No especial de Dia das Mães do Nosso Meio, Tamires Soares Brito, Lia Quinderé e Ana Celina Bueno compartilham as dores, dilemas e escolhas de mulheres que precisam se dividir entre trabalho e filhos
“Existe uma maneira correta de ser mãe?”
Talvez esta seja uma pergunta que atravesse a mente de muitas mulheres ao longo da vida. Mas ela parece ganhar outro peso entre aquelas que também ocupam posições de liderança. De um lado, a cobrança por resultados; do outro, a cobrança por presença, cuidado e colo. Conciliar esses dois universos nem sempre significa encontrar equilíbrio. Muitas vezes, significa apenas aprender a conviver com a imperfeição.
“O maior desafio é aceitar que você não será perfeita nos dois lugares ao mesmo tempo. Já teve reunião importante que eu saí mais cedo. Teve festa de aniversário em que minha cabeça ainda estava na fábrica. Essa culpa bilateral é real e ninguém prepara a mulher pra isso”, relata Lia Quinderé, CEO da Sucré Alimentos e mãe de duas filhas.

Quem compartilha desse sentimento é Tamires Soares Brito. Aos 36 anos, mãe de três filhos e diretora-executiva do Nosso Meio, ela afirma que uma rotina mais leve e menos baseada em culpa se constrói a partir de acordos possíveis, conversas honestas e apoio mútuo dentro de casa e também no trabalho. “A vida real é feita de dias em que conseguimos mais e dias em que conseguimos menos. Tem dias em que sou mais mãe, outros em que sou mais executiva, e em muitos dias sou as duas coisas ao mesmo tempo, fazendo o melhor possível com o que tenho. E tá tudo certo”, afirma.
Além da culpa e da cobrança, há também um terceiro fardo: as escolhas. Aos 60 anos e atuando como presidente da Fenapro, Ana Celina Bueno olha para a própria trajetória com honestidade ao revisitar as decisões que precisou tomar entre maternidade, carreira e construção profissional. Sua primeira filha, Amanda, nasceu justamente no ano de abertura da sua agência, a Acesso Estratégia Criativa, e a maternidade chegou acompanhada de insegurança financeira, jornadas intensas e decisões difíceis como focar mais na própria carreira.
“O mercado foi mais fácil de lidar do que a maternidade. Mesmo assim, dei o meu melhor dentro do que eu acreditava e acredito. O resultado se manifesta no que os meus se tornaram. Eu reconheço que não consegui levar eles ao médico, ir a todos as reuniões da escola. Por muitas vezes, chegava exausta nas festinhas de aniversário e alguns eu me ausentei por questões do trabalho. Mas eu investi muito na formação deles, na liberdade com responsabilidade e na honestidade nas relações. Isso é a prova de que uma mãe fora do padrão pode dar certo”, ela relata.
De formas diferentes, Tamires e Lia também reconhecem que maternidade e a carreira exigem renúncias constantes que provocam desconfortos:
“Eu fui mãe aos 18 anos e a maternidade precoce impactou minhas decisões profissionais, porque ela me fez amadurecer antes do tempo. Enquanto muitas amigas da minha idade estavam descobrindo caminhos com mais liberdade, eu já precisava fazer escolhas pensando em alguém além de mim. Precisei reorganizar planos, pausar sonhos e entender que minha trajetória profissional não seria construída em linha reta. Hoje percebo que a maternidade não atrasou minha vida. Ela moldou a mulher e a profissional que eu me tornei. A maternidade não veio como um desvio da minha história; ela virou parte essencial da minha construção”, relata Tamires.

“A maternidade me obrigou a delegar de verdade. Aprendi que um time bem formado entrega sem que você precise estar em tudo. A Sucré cresce muito mais quando deixo de achar que preciso controlar cada passo. Hoje entendo que preciso construir uma empresa que funcione e não uma empresa que dependa de mim funcionando no limite”, aponta Lia.
Se a maternidade trouxe culpa, renúncias e reorganizações constantes, ela também alterou profundamente a forma como essas mulheres passaram a liderar. Em vez de endurecer, a experiência parece ter ampliado a capacidade de escuta, percepção emocional e leitura das pessoas ao redor. Para Tamires, esse processo começou no momento em que a maternidade a tirou do centro das próprias prioridades:
“Você passa a entender que existem outras demandas, outros tempos e outras necessidades além das suas. Isso muda a forma como você olha para a vida e também para as pessoas. Minha liderança tem um lado muito maternal. Já me questionei muito sobre isso, porque às vezes sou compreensiva demais, em outras preciso impor limites com mais firmeza. Mas aprendi que não existe fórmula perfeita. Esse meu jeito me humaniza muito. Hoje eu gosto de ficar nos bastidores, ajudando as pessoas a brilharem, organizando caminhos para que outros cresçam”.
Essa percepção também aparece na relação que construiu com o próprio trabalho. Não por acaso, Tamires costuma dizer que o Nosso Meio é como um “quarto filho”. “Quando digo isso, é porque o Nosso Meio também nasceu de mim, das minhas renúncias e da minha história. Assim como um filho, ele exige presença, cuidado e atenção constante. Mas também precisei aprender que filho é filho e empresa é empresa. Houve um momento em que meu filho mais velho me fez perceber que aquele ritmo estava custando minha saúde. Hoje entendo que cuidar da empresa também significa criar estrutura, confiar nas pessoas e permitir que ela funcione sem depender exclusivamente de mim”, relata.
Na Sucré Alimentos, Lia Quinderé percebe essa transformação principalmente na maneira como conduz pessoas e constrói cultura dentro da empresa. Para ela, a maternidade ampliou sua capacidade de perceber aquilo que muitas vezes não é verbalizado. Segundo a empresária, essa leitura emocional alterou diretamente a forma como passou a conduzir feedbacks, relações internas e processos de gestão.
“Isso mudou completamente a forma como escuto as pessoas e como tento construir segurança psicológica dentro da empresa. Hoje temos muitas mães no time e eu sei, na pele, o que significa receber uma ligação da escola no meio de uma reunião. Essa vivência aparece nas políticas que criamos, na flexibilidade que oferecemos e no olhar que temos para cada uma delas”, afirma.
Atualmente, cerca de 40% da equipe da Sucré é formada por mães. Para Lia, liderar também passou a significar criar um ambiente onde essas mulheres consigam existir profissionalmente sem esconder as próprias vulnerabilidades. “Quando contratamos uma mãe em situação de vulnerabilidade, não estamos apenas gerando emprego. Estamos mudando a trajetória de uma família inteira. Isso aparece no nosso estilo de liderança, nas decisões que tomamos, nas pessoas que escolhemos para o time. Toda vez que preciso tomar uma decisão difícil, me pergunto: isso é coerente com o que a Sucré representa? Essa pergunta me coloca no lugar certo”, ressalta Lia.
Ana Celina Bueno aponta que a maternidade ajudou a suavizar aspectos da própria liderança e ampliar sua compreensão sobre as diferentes formas de existir dentro do ambiente corporativo. “Sou uma só pessoa, seja como mãe ou como líder. Mas a maternidade me ensinou a enxergar mais as pessoas, a compreender tempos diferentes e a construir relações mais verdadeiras. Isso muda completamente a forma como você ocupa espaços de liderança”, afirma.

Aos 60 anos, ela diz viver uma fase marcada menos pela necessidade de provar algo e mais pelo desejo de compartilhar experiência e construir legado. “Hoje, e já há alguns anos, é maravilhoso. Na maternidade, discuto mercado, estratégias e visões de presente e futuro. Da minha vida e da deles. E nessa troca temos nossa base de apoio e sustentação. Ter 60 anos, ter formado filhos, desenvolvido boas relações e boas parcerias me dá uma liberdade e felicidade imensas de projetar novas trajetórias para cumprir o meu propósito”, finaliza.
