O Nordeste está voando. E os números do primeiro trimestre de 2026 ajudam a entender por quê essa afirmação importa muito além do setor aéreo. Maceió registrou crescimento de 11,46% na movimentação de passageiros no Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares entre janeiro e março de 2026, totalizando 436,8 mil passageiros, acompanhando o crescimento de 12,86% da região Nordeste como um todo, bem acima da média nacional de 8,95%. São dados que revelam não apenas aquecimento do turismo, mas a consolidação de uma nova geografia da mobilidade aérea brasileira.
O problema é que crescimento de demanda, sozinho, não garante expansão de rotas. E é justamente aí que entra uma proposta que pode mudar o jogo da conectividade regional no país.
O Ministério de Portos e Aeroportos propôs um modelo de regulamentação da Lei Complementar 214, de 2025, que potencializa a aplicação dos benefícios previstos na reforma tributária para o setor aéreo, com foco direto na ampliação da aviação regional. O mecanismo central é o uso da malha aérea total de uma companhia, e não de trechos isolados, como critério para acesso à redução de 40% sobre os tributos IBS e CBS. Seriam reconhecidas como empresas aéreas regionais aquelas cuja operação seja predominantemente regional, com ao menos 50% da oferta de assentos dedicados a rotas regionais.
A lógica por trás da proposta é a do subsídio cruzado, mecanismo já consolidado em outros setores de infraestrutura. Na prática, a rentabilidade de rotas com maior demanda gera fôlego financeiro para que as companhias invistam em destinos menores, tornando economicamente viável operar onde a demanda ainda não justificaria o voo de forma isolada.
Para entender por que isso é urgente, basta olhar para o cenário atual. Em 2025, o Brasil registrou apenas 1.764 rotas domésticas ativas, o menor patamar desde 2012, e apenas 163 dos 504 aeroportos públicos brasileiros contam com voos regulares. O país registra média de 0,47 passagem aérea por habitante ao ano, cerca de metade da média observada na Colômbia. O mercado é altamente concentrado, com as três maiores companhias respondendo por mais de 99% da operação doméstica.
Maceió, nesse contexto, funciona como um caso de estudo preciso. A capital alagoana tem crescido de forma consistente, impulsionada pela combinação de promoção turística, ampliação da conectividade e fortalecimento da experiência do visitante. A Secretaria de Turismo de Maceió aponta que o crescimento é resultado de um trabalho estratégico de fortalecimento do destino nos principais mercados emissores do Brasil e do exterior, combinado com investimentos em conectividade aérea e melhoria da experiência do visitante. Mas a consolidação desse crescimento depende da chegada de novas frequências e rotas, o que, por sua vez, depende de um ambiente regulatório que torne esse investimento atrativo para as companhias aéreas.
“A iniciativa de olhar a malha aérea como um todo é uma resposta proativa ao desafio de regionalização. Garantir um percentual mínimo de rotas regionais na malha das empresas é uma maneira de equilibrar e preservar o setor e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso da população ao transporte aéreo”, destacou o ministro Tomé Franca.
A proposta ainda está em debate com o Ministério da Fazenda e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, mas o timing não é casual. O Nordeste demonstrou que a demanda existe. A questão agora é criar as condições estruturais para que o mercado responda a ela. Conectividade aérea não é apenas uma questão de turismo. É uma questão de desenvolvimento regional, de acesso, de integração econômica e de oportunidades que só chegam onde existem rotas.
