Análise

O som que atravessa barreiras: a autenticidade latina em evidência no Grammy de 2026

Por Lucas Abreu

02/02/2026 11h39

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Celebrado no último domingo (1), o Grammy Award 2026 entrou para a história como um marco para a cultura latino-americana na temporada de premiações internacionais. A noite começou simbólica com a vitória de Caetano Veloso e Maria Bethânia na categoria Melhor Álbum de Música Global e ganhou contornos ainda mais emblemáticos com o reconhecimento de Debí Tirar Más Fotos, de Bad Bunny.

Cantado integralmente em espanhol, o álbum tornou-se o primeiro trabalho cantado inteiramente em espanhol a vencer a principal categoria da premiação, Álbum do Ano. O feito não apenas colocou Bad Bunny no centro do palco da indústria musical global, como também sinalizou um novo capítulo para a música latina em um contexto atravessado por tensões políticas, sociais e culturais, no qual identidade, linguagem e pertencimento voltam a ocupar o centro do debate.

¿Cómo Bad Bunny va a ser rey del pop con reggaetón y dembow?

Apesar de ser cidadão americano, Benito Antonio Martínez Ocasio nasceu fora do eixo musical anglo-saxônico. Cria de Porto Rico, tem o espanhol como língua-mãe, o sotaque caribenho como marca e, para além do oceano que banha o município de Vega Baja, traz como referência central as ruas da periferia onde cresceu. Esses elementos que compõem sua identidade pessoal foram convertidos em epicentro artístico: sua obra passa a retratar o território de origem e a reverberar afetos, vivências e tensões compartilhadas por quem habita a experiência latina.

Com a expansão do streaming no final da década passada, Benito — agora plenamente reconhecido como Bad Bunny — atravessa fronteiras e alcança um público global, incluindo o mercado estadunidense. Sob os holofotes, ele escala sem suavizar linguagem, estética ou discurso para se adequar aos padrões do mainstream. É justamente essa recusa à adaptação que permite ler Bad Bunny como um artista que entende a autenticidade latina não como estratégia de mercado, mas como núcleo de sua arte e de sua marca pessoal.

Paralelamente, Bad Bunny constrói sua persona pública e intervém na cultura pop a partir de um ativismo político explícito. Suas canções e posicionamentos dialogam diretamente com a defesa da identidade porto-riquenha, da comunidade LGBTQIAPN+ e dos direitos dos imigrantes, além de confrontarem o colonialismo simbólico e as desigualdades sociais. Esse tensionamento ganha ainda mais força ao se dar dentro de um gênero historicamente marcado por letras machistas, misóginas e homofóbicas. Ao ocupar esse espaço, o artista amplia e redefine seus códigos, transformando-o em um território legítimo de debate sobre masculinidade, memória, ocupação cultural e identidade, não de forma panfletária ou moralista, mas como um lembrete constante de quem pertence, quem é apenas tolerado e quem segue socialmente excluído, ainda que culturalmente consumido.

Sua força, no entanto, não se sustenta apenas na consistência criativa. Bad Bunny também se impõe pela capacidade de ser amplamente consumido. Hoje, disputa o pódio de artista mais ouvido do Spotify com nomes emblemáticos do pop global, como Taylor Swift e The Weeknd. Em 2025, chegou a superá-los, acumulando 19,8 bilhões de streams na plataforma — um dado que evidencia não apenas popularidade, mas domínio estrutural em um mercado historicamente resistente à música em espanhol.

Outro marco decisivo ocorreu em 2023, quando Un Verano Sin Ti se tornou o álbum mais ouvido da história do Spotify, ultrapassando a marca de 15 bilhões de streams e emplacando múltiplas faixas acima de um bilhão de reproduções cada. O feito reposicionou Bad Bunny dentro da lógica da indústria global e expôs uma mudança concreta nos critérios de sucesso: ritmos, sonoridades e estéticas latinas deixaram de ser tratados como exceção ou nicho e passaram a operar como ativos centrais de escala, consumo e valor no mercado musical internacional.

Embora à primeira vista pareça restrito ao ambiente digital, o impacto de Bad Bunny também se materializa no território físico. A série de apresentações “No Me Quiero Ir de Aquí”, realizada em sua terra natal, atraiu milhares de turistas e, segundo estimativas, gerou um impacto econômico local entre US$176,6 milhões e US$733 milhões.

Com a consagração de Debí Tirar Más Fotos como Álbum do Ano no Grammy de 2026 e a apresentação no Super Bowl, no dia 8 de fevereiro, Bad Bunny e a música latina inauguram um novo capítulo. Embora não seja o primeiro artista latino a ocupar um dos maiores palcos do entretenimento global, Bad Bunny será o primeiro a fazê-lo com uma apresentação inteiramente em espanhol, levando consigo não apenas um repertório, mas um conjunto de bandeiras identitárias. O movimento sugere menos uma exceção bem-sucedida e mais um abalo estrutural: o enfraquecimento da centralidade anglo-saxônica na indústria musical e a emergência de uma era em que linguagens, ritmos e estéticas globais passam a disputar valor em condições mais equilibradas.

A partir desse ponto, a discussão inevitavelmente se amplia. Como se reorganiza o cenário para os artistas já inseridos na cultura latina, que compartilham esse mesmo espaço simbólico e mercadológico com Bad Bunny?

Esquina a esquina, y ahí nos vamos. El mundo es grande, pero lo tengo en mis manos

A expansão da música latina no mercado global é um processo cumulativo, sustentado por transformações nos padrões de consumo e por reposicionamentos simbólicos dentro da indústria cultural. Antes de Bad Bunny, artistas como Gloria Estefan, Shakira, Luis Miguel, Selena e Ricky Martin já haviam cruzado fronteiras, criando pontos de contato entre a produção musical latino-americana e o mainstream dos Estados Unidos e da Europa.

Ainda que esses movimentos estivessem frequentemente apoiados em estratégias de adaptação — versões bilíngues, colaborações com artistas anglófonos ou adequações estéticas —, eles foram decisivos para ampliar a visibilidade institucional da música latina e tensionar os limites impostos ao espanhol dentro da lógica tradicional da indústria fonográfica.

Em 2017, o fenômeno “Despacito”, de Luis Fonsi e Daddy Yankee, operou uma ruptura inédita. A canção tornou-se a primeira música majoritariamente em espanhol a liderar a Billboard Hot 100 por 16 semanas consecutivas, além de alcançar recordes históricos de audiência no YouTube e de consumo em plataformas de streaming em escala global. A canção demonstrou que uma música em espanhol, ancorada em ritmos latinos e sem neutralização cultural, podia atingir alcance massivo e se consolidar como ativo comercial altamente rentável.

Na década seguinte, essa lógica se aprofunda com a consolidação do streaming como principal canal de distribuição e com o reggaeton assumindo o papel de uma das linguagens centrais do pop global. Artistas como J Balvin, Karol G, Maluma, Rosalía e, mais recentemente, Peso Pluma representam uma nova etapa dessa expansão: menos dependente da validação de centros tradicionais e mais orientada pela construção de universos estéticos próprios, com identidade e autonomia narrativa.

Os números confirmam que não se trata de um fenômeno episódico. Nos Estados Unidos — maior mercado de música gravada do mundo — o segmento latino alcançou cerca de US$1,42 bilhão em receita em 2024, representando aproximadamente 8% do faturamento total da indústria, com crescimento anual superior à média do setor. Em 2020, essa participação girava em torno de 5,6%, o que evidencia uma ampliação estrutural do espaço da música latina no mercado norte-americano, e não uma tendência passageira. Apenas no primeiro semestre de 2025, o gênero já respondia por quase 9% de toda a receita fonográfica do país, impulsionado majoritariamente pelo streaming, responsável por mais de 98% do consumo do segmento.

Os efeitos desse movimento também se refletem na geografia econômica da música. A América Latina figura entre as regiões de crescimento mais acelerado da indústria fonográfica global, com taxas superiores a 20% ao ano em determinados períodos. Em menos de uma década, a receita regional praticamente triplicou, impulsionada pela expansão do acesso ao streaming e pela crescente capacidade de exportação cultural de seus principais artistas.

Esse cenário, já consolidado tanto do ponto de vista econômico quanto simbólico, é o que torna possíveis fenômenos como Bad Bunny. E é a partir dele que a discussão se desloca para o próximo eixo: se a música latina conseguiu reposicionar o espanhol no centro da indústria global, de que forma outras potências culturais — como o Brasil — podem ocupar esse mesmo espaço sem abdicar de suas próprias linguagens, ritmos e identidades?

Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento

A música brasileira ocupou posições centrais na história da indústria musical global muito antes de o streaming redefinir os modos de consumo. Em 1965, João Gilberto conquistou o mesmo troféu que hoje projeta Bad Bunny — o Grammy de Álbum do Ano — com Getz/Gilberto, ao lado de Stan Getz. Para além de inserir “Garota de Ipanema” no imaginário musical mundial, o feito ajudou a estruturar a bossa nova como principal referência internacional da linguagem sonora brasileira, estabelecendo um vocabulário estético que atravessaria décadas.

A influência da música brasileira, no entanto, extrapola premiações e categorias formais. Ela opera em múltiplas camadas do imaginário pop global, muitas vezes por vias indiretas, difusas e estruturalmente incorporadas. A canção “Somebody That I Used to Know”, que liderou a Billboard Hot 100 e venceu prêmios internacionais, utiliza um sample de “Seville”, do instrumentista brasileiro Luiz Bonfá. Na década seguinte, o mesmo sample foi ressignificado em “Anxiety”, da rapper americana Doechii, evidenciando como a herança musical brasileira segue circulando e sendo reinterpretada em diferentes contextos culturais e geracionais.

A influência brasileira sempre esteve presente, mas muitas vezes de forma isolada. Para mudar esse cenário, os grandes palcos globais, festivais e premiações devem conhecer os trabalhos produzidos aqui. Estar presente em uma premiação como o Grammy reforça como esses espaços funcionam também como centros de decisão. Quando artistas e empresas planejam sua presença fora do país desde cedo, a influência ganha rosto, nome e continuidade. É assim que a tendência vira presença real“, afirma aponta Roni Maltz Bin, CEO do Grupo Sua Música.

O funk brasileiro é outro exemplo de como essa influência se manifesta de forma contemporânea. O gênero vem sendo incorporado tanto em álbuns quanto em performances de artistas do pop global. Beyoncé utilizou um sample de “Aquecimento das Danadas” na faixa “SPAGHETTII”, de seu álbum Cowboy Carter, vencedor do Grammy de Álbum do Ano em 2025. Já Rihanna apresentou um remix de “Rude Boy” com produção do baiano Klean, levando o funk ao palco do Super Bowl 2023.

Mais recentemente, a canção “So Easy (To Fall In Love)”, da britânica Olivia Dean — vencedora da categoria Artista Revelação no Grammy 2026 — reforça essa linhagem de influência. A faixa incorpora elementos da bossa nova em sua construção harmônica e estética, indicando que a música brasileira continua sendo uma fonte criativa relevante para artistas estrangeiros com projeção global.

Em paralelo a esse impacto simbólico, a indústria musical brasileira também passou a consolidar resultados expressivos no mercado global. Em 2024, o setor fonográfico nacional ultrapassou R$ 3,4 bilhões em receitas, com crescimento superior a 20% em relação ao ano anterior, posicionando o Brasil entre os dez maiores mercados de música gravada do mundo. O streaming responde por mais de 87% da receita total, e artistas brasileiros passaram a gerar centenas de milhões em royalties, alcançando públicos que extrapolam o território nacional e ocupando espaços estratégicos em playlists internacionais.

“O Brasil ainda opera muito como um mercado à parte, apesar da enorme afinidade cultural com a América Latina. Essa percepção fica ainda mais clara quando estamos em ambientes internacionais, como o Grammy Latino, e observamos a integração entre os países hispânicos. Falta ao Brasil participar de forma mais ativa desse ecossistema, seja por meio de colaborações, circulação de artistas ou projetos conjuntos. Ao mesmo tempo, isso representa uma grande oportunidade. Quanto mais o Brasil se insere nesse diálogo, maior é o seu alcance global”, aponta Roni Maltz Bin.

Nesse contexto, artistas de diferentes gêneros vêm ampliando sua projeção fora do país. Anitta, considerada a maior pop star brasileira da atualidade, mantém presença consistente na América Latina e nos Estados Unidos. Alok se consolidou como um dos DJs mais influentes do circuito eletrônico global. Já Pabllo Vittar, a drag queen mais seguida do mundo, acumula colaborações com nomes centrais do pop internacional, como Lady Gaga, Major Lazer e Charli XCX, expandindo o alcance simbólico da música brasileira em diferentes frentes.

A combinação entre um mercado interno robusto e o domínio do streaming cria, hoje, condições inéditas para que artistas brasileiros projetem suas carreiras internacionalmente sem a necessidade de abdicar de seus códigos culturais de origem. O cenário atual indica que o Brasil já não precisa mais provar sua relevância estética, mas sim estruturar estratégias de circulação, investimento e narrativa capazes de transformar essa presença em continuidade e não em aparições pontuais.

“O sucesso das músicas em espanhol mostra que a língua não é um limite quando existe identidade aliada a uma estratégia bem definida. O Brasil pode aprender a confiar mais na força do português, sem tentar diluir sua identidade. Quando a história é bem contada e o posicionamento é claro, o idioma deixa de ser obstáculo e passa a ser diferencial. Feats fortes e planejamentos estratégicos bem executados são o caminho para derrubar fronteiras que ainda existem”, ressalta Roni.

A musicalidade brasileira segue se infiltrando, influenciando e reconfigurando o pop mundial a partir de suas próprias matrizes. Em uma indústria cada vez mais sensível à diversidade estética e cultural, o desafio que se impõe não é o reconhecimento, mas a construção de um protagonismo sustentável, à altura da potência histórica que o Brasil já demonstrou possuir.