainda mais força diante das transformações vividas pela empresa nos últimos anos.
Embora o Disney+ tenha conquistado milhões de assinantes desde o lançamento e hoje seja um dos maiores serviços de streaming do mundo, a plataforma levou vários anos para alcançar rentabilidade. Ao mesmo tempo, a recuperação do mercado cinematográfico após a pandemia ocorreu de forma desigual, tornando ainda mais importante apostar em propriedades intelectuais com reconhecimento global.
Para analistas da indústria, investir em histórias já consolidadas reduz significativamente o risco financeiro em comparação à criação de uma franquia inédita, que exige investimentos semelhantes, mas sem a garantia de uma base de fãs já estabelecida. É justamente nesse contexto que Moana chega aos cinemas. A personagem tornou-se uma das mais populares da Disney na última década, impulsionada não apenas pelo sucesso da animação original, mas também pelo desempenho expressivo no streaming.
Durante anos, a princesa de Motunui figurou entre os filmes mais assistidos nas plataformas da empresa e consolidou uma geração de novos fãs. O lançamento de Moana 2, que ultrapassou US$ 1 bilhão em bilheteria mundial, reforçou ainda mais o valor comercial da franquia, tornando natural, do ponto de vista empresarial, a decisão de investir em uma versão com atores.
O que vem por aí:
O futuro indica que essa estratégia deve continuar. A Disney já confirmou o desenvolvimento dos live-actions de Enrolados e Hércules, enquanto uma sequência de Lilo & Stitch também já foi anunciada após o desempenho histórico do primeiro filme. Rumores envolvendo adaptações de outras animações, como Frozen, seguem circulando na indústria, embora ainda não tenham sido oficializados.
A tendência mostra que o estúdio continuará apostando em propriedades intelectuais reconhecidas, mesmo diante das críticas sobre a falta de originalidade. A grande questão, porém, é até quando essa fórmula continuará funcionando. O público parece cada vez mais dividido entre o desejo de revisitar personagens clássicos e a expectativa por histórias inéditas.
Se, por um lado, os números comprovam que os live-actions ainda movimentam bilhões de dólares, por outro os fracassos recentes evidenciam que a nostalgia, sozinha, já não é suficiente para garantir sucesso. Para a Disney, o desafio daqui para frente será encontrar o equilíbrio entre revisitar seu vasto catálogo e oferecer experiências capazes de justificar uma nova ida ao cinema.
O desempenho de Moana poderá indicar se essa estratégia ainda tem fôlego para dominar as bilheterias ou se chegou o momento de o estúdio apostar novamente em novos universos e personagens.
