Lideranças da região defendem que o crescimento só se sustenta unindo alta performance a uma gestão humana, sem importar fórmulas prontas de fora
O Nordeste se consolidou como o segundo maior mercado consumidor do Brasil, e o avanço econômico trouxe consigo um desafio que se desloca do balcão para os bastidores das empresas: como atrair, formar e reter as pessoas capazes de sustentar esse crescimento. Para duas lideranças da região, a resposta passa menos por copiar modelos nacionais e mais por unir alta performance a uma gestão genuinamente humana.
À frente da Stark Assessoria Esportiva desde 2014, Luciana Paiva conduziu a empresa ao topo do GPTW, incluindo o título de Melhor Empresa para Trabalhar do Ceará e a entrada no ranking das melhores do Brasil. Para ela, o reconhecimento nasce de uma coerência interna. Estar no topo do GPTW Ceará e entre as melhores pequenas empresas do país, para ela, é o reflexo de que a marca não está apenas vendendo saúde e alta performance, mas vivendo isso internamente.
A lógica é transferir aos colaboradores o mesmo zelo dedicado aos atletas. “Na Stark, nosso maior diferencial na gestão de pessoas é o alinhamento de propósito”, diz. “Nós tratamos o nosso colaborador com o mesmo cuidado, técnica e foco em desenvolvimento que dedicamos aos nossos atletas.”
O selo, na sua leitura, é desdobramento, não objetivo: “O selo GPTW não é a nossa meta, ele é a consequência de um ambiente onde as pessoas têm orgulho de vestir a camisa Stark todos os dias”.
Disciplina do esporte, afeto do Nordeste
Liderar na região, observa Luciana, pede adaptação, e o esporte entra como método: “a lógica do esporte e o contexto regional não se anulam, eles se somam”. A estrutura de metas e disciplina convive com uma marca cultural local: “aqui, o profissional se engaja muito mais pela conexão e pelo propósito do que pela frieza dos números. Liderar aqui exige afeto, escuta ativa e proximidade”.
O porte enxuto, defende, é uma vantagem que as grandes corporações deveriam observar, porque gera pertencimento imediato e permite olhar a carreira de forma individualizada. Empresas de todos os tamanhos devem, segundo Luciana, automatizar processos, mas nunca automatizar relações. “O tamanho da empresa pode ser pequeno, mas o cuidado com as pessoas precisa ser gigante”, acrescenta.
Formar é tão importante quanto contratar
Se de um lado o crescimento abre oportunidades, de outro escancara a falta de mão de obra qualificada. É o que aponta Aldecy Mecenas, gestora em RH, presidente da ABRH-SE e membro do conselho consultivo da ABRH Brasil. Para ela, a expansão do mercado consumidor não resolve o gargalo, apenas o redimensiona.
Diante disso, diz, o RH precisa não pode se resumir à área de recrutamento, mas de formação de talentos. As lideranças, defende, não podem mais atuar como consumidoras de mão de obra pronta, e sim investir em aprendizagem, estágios e capacitação contínua. “O futuro pertence às organizações que entendem que formar pessoas é tão importante quanto contratar pessoas”, resume.
A atuação de Aldecy à frente da ABRH-SE, com parcerias junto instituições públicas, entidades de classe, universidades e empresas, reforça sua tese de que a área precisa ultrapassar os limites corporativos. “O RH moderno não pode limitar sua atuação aos muros da empresa; ele precisa compreender seu impacto social e econômico”, afirma.
A conclusão é assertiva: “Acredito que o RH é, sim, um agente de desenvolvimento regional”. Promover empregabilidade, fortalecer lideranças e aproximar oportunidades, na sua visão, contribui diretamente para o crescimento sustentável do estado e da região.
Da posição que ocupa na ABRH Brasil, vendo o Nordeste por dentro e em comparação com o país, Aldecy identifica um equívoco recorrente de quem tenta transplantar a gestão de outras regiões. “O principal equívoco é acreditar que as mesmas soluções produzem os mesmos resultados em contextos diferentes”, diz. A saída não é uma gestão melhor ou pior, mas mais aderente: “as organizações que obtêm melhores resultados no Nordeste são justamente aquelas que conseguem equilibrar boas práticas nacionais com uma leitura genuína da cultura regional”.
