Análise

Os laços geracionais do rádio: memória e herança familiar

Por Redação

13/02/2026 15h19

Compartilhe
  • Whatsapp
  • Facebook
  • Linkedin

Por Clarisse Maciel, estagiária de Jornalismo do Nosso Meio

Eu chego sem bater. A porta já está meio aberta, como quase sempre esteve a vida inteira, e o meu “oi, vovô” chega antes de mim, escorregando pela casa como quem já conhece o caminho. 

Ele está no seu quarto, sem camisa, bermuda leve, o ventilador girando preguiçoso, o cabelo todo branco bagunçado pelo vento e aquele barrigão descansando para frente. Na sua mesa, o computador aberto em algum jogo antigo do Ceará, um caderno cheio de anotações e um rádio antigo do seu lado. A cena é tão cotidiana que parece não ter importância, mas é justamente desse tipo de simplicidade que vêm as recordações da minha infância.

Sento perto dele, pego o gravador e explico que preciso conversar um pouco por causa da crônica do Dia do Rádio, uma pauta do trabalho que caiu para mim. Ele concorda com a cabeça, ajeita a cadeira, como quem encara aquilo com a simplicidade de sempre, sem fazer alarde. Age como se a própria história fosse pequena demais pra virar texto.

Antes mesmo de começar a entrevista, minha cabeça se lança em flashbacks da Clarisse criança. Lembro de quando eu era pequena e a rádio parecia um lugar secreto, quase mágico. As paredes cheias de espuma, o silêncio esquisito do estúdio, o cheiro de equipamento velho e café. Eu sentava no chão, encostada na parede, enquanto ele falava no microfone com uma segurança que não usava nem dentro de casa. O “no ar” acendia e eu via o meu avô falar sobre a coisa que ele mais amava, falava como se não tivesse mais outros pensamentos. 

Foi ali, naquele chão frio, que eu tive meu primeiro contato com o jornalismo, mesmo sem saber dar esse nome. Enquanto outras crianças aprendiam o mundo pelos desenhos animados, eu aprendia escutando análise tática, escalação, crítica de juiz, intervalo de jogo. Aprendi cedo que contar o que está acontecendo também é uma forma de cuidar das pessoas, de não deixar ninguém sozinho do outro lado do rádio.

Em casa, futebol nunca foi só televisão ligada. Muitas vezes eu preferia o chiado do radinho. Quando jogava o Ceará Sporting Club, eu abaixava o volume da TV e procurava a estação certa, só pra ouvir a voz do Edmilson Maciel, ou para mim, do vovô, comentando tudo com aquele tom seguro, quase íntimo. Era estranho e bonito perceber que a mesma voz que me chamava para ir à escola, estava entrando na casa de um monte de gente que eu nunca vi.

No estádio, isso ficava ainda mais forte. Cada senhorzinho com um rádio colado no ouvido parecia carregar um pedacinho do meu avô ali dentro. Eu olhava ao redor e pensava que, de algum jeito, ele estava conversando com todos eles ao mesmo tempo. A voz dele atravessava a cidade inteira enquanto eu, neta, me sentia privilegiada por reconhecer aquela voz antes de todo mundo.

Quando ele começa a contar a própria história, fala com a naturalidade de quem não percebe o tamanho do caminho que fez. Diz que sempre gostou de futebol, que ia aos jogos quando tinha dinheiro, que o primeiro foi ainda menino, levado pelos irmãos, uma goleada do Ceará que ele lembra como se tivesse acontecido ontem. Depois veio a vida “séria”: faculdade de engenharia, trabalho em construtora, fábrica, banco, concurso público. Tudo muito certo, muito estável, muito adulto.

Só que o amor pelo futebol ficava chamando baixinho. E aí veio a rádio.

Um amigo montou uma equipe esportiva, convidou ele pra ajudar, depois veio o curso de radialista em Sobral, trinta dias intensos para aprender técnica, dicção, legislação. De repente, ele estava fazendo programa musical de madrugada, o tal “Rei do Brega”, das oito à meia-noite, emendando com transmissões esportivas, comentários improvisados, plantões. Quando percebeu, já tinha trocado a engenharia pelas escalações do time.

Ele me conta que, no começo, comentava jogo sozinho por quinze minutos no intervalo, só com um papel cheio de anotações. Escrevia os lances principais, os erros da defesa, quem estava jogando bem, e precisava transformar aquilo em narrativa ao vivo, sem tropeçar nas palavras. “Era se virar nos quinze”, ele diz, rindo. Eu imagino o nervosismo, o coração disparado, a responsabilidade de falar pra tanta gente sem ver o rosto de ninguém.

Enquanto ele fala, gesticulando, contando nomes de rádios, colegas, estádios, eu percebo que a trajetória dele não é feita de grandes manchetes, mas de insistência. Décadas dormindo tarde, indo para estúdio, comentando o jogo do Ceará até tarde, trabalhando muito por pouco dinheiro, porque o futebol estava no sangue. Porque o rádio, pra ele, nunca foi só emprego. Era o amor também.

No meio da conversa, eu me pego pensando que escolhi o jornalismo do mesmo jeito que ele escolheu o rádio: sem perceber direito quando virou escolha. Cresci naquele ambiente, ouvindo história, aprendendo a prestar atenção nos detalhes, entendendo que sempre tem alguém do outro lado esperando que você conte o que está acontecendo. A referência estava ali dentro de casa o tempo todo, andando pela sala, sem camisa, cabelo branco, como se fosse só mais um avô comum.

Mas não era. Meu avô era, e ainda é, a voz que muita gente conhece quando falo do Ceará.

Quando desligo o gravador, fico com a sensação de que essa história também é um pouco minha. Não herdei o microfone esportivo nem a prancheta de comentarista, mas herdei o ouvido atento, a vontade de narrar o mundo, essa mania de transformar memória em texto. E toda vez que sai um gol do Ceará, eu ainda procuro instintivamente o som do rádio, como se em algum lugar ele ainda estivesse anunciando o lance com aquele entusiasmo antigo.

No fim das contas, talvez seja isso que o rádio faz com a gente. Ele não fala só de futebol ou de notícia. Ele cria laços invisíveis. E eu cresci amarrada a um deles, puxada pela voz do meu avô, que sem querer me ensinou que contar histórias também pode ser um jeito de amar.